terça-feira, janeiro 27, 2004




morro de saudade
nada há que me console
poema algum que a lave
palavra alguma que role

tanta dor de ti silente
dentro da minha clausura
vibrante seta que fura
minha alma transparente

que neste silêncio grita
ais de mim e de lonjura
que partem de mim segura

se com a tua se encontra
se aos teus abraços se lança
como fonte de água pura.



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morro de saudade
nada há que me console
poema algum que a lave
palavra alguma que role

tanta dor de ti silente
dentro da minha clausura
vibrante seta que fura
minha alma transparente

que neste silêncio grita
ais de mim e de lonjura
que partem de mim segura

se com a tua se encontra
se aos teus abraços se lança
como fonte de água pura.



DOCE REFLEXO

em doces sonhos perdida
revivo a tua presença

antiga moura encantada
num feitiço de indif'rença
que ao teu olhar se quebra
que um toque teu incendeia
em teu carinho se embala
pulsante paixão emana
meu coração arde em chama
teu reflexo, maré viva!



CANÇÃO DE NAVEGAR


Porque me terá deixado
ao partir, o meu amado,
em tristeza sem sentido?!
Tendo as saudades matado
porque é que terá ficado
solto no ar este pranto?
Meu amor vê as marés,
tem sete dores meu cais,
vem navegar-me outra vez!




O BEIJO


SONHO
SE DILUINDO
NO AR
PERFUME DE ALFAZEMA
POEMA
QUE NEM SEI CANTAR

NUVEM QUE QUE ESVAI
MOMENTO NO TEMPO

CARÍCIA
QUE PERPASSA
E SEGUE TÃO LEVE
DEIXANDO PESADA
SÓ MINHA A
SAUDADE




Dos sete mares navegante

nos quatro cantos do mundo

Em meus olhos vais colhendo

a doçura com que adoço

o teu mar sem fim nem fundo

De mim tão certo o sossego

tão constante e conhecido

inda que na noite errante

sempre serei teu abrigo

em meu colo o esquecimento

dos vendavais desse mundo!

Vagueio
Entre terra e céu
Buscando um pouso
Tal um barco
Derivando
Procura um porto

Quero um farol
Que me ilumine
O desespero

Busco uma rota
Denego a âncora


Além ventura
Pende no mastro
A minha alma
Vela arriada
Como uma asa
Que se despena

Como uma flor
Que se desfolha
Na vaga aurora

Sem divisar
Sequer a sombra
Da sua queda.





De passagem




venho falar-te da gralha
banhando-se
no fumo do teu cigarro
espanejando-se e saindo do teu cinzeiro abandonado
livre rebrilhando de negro azul qual fénix
para sair procurando seus pequenos cacos e nicos e ticos nadas
brilhos rebrilhos de azuis

usando ao inverso de ti e de mim
o mau para o bem

venho falar-te
da simples grandeza que existe na simplicidade

venho pedir-te. observa
há várias gerações que garça real pratica
na rã cirurgia genética

venho contar-te
de que tanto o gato doméstico se droga
na erva dos gatos que cresce espontânea no teu jardim
como o jaguar na trepadeira Iaga e livres prosperam
escondidos nas florestas da América do sul

enquanto os homens deixarem

em aparente contraste
venho falar-te
das renas
que escavam as neves espessas
em busca do cogumelo pintado de vermelho e branco
venho falar-te do povo sami
que vive na pré história em cadeia com a rena
e usa a sua urina para ter a ilusão que voa

tu fazes a festa do pai natal
qual de vos brinca de acreditar no quê?!

venho falar-te do lémur
embriagando-se na natureza

venho dizer-te que o pássaro do mel se alimenta mas nunca destroi a colmeia

venho pedir-te que acordes

sê és muito mais que uma besta humana
nota como todo o infinito se toca

pára e pensa!
Mãe,
De onde te veio esse sorriso
Na precaridade e no sofrimento?
Com que olhares me criavas?
Que de mim esperarias?


De onde a força que levavas
Na vida-breve, tormento?


Como pudeste prosseguir sabendo
Que nada além de maior dor te esperava,
Que nunca me criarias, como dizias,
e eu sabia que sabias?


Tanto lias... mas porque bordavas
E como Penélope tecias infinitas rendas
Por um Ulisses que não merecia as prendas


Dessas mãos imaculadas
Tão finas, de unhas cuidadas,
Mãos de menina que eras,
Que menina findarias?


Olhando o teu olhar estremeço
De orgulho e se me vejo no espelho
No meu olhar vejo o nosso


Mãe coragem, atravesso
As altas chamas do mundo
E como tu vou cantando
O Fado que, nos calhando,


Na nossa voz reconheço,
E de coragem recobro
Do pouco de ti que lembro


Vamos, na vida e na morte, sorrindo!


