terça-feira, janeiro 27, 2004

sinto-me
tão-só
centelha

como se me diluísse
não mais ser
me contivesse
tão-só
como outrora fosse
luz divina
que pairassse
que outro ser me emprestasse
e já de si tão alheia

apenas
luz se perdesse
nada do que fui
soubesse,
do que serei
me pesasse!

Hei-de Cantar!




Quero que a canção
permaneça
em meu coração
em meu verso
em meu tormento
minha desolação.
Quero que a canção
não estanque
seja para sempre
artéria a brilhar
escarlate
até que meu ser se esgote

Hei-de cantar!
ai, vou cantar!
Digam que não posso
nem devo,
deixai-os dizer!
desobedecendo fui e irei!
Hei-de continuar
cantando!!!!


mendigo carinho
c'os olhos e os lábios
mas tu não queres ver
e passas por mim
sem sequer olhar
minha alma faminta
de mão estendida
á beira da estrada
da vida

De olhos abertos




Bem podeis amordaçar-me!
Que me importa,
se estou viva
e tenho um coração que canta?
Bem podeis ir buscar cordas
e amarrar-me ainda mais,
que importa
se sou livre
e o meu espírito tem asas?
Bem podeis meter-me em masmorras,
nada importa!
Continuarei a gritar
que é meu o universo.
Bem podeis cortar-me a garganta,
nem isso importa!
À terra grande e livre
legarei meu corpo:
Morrerei de olhos abertos!


No silêncio negro




No silêncio negro da noite
Eles lutam
Passam calados, em fila,
Sofrendo.
No silêncio negro da noite
Eles escrevem
E as paredes brancas
Ficam reflectindo a ânsia
Dos corações subjugados.
No silêncio negro da Situação
Marchamos.


Na degradação total,
Passamos calados
Lutando na noite










As Pontes




Vejo o sol que amanhece no céu sereno.



A terra canta em silêncio nas margens do rio

se pontes servirem de passagem entre margens



que não transpostas a ferro e fogo

em violento desafio, pela arrogância de dizer eu venço,

eu tenho, eu mando - eu mando! - eu posso;

de nada servirão. Que caiam inteiras.



Para que as pontes entre os que não procuram o encontro?



Mero engano de que rio; mero engano por que choro

com as vítimas inocentes deste jogo

jogadas como peças no desumano desvario.



No horizonte envenenado de cinzento o sol renasce entretanto

escondido, esquecido seu ouro vivo de sempre-eterno encanto

Filha de deus menor




Quando me chamam poeta

Sorrio e penso:

... mas filha de um deus menor.

Calo o espanto

De me ver descoberta sem esforço



Por outro lado,

Se existe um Deus Menino

E tudo o que vive cresce,

É justo que Deus

Também assuma a idade

Que eu assumo quando cresço,

Para me assemelhar à imagem

Da qual o Homem foi feito

Ou que o Homem cria

No lado bom de si mesmo.



Fico no desconforto

esperando

Encontrar um braço do rio

Do conhecimento,

Um cais de onde me lance

no encontro

e me seja permitido beber um pouco



Ah ao menos um pouco,

Matar esta sede que sinto!

Das Idades




A velhice é um rompimento

Do compromisso

Entre a alma e o corpo,

Divórcio adiado.



Às vezes adormeço quieta

Na juventude tão certa...

De noite algo de transcendente acontece:

Acordo nas garras de mil anos

Que me carregam os ossos.



Enquanto os olhos lentamente despertam,

Peço encarecida aos nervos

Que me reconheçam

Me ressuscitem

Me sustenham e reunam



Geralmente me sinto menina pequena,

Como pareço.

Passo assim as largas horas brincando.

Esquecida de quanto sou breve,



Procuro

Ir aprendendo à revelia dos mestres,

Das primaveras, das chuvas.



