domingo, junho 10, 2007



Sem Sonhos //Reviver!


Não há mais sonhos/mas a primavera mana
só letras tristes/ desse húmus alimenta
na pedra que chove./novas flores, esperança!



10/06/07

Poetrix:Maria Thereza Neves & Duplix: Maria Petronilho

quinta-feira, junho 07, 2007






Amanhecer


Poesia

olhar de cada dia,

alvor!


Eu sei que sou

eu sei que estou

eu reconheço-me

neste amanhecer!


Maria Petronilho






Poeira de estrelas



Desvendamos estrelas

Fazemos viagens


De asas a b e r t a s


Levando em letras

Poeiras das estrelas...



Maria Petronilho

quarta-feira, junho 06, 2007







Branca espuma

A boiar à flor da vida
Sou a breve espuma branca
Mil olhos postos no azul

Dissolvo-me na procura
Caio em gotas de chuva
E saio ilesa da lama.









Canto da manhã

Tal açucena que demora em descerrar as pétalas
Afim de expor à luz a graciosa alvura
E no cerne extasia de doçura

Enfim reabre-se a estrada onde a alma caminha
E o olhar se ilumina. Venho saudosa
Ter convosco pressurosa, que o meu coração anela

Abraçar-vos e beijar-vos, se bem sempre vos tenha
No meu imo resguardados, companheiros adorados
O afecto ri das fronteiras… mas a saudade aguilhoa!




Maria






CAIS


Por mais que se saiba

Quanto é breve a vida

Que somos Centelhas

Flores cujas pétalas

Tremulam no tempo

Como dizer ao coração

Que se aquiete

E às lágrimas

Que se recolham

Aos salgados ninhos?!

Como deixaremos

De sofrer saudade

Daqueles que amamos?!


Olho o Imenso

E peço O conforto

De em nós aceitarmos

O cais da despedida

E a longa distância

Dos que já não vemos!


Maria Petronilho



MUELLES


Por más que se sepa

Cuán breve es la vida

Que somos Centellas

Flores cuyos pétalos

Se agitan en el tiempo

Cómo decirle al corazón

Que se aquiete

Y a las lágrimas

Que se recojan

En sus salados nidos?!

Cómo dejaremos

De sufrir nostalgias

De aquéllos que amamos?!


Miro lo Inmenso

Y pido el bienestar

De aceptarnos en nosotros

El muelle de la despedida

Es la enorme distancia

De los que ya no vemos!



Versión en español: Alberto Peyrano








A Voz da Palavra


O autêntico poeta

além do tempo respira

acordando letra a letra


Reinventando a leitura

ressalta em cada poema

a profunda consciência

de compromisso com a vida!



Maria

terça-feira, junho 05, 2007


Maria


Mulher. Nasci mulher,

e meu pai não me pôde afogar.

Berrei - e foi só a primeira pedra

na calçada da desobediência.

Criei-me à deriva, sem freio no sonho.

Prendiam-me, e era solta

Soltavam-me, e era mansa pomba.

Por caridade, passei fome,

ao desleixo, de casa em casa,

- e tanta fartura esbanjada!

Mas não há quem me queira,

criança a pedir tendo tanto,

a penar tendo nada....

Criei-me, criada da criada

que "trouxeram para mim"....


Não importa!

"sou uma princesa encantada,

vou p'ra longe..."

dia após dia aguardava

mas ninguém me resgatava,

masnem pai, nem príncipe, nem fada!


Fiz-me mulher, sempre odiada.

Fui tambor da festa.

Arraial de pancada

numa casaque parecia tudo,

menos o que era:

Uns a discutir com os outros.

Eu a servir todos

aliviando-lhes os braças do trabalho

e a raiva, de pancada.


Pior, eu ousava pensar

E era revolucionária.

Olhava o horror e o negava.

Dentro de mim o nojo enjoava.


A besta de carga arrepiou caminho:

Estudar... ai, não posso!

