quarta-feira, fevereiro 04, 2004

poetrix - A NOITE

parece que não fim
se o parceiro
é ruim

A noite morre calada
se só meu desejo
fala!

Hoje a poesia em dó maior entrou no meu dia!

dói-me
mas
me eleva
é preciso olhar e ver
de fora
para entender
o que vive
ou morre
se esconde
por dentro
do dó
maior!

Mergulhada em sonho
por teus olhos vendo:
a caixinha de música
está aberta
e na minha
fantasia
dança lenta
a bailarina...
tutu cor-dr rosa
num espelhinho
liso
e roda
e roda
e roda
nesta fantasia
que a ti me leva
e na minha alma
tão irmã da tua
gira roda e dansa
sem fim a
balarina!

DE SENSAÇÕES

NO MEIO DAS ONDAS
(CHEIRA A MORANGO VERMELHO)
SÓ VEJO AR
AZUL E ROSA
TUDO GIRA Á MINHA VOLTA.
ERGO-ME.
FIRMO OS JOELHOS
E FECHO COM FORÇA OS OLHOS.
LEVANTO-ME
ESTENDO OS BRAÇOS
PARA CIMA
PARA LÁ
PARA O CÉU.
FIRMO-ME.
ENTERRO OS PÉS NO SOLO
TRANSFORMA-SE O CHORO EM RISO:
MINHAS AS CORES DO MUNDO,
E QUEM MANDA EM MIM
SOU EU!

TRAVESSIA


ABREM-SE AS ÁGUAS
QUEBRA-SE O GELO
ATRAVESSO AS SOMBRAS

MAS DO OUTRO LADO
SÓ ESTÁ O VAZIO

SOZINHA
SIGO PELA VEREDA
ATRAVESSO IMPUNE
O RIO
OLHLO DE FRENTE,
FIXO,
OS IMENSOS OLHOS
DO MEDO
ENFRENTO DE PEITO NU
AS LANÇAS ACERADAS
DO MUNDO!

Flores no vento



O mundo
é um novo já velho
a morte,
o nosso destino
a nossa única certeza
no fim do nosso caminho

De que servirá o medo?
Tememos o nascimento?
Nercer é começar segindo
da morte
o passo primeiro.

O sofrimento dói muito
e é humano temê-lo
a vida, cada momento
não traz em si sofrimento?

Cubram-nos na morte
o rosto
deêm-nos o esquecimento
vivamos
com dignidade
com carinho
sem tormento

somos hoje e seremos
flores
a tremer no vento!

amadurar é crescer



estou aqui a pensar
quanto me custou chegar
aonde estou
e vencer.
a tempo de saborear

eu acabei de olhar
a vida
no seu lugar
vivi a vida a sonhar
agora quero ficar.

vivi a vida a correr
agora quero parar
em cada esquina onde houver
algo novo a aprender.

estou a amadurar
amadurar é crescer.
agora não quero correr
agora não quero morrer
quero é viver
viver!

ter tempo de vos mostrar
em versos, como calhar,
como é bonito chegar
se gostamos de viver.

olho em frente devagar
vejo o futuro chegar
o agora acontecer
agora quero é viver

quero lá saber dos anos!
anos são meros enganos,
meras contas de somar

e o meu destino é sonhar!

amando não se envelhece
quando o sonho permanece
permanece em nós a flor
do dar, do ser, do amor!
Um lento lânguido e ledo
sentimento foi chegando
não era tarde nem cedo
já só dei por mim amando
e nem mais em mim pensava
mas nele e imaginava
quantos beijos lhe daria
ai meu Deus se o apanhara!
Eram tão lindos meus dias
seguia a sorrrir airosa

feliz

por dentro
azulinha
e por fora
cor de rosa!
Salvo Meu Sonho



Arame farpado
e do outro lado
o sol,
aberto num sorriso!
Com prejuízo
porque o temo
e ao mesmo tempo
o quero.

Medito
e leio e escrevo
e calo o choro
sofro,

mas não desisto
o sol brilha
do outro lado
dos picos
do arame farpado
que fere
por fora e por dentro.

Quieta,
sigo pisando
o meu próprio
caminho
e não
pelo trilho imposto

cerco
de arame farpado
que me enreda
o destino.

Desvio-me
do fogo solto
como se fora
um soldado
aqui caio
lá me levanto,

mas sigo
na rota do vento.
A salvo,
meu sonho!