Para minha mãe, Alice de Jesus Gouveia Petronilho, 1932-1958



Para te dizer do enlevo

Que trago no coração

Faria de minha voz brisa

E rumor de maré calma

Cantaria no idioma

Das folhinhas que despontam

Ao calor da primavera

Riria como um riacho

Saltando de seixo em seixo

E a voz de mil passarinhos

Soaria a teus ouvidos

Junto do meu coração

Cantaria na voz livre

Das baleias e golfinhos

Divertindo se

Entre bolhas e sorrisos

Seria eu voz eterna

A cantar uma canção!


Sopro e semeio pombas




na terra cega de ira

voem pombas brancas contra

Os estrondos e as chamas



eu semeio pombas brancas

ao escuro céu numa prece:





que levem a toda a terra

pão, ternura e alegria



calem os tiros e os prantos

apaguem as fogueiras de ira



sopro e semeio pombas



no céu escuro dessa guerra

p’ ra que o dia novo traga,

numa alvorada de esperança,



todas as cores da paz



De Abraçar os Sonhos




Menina sonhadora

morrerás acreditando

que asas de anjos perpassam

altas horas, de mansinho

soprando os teus pesadelos

nas noites só solidão;

menina que te desintegras

em carinhos de ilusão;

menina de olhos vidrados

postos na imensidão;

menina porque é que caminhas

sempre no gume do abismo

entre o nada e a ingratidão?

Levas os braços abertos

mas fica tão alto o céu

quanto acerado é o chão!

Do Fim do Amor




que nenhum amor se acabe
como uma ventania
que o coração nos arranca
que a nossa mente arrasta
para o vago longe nada


que o fim de um amor seja
tão suave como a brisa
colhendo uma por uma
as folhas cor de laranja
entre-o-amor construída


Que nenhum amor se acabe
como uma chuvada que inunda
destruindo a nossa alma
deixando-a pesada de lama
sem forma nem formosura


Que o fim do amor seja
chuva que cai pinga a pinga
no fim de numa tarde morna
em que a gota no chão forma
uma nuvem que se evola


Que Amor findaria nunca?
amar é o acto de Ser
e Ser É continuar!

azul nascente




ergue-se o cisne
espreguiça as torpes asas
e pensa nas gostosas percas


desce a relva luzidia


aos solavancos chega
mas subito pára
e se queda
de puro assombro


será numa esmeralda que desço?
serão as cores de opala
os tons irisados que vejo?


pelo sim pelo não mudo,
interroga c'o pescoço
sou cisne bravo perdido
esta água não conheço


brilha de um estranho brilho


ergue as asas estremecendo
ensaiando outro voo
rumo ao poente vermelho




Na amêndoa
a doçura
das terras do sul
da neve da primavera
onde não neva


na amêndoa
a flor branca e branda
primeira
herança da arábia
prodigiosa


aroma
de amêndoa amarga
cianeto de incerteza
na saudade da lonjura

Infinitos




os astros
que pairam
no estro
se fundem
conosco
fremem
brilham
luzes tantas
intensas
e brancas
alegrias
jóias
únicas
pairam
nossas almas
se dispersam
na breve
distância
erram
perpassam
nossos elos
no infinito
que somos
SABER AMAR
É UM DOM


QUE SE DÁ
SE SE DÁ


SE SE NÃO DÁ
É UM DOM
QUE SE PERDE


SE SE PERDE
NÃO SE TEM


SE SE NÃO DÁ
NÃO SE TEM


SE NEM SE TEM
NEM SE DÁ
NÃO SE TEM


ROSÉ




ROSÉ, QUE A VIDA SÃO DOIS DIAS
JÁ PASSÁMOS TANTAS
TANTAS INJUSTIÇAS
E INCERTEZAS
CAMINHEMOS
NO LADO DA LUZ
PARA OS QUEREM LUZ
NO LADO DO SIM
PARA OS QUEREM SIM
NO LADO DO BEM
PARA OS QUEREM MAL


MAS CAMINHEMOS
Ó VIDA TÃO ALEGRE
QUE BRINCAS
NAS SIMPLES POÇAS DE CHUVA


CAMINHEMOS NO NOSSO CAMINHO
À NOSSA MANEIRA


EMBRIAGUEMO-NOS COM
DOCE ROSÉ!


o tempo que




antes
o tempo
anuncia
é benção
é primavera
risonha amizde que fica
dentro do peito acolhida
como a folhinha enrolada
no escuro gomo escondida


plantemos amor carinho
com suave atenção
aos males
alheios
e aos
nossos


sigamos de mão na mão



como que voz nós poderemos
a poesia cantar
se entre nós não soubermermos
esse verbo conjugar?!


Queria




Queria
passar do deserto
numa caravana

Queria
ir à deriva sem rota
no mar

Queria
encontar-me perdida
para me encontrar

Queria
calar a palavra
que insiste em falar

Queria
conter os soluços
no meu peito de penar

...

E pensar
Que um gesto basta
para nos consolar!