Preciso um emprego, se quero sair viva daqui!


Abri a porta da coragem e falei!


Abri a porta da gaiola de doidos

e abalei sem nada.


- Nada! - Má memória!


"Uma mulher que pensa não presta!

"Um homem sem riqueza não vale nada"

- Pois foi com o mais odiado por meu pai

que eu casei!


Ele fez de mim besta,

com cornos e de carga.

Sofri e calei até dizer

- BASTA!


Com uma filha pela mão ia caminhando

e todas as maleitas me iam seguindo

até cair, de exausta.


Com todas as forças me reergui.

A filha criada na sua vida instalei.


É pecado uma mulher amar, bem sei,

mas eu quis e foi, sim!

E amei, e amei

Até se descobrir que vivia uma farsa!


Meu pai morreu e fui eu que o enterrei

Meu pai deserdou-me

e eu fiz as honras da des-herança.


Penaque não me tenha deserdado

das sovas e maus-tratos que passei!


Às escuras me alumiei.

No Inverno vou na sombra.

No Verão suporto o sol.

Curtem-me a vida todas dores

de sal, de solidão,de silêncio,

da insolência dos outros,

das forças que me faltam

do tostão amargo

do sacrifício vão.


Mas tenho uma estrela cá dentro

que ninguém há-de apagar!

Mas tenho uns nervos de aço

que ninguém há-de torcer!

Mas tenho uma coragem de ouro

que me vem a acompanhar

- e é esse o meu tesouro,

que ninguém pode roubar,

que as intempéries não mudam,

que está infiltrado em meu sangue

ninguém mo pode tirar

mesmo morta, quando o sangue coalhar!

E tenho uma estrela por vela!

E tenho um alto sonhar,

de que mais vale pobre e honrada

que ter tanto e nada dar!


Fiz rimas com a minha vida:

que as venham buscar as ondas,

que eu já não posso ir ao mar.

Que as façam arder na pira

onde me hão-de queimar.

Que as cerrem no meu caixão

Para ter enfim companhia

que tanto lutei sozinha

e ninguém me dá valor!

Maria Petronilho _ 1999





Em aprazível doçura


A imersão balsâmica

De alfazema e de rosa

Há tanto que te aguarda!

Ideei iguarias afrodisíacas

Para refazer-nos à ceia…


Alongam-se meus olhos

Na longa estrada vazia

E quedo-me sonhadora

Antecipando a centelha

Do teu corpo que ao roçar-me

De pronto me incendeia,

Numa ânsia indefinida

Donde assomo renascida


Onde estás, que te detém?

Escuta bramir o silêncio,

Segue o mudo apelo: vem!

Despe-me as diáfanas sedas

Que prendem a ninfa agitada

Por achar-se libertada!


Aquieta-se a tarde calma

O sol cai, trazendo escusa

De amanhecer nos teus braços

Em aprazível doçura!


Maria







De Maio



maio é o mês de Maria

e eu Maria me chamo

em maio é lindo o campo

em flores desabrochando

maio é meia primavera

maio é o mês da espiga

maio é o mês da rosa

maio é o mês da mãe

o dia de maio é longo

maio é o mês da luz

da moderada ternura

entre o inverno e o verão



Maria






Vazios


Os Côncavos

De tuas mãos,

Esperando

Carícias

Meus seios.

Vazios

Teus lábios

Fechados

E os meus,

Esperando

Teus beijos.

Vazio o Silêncio...o silêncio!

Vazio de ti,

A meu lado,

O lençol bordado

Que me cobre

O leito...



Maria Petronilho



Vacíos


Los Cóncavos

De tus manos

Esperando

Caricias

Mis senos.

Vacíos

Tus labios cerrados

E los míos

Esperando

Tus besos.

Vacío el Silencio¡... el silencio!

Vacío de ti,

A mi lado,

La sabana bordada

Que me cubre el lecho...