Ao alto!



eu dei meu amor
a quem me negou!
se tão só eu era
(e eu era só)
no frio
só



s
o
u








Este poema de dor
é a paga do amor
que te dei
e agradeceste
como se a alma doesse
e cada um a chorar
do outro se condoesse
por amor nada dissesse
ficasse em si
a chorar
se te dei
tudo o que sou
que garra te magoou
no lar quente
do meu peito
onde o pobre coração
coloquei na tua mão
e nela se viu desfeito?
quem é que te enganou
onde a mentira que sou
que vês tu que não conheço
onde veneno encontraste
nesta boca que beijaste
e tudo por ti deixou
a rosa que desejaste
no momento que a colheste
e por ti se coloriu
das rubras cores da paixão
que vive no coração
que por ti
quase morreu?

A menina a sua mãe









Mãe porque é que partiste
nessa manhã-noite-negra?

E porque é que me deixaste?
Era leve e pequenina
porque é que não que não me agarraste
e me levaste contigo?

E lembras-te, ao outro dia
das tantas flores que levaste?

Eram lírios, eram rosas
e açucenas, grinaldas
tão lindas! Mas tu dormias!

Como o Barrocal estava triste!
Até o chão percebeu
que tu nunca mais voltavas

Nesse tempo em que eu era
a tua menina pequena
te guardava e me guardavas

Estrada

mendigo carinho
c'os olhos e os lábios
mas tu não queres ver
e passas por mim
sem sequer olhar
minha alma faminta
de mão estendida
á beira da estrada
da vida

Pergunto


Como falar-te
gota
de
magma
que se afoga
pirilampo
só
luzindo
na eterna noite
escura
lágrima
pura
à deriva
no silêncio
permanente
que insiste
ser
palavra


Nús ao Vento



Agora

Passamos às vezes

pelas veredas fechadas

em busca de outros tempos.

Pegamos nossos sorrisos

e alongamos os braços

Para tentar que eles voem

por cima dos muros negros

para os campos

além das montanhas

vermelhas e azuis

onde a aurora nasce.

As nossas vozes sussurram

como se fossemos pássaros

pressentindo

o acordar das serpentes
Lá longe uma estrela


A gente tropeça nas pedras
Que nos mancham o caminho.
Nossos olhos brilham febres...
Nossos joelhos rasgados
Estão a narrar nossas quedas.
Nossos lábios secos pedem,
Nossas mãos gretadas doem.
Nossos corpos alquebrados
Cantam nosso desespero
Mas os nossos olhos brilham
A febre doida da Esperança.
No escuro erguemos a fronte
Porque cremos que lá longe
Brilha uma estrela nossa.

Cachopa da Beira-Rio

Cachopa da beira rio
dei meu coração ao mar
sou filha da foz do Tejo
passo a vida a navegar
meu coração um veleiro
com velas de ir e voltar
peregrenino companheiro
está partido e a chorar
de si só guardo metade
onde a outra irei buscar?
num paraíso distante
Vera Cruz, hei-de chegar!
cachopa da beira rio
com saudades de abalar
e encontrar essa metade
que tanto choro a cantar
meu fado é esta tristeza
quando te irei encontrar?

só perto do meu olhar!

A Amália Rodrigues

Esta noite,
enquanto a noite dormia,
Amália deixou a vida.
Fechou pela última vez
aqueles olhos tão seus,
tão meus,
tão nossos, tão negros!
Na sua garganta
Calou-se a voz imensa,
mas não se calou Amália!
Mulher de vida sofrida
chorava quanto cantava!
Mulher de intensa vivia
e tanto amava a vida

Parou

Docemente, num instante
Deixou de ser
Cansada talvez de ser tanto
deixou-nos em denso pranto
correndo do peito aberto

sofro

não choro a morte de Amália
que Amália não morreu
amália sofreu a sina
seu fado no próprio nome

cantou
cantou
desde o nascimento à morte
Amália, do verbo Amar!

6/10/1999

"não sei que paixão, candente como um ferro sobre a birgorna ou que tristeza mansa como cândida onda que um menino colhesse entre as mãos, erguia o seu jorro naquela garganta"

Escrevi à margem, na hora da triste notícia, este trecho do poema Pranto da Filha de Jefté, de Pablo Garcia Baena

Com todo o meu amor,



Lisboa - Portugal

Debruço-me de mim
e caio

condenada porquê?
Que fiz?
Já não tenho nada
do que fui
mais nada quero

senão
por uma vez
descançar

que semente
germinaria
na crestada
terra
de mim
que ficou?

aqui a poeta
inventa
numerosas formas
de auto
extermínio

LÁGRIMA





lágrima


escondo
o
encanto,
desvio
calada
o
pranto,
desdigo
a
cor
do riso.


fonte
tremente,
vela
no rosto
à
deriva.
rio
fluindo,
desvendo
a
raiz
de mim,
roxo lírio.


levo
o
desfeito
mar
magoado
e
exponho
o
querer
sonhado


se
em minha fonte
surgira
a
esperança
o
brilho
claro
que fora


a
ventura
o
arco íris
a
opala
o
claro resplendor
da
aurora.