Reconheço que é raro

Medir-me e saber-me na idade que, dizem,

Tenho

Embora seja estranho;

porque de atingi-la e vivê-la,

Em coerência com a minha poesia,

É das poucas proezas de que me orgulho.

talvez seja a primavera

que docemente te toca

te transforme

o grito em sorriso



Talvez a raiva

na tela do céu azul

se adoce

na terna brancura

de um lírio



O sol

em cada flor desabrocha

e à força da Natureza

nada há que a contenha

pois existir é essência

e nós estamos dentro dela

talvez seja a primavera

que docemente te toca

te transforma

o grito em sorriso



Talvez a raiva

na tela do céu azul

se adoce

na terna brancura

de um lírio



O sol

em cada flor desabrocha

e à força da Natureza

nada há que a contenha

pois existir é essência

e nós estamos dentro dela

Dentro de mim
Desabrocha
Uma-flor-de-amor
Oferecendo
Suas pétalas
Orvalhadas
No ignoto
Infinito
Pleno
De ausências
É tal a beleza
Que me alimenta
Como á orquídea
Que sobrevive
Lançando
No nada
Suas raízes
Suspensas!


Mulher de Corpo e Alma




para que solte a fêmea
que me habita e que procura
contigo em ti
primavera,

Não me queiras nua
toma-me absoluta
tua
inteira solta
inquieta
pensadora
criança
que ri e que chora
que ama


Não olhes mais meus olhos
Não, não olhes!
Tristes de ti por ti
Te farão triste
De tal amor, tão louco amor
Que semeaste

Em coração de fértil dar
Mas não colheste.

Lágrima solta vadia
Deixa correr
Que tanto seus caminhos sabe

A de sofrer

Deixa que sonhe e pense
Quem deveria
Nem nunca sequer ousado

Sequer nascer.


singular silhueta




Que soprem diáfanos e brancos
os ventos de mudança
que varram a tristeza sem nome
que por mim passa
que se percam no longe
nos confins
onde a esperança
houvera dar por si renascida

que se erga imensa e clara
a figura
única
de minha alma com a tua
singular
silhueta
de dádiva
cúmplice como outrora!

vai e vem...
é branca a espuma
é verde o mar.

Vai e vem...
e quando rola
a areia se evola
na água salgada
do meu mar.

Maré cheia, vem
Maré baixa, vai
o mar...

na orla,
espero descalça
o teu voltar.

Tentando reencontrar-me
percorro
um a um
todos
os caminhos antes percorridos
tantos escolhos
tantos espinhos

suponho
deveriam meus pés
acostumados
a nenhuns desvelos
incólumes percorrê-los

Mas não!
é vão pensar-se
que existam antídotos
fabricados
de sofrimentos passados

erro num ermo
eterno
mas vou
(talvez no engano)
desesperado
de vir a ver a luz
o branco nenúfar
a clara
fulgurante
mágica
verdade
de que se faz
minha ideia
ávida
de bonança.


Falta-me o tempo,
Foge-me a vida.
Queria varrê-la agora
Com a vassoura de prata
De pontas entrelaçadas,
De bicos entretecida.
Mas falta-me o tempo,
A vida...
Queria fechar os laços
Que sangram na minha alma,
Queria secar a ferida,
Queria limpar a face
De lágrimas percorrida,

Mas falta-me o tempo, foge...
Fugindo, me leva a vida.

Queria dizer a todos

Que fiz do ódio Amor

E da pancada carícia,

De fel doce mel criei

Que floresci
Os espinhos

De minha vereda

Que rejeitei
Maus caminhos

Que segui
Os meus sentidos

Que fui Eu
Somente e ainda.

Mas sinto fugir-me a vida...

Sinto o frio
Sinto a terra
Fecho os olhos
O ar me falta
Breve o sol desaparece
Uma doce nuvem paira
Sinto em terna paz minha alma
Sinto-me desvanecer

Já quase não sinto nada!


Jazz




canto
sou violino
violoncelo
sou trompete
toco a solo
minha voz voa no vento
sombra no escuro
luz ao sol
reflexo de nácar
no brilho
em que nasce
a manhã.
Vénus.
Leite.
Cidra.
Maçã perdida
perfumando
o imenso
pomar.


lágrima




escondo
o
encanto,
desvio
calada
o
pranto,
desdigo
a
cor
do riso.

fonte
tremente,
vela
no rosto
à
deriva.
rio
fluindo,
desvendo
a
raiz
de mim,
roxo lírio.

levo
o
desfeito
mar
magoado
e
exponho
o
querer
sonhado

se
em minha fonte
surgira
a
esperança
o
brilho
claro
que fora

a
ventura
o
arco íris
a
opala
o
claro resplendor
da
aurora.

Na noite de breu
só há uma estrela
mas não está no céu
a guiar minha vela...

no negrume sem fim
vou sozinha
sozinha
que essa estrela única
é minha

levo-a eu, dentro de mim...