Tradução para espanholPatrícia Andreia Rodriguez







Cantiga de embalar o menino Jesus



Ó meu Jesus pequenino,

Minha estrela, enleio, encanto,

Voz da Paz e da doçura

Embalo-te no meu seio

De mãe, Maria, calando

No peito, tanta amargura!

É Natal, mas fria a rua

Onde o desamparo reina

Embala-nos Tu, na esperança

De que haja amor nesta festa!

Dorme, dorme, meu menino,

Meu Jesus tão pequenino

Que está chegando a hora

De nos valeres, porquanto

A terra explode em guerra!

Dorme, Jesus, entretanto

Em meu colo te acalento

Que sou mãe e sou Maria!

Nana, meu Menino em espera!


Maria Petronilho







...Toda a vida te esperei!

Vem aos meus braços ansiosos, sem cansaço de esperar!
Destinei a vida inteira à esperança de te abraçar
Segue o lucilar das estrelas que esboçam rumos no mar!

Maria Petronilho




ALMA ALENTEJANA


Alentejo é mais que solo

Linda planície a luzir

Mar de esperanças a florir

Amor na palma da mão


Aqui o meu coração

Lavrou os campos sem fim

Enraizados em mim

Não tem poiso a vida humana

Tudo o que é belo acrescenta

Essência. Há que guardá-la

Jamais se perca tal flama!

Alentejo donde emana

Na lonjura mas eterna

Alma e vida alentejana!



Maria Petronilho





Por ti!



Se vires estrelas

Luzir nos céus

São os meus olhos

Que andam cegos

Buscando os teus!

Não te achando,

Abre-se a aurora

Minha'alma chora

És sol, sorris!


Só bem te quero

Nenhuma nuvem

No teu caminho

Embace o brilho

Do teu esplendor!

Mesmo escondida

Nesta negrura

Guardo ternura

Por ti, Amor!



Maria Petronilho

segunda-feira, junho 04, 2007







Quem quer sonhos?


Brado sonhos, os meus sonhos
Por tantos anos traçados!
Tenho muitos, sempre poucos
Quem quer sonhos matizados?
Meus sonhos de papel feitos
Encobertos, revelados…
Sim, se os quiseres, dou-tos
Na minh' alma rabiscados!



Maria






Tocasse-te E...




Uma doce melodia

Desse toque surgiria

Uma canção soaria

Pairando no espaço imenso

Desse íntimo tão nosso

Seria um alegre canto

Seria um ridente brilho

Nossos corações tinindo

Um ao outro se entregando


Tocasse-te e nasceria
Uma nova melodia
Dos nossos corpos e almas

Em amor se completando!


Maria






Cumplicidades



Alvoroças-me em extasias
reciprocidade no enlevo
Satisfação sem reservas

Corpo e alma se enlaçam,
desejando entranhar-se
pois meiga é a sede e pura a oferenda

A felicidade transborda

Ao circularmos de mãos dadas pela rua
no olhar dos outros brilha ternura
divisando o fulgor da nossa aura

Exaltarei eternamente o Senhor
ter-nos olhado com brandura

norteado as abaladas mágoas ao júbilo
em que ambos exultamos.


Maria





Nunca passarás, Poeta!

Transcendes a morte em vida!
Vais além do visível, do finito
Tens a missão de sofrer o inaudito
Mas em poemas eternizas tua sina!


Maria Petronilho
27/3/2007





Balzaquiana?!

Ah se me colhesses quando eu era
a rosa pelos cravos cobiçada
e embora simulasse que não via
tirava do juízo ao que passava!

Perseguida,esquivava-me
e enfim o outro desanimava
num suspiro, percebendo
que não me alcançaria nem correndo
pois não sou lebre no prado
mas ígnea mente ardendo!

O corpo perdeu fulgor no tempo
mas amadurou, melhor discernindo
como se ofertar, doce, procurando
o teu prazer e no seu recolhendo
o teu néctar de nácar, no gesto meigo
de quem te entrega a alma num beijo!


Maria