segunda-feira, abril 05, 2004

Noite de Fado




Cantaram a Tágide e o Tejo

Turbulentos, agitados

No ímpeto de seus abraços



Na noite escutei murmúrios

E no mar todos os búzios

Ressoaram os seus cantos



Soavam suspiros tantos

Ternos risos abafados

E gemidos tresloucados



O Tejo adormeceu tremendo

Ela alquebrada em seus braços

Tranquilos, de amar cansados





De amar







Quando me quiseres amar

Finge-te louco de amor

E deixa-me extravasar

Em teu rio minha sede



Quando me deixares ter-te

Dá-me inteira liberdade

De ser terna, que é tarde

E tanto anseio beber-te



Ensaia um dueto comigo

Sê meu rei e meu castigo

Sê o meu senhor e escravo



Possui-me como se louco

E saneia o desconcerto

Do tempo desperdiçado



Teus Beijos









Pairam tão longe, teus beijos!

Mal os avisto, são estrelas!

Desejo havê-las cadentes

Afim de poder bebê-las.



Se poisam, são como chispas

São meigos lumes, centelhas

Percorrem-me como raios

E de tremor me incendeias.



Vesti-me de azul esperando

Fundir-me no céu e as estrelas

Sonegar-te, às escondidas



... Em vão! É Inverno, perdi-as.

Estavam todas cerradas

Em pardos véus de neblinas.











Flauta doce







Ah a cana

Do cabo

De engenho

Flauta doce

Que embebeda

Quanto toca

E dedilha

A minha

Suave lira!





Que inquietação é esta?!









Dentro de mim

Uma ausência

Clama alto

Chora e grita



Por que implora?



Envolve-me

Sempre e ainda

A paz que foi construída

Por minhas mãos

Persistência



Mas em mim grita

A ausência!

Uma ausência

Que não tinha

Que de surpresa

Me apanha

E de súbito

Aguilhoa



Que inquietação

É esta

Que transforma

A minha calma

Que mói fundo

A minha alma?!

"BARULHO
Ferreira Gullard

Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura."

***

DE AMAR O AMOR


todo o poema
é feito de alma

na tela
na torre que se ergue ao céu
na figura descoberta
tirado o excesso de pedra
de madeira
que a escondia

todo o poema é voz
que vivia
escondida
e se lança
irreprimível
solta canta canta e voa

da mão da voz


poeta sofredor

sê o instrumento
da poesia
flama!


Maria Petronilho
E NÃO VENHAS PEDIR-ME
QUE NÃO TE FALE DE AMOR


Não te quero triste
Nem me quero triste
A voz do amor solta se ergue
O meu sonho te procura e segue
Certo no tempo incerto
Incessantemente ao teu encontro.


Volta vazio de teu olhar
Saudoso do teu sorriso
Do teu cheiro no meu cabelo solto
Derramado no teu peito
Ah, como é leve e inevitável seguir este fio!
Como todos os caminhos da ternura
Vão do meu para o teu coração!


Meus ouvidos enlevados
Repetem a tua voz sem conta
Mas todos os meus poros
Anseiam pelos teus dedos
E a minha boca perdeu o dom de sorrir
Pela tua inquieta....






"Mar reflexo"



.....MAR...
AGITAÇÃO E ANINHO
QUE NO SANGUE TRAGO,

ESPELHO INFINITO



DE NOSSO MOMENTO,
O FRÁGIL EQUILÍBRIO!


Mulher de Corpo e Alma




para que solte a fêmea
que me habita e que procura
contigo em ti
primavera,


Não me queiras nua
toma-me absoluta
tua
inteira solta
inquieta
pensadora
criança
que ri e que chora
que ama


mulher de corpo e alma



O BEIJO/EL BESO




SONHO
SE DILUINDO
NO AR
PERFUME DE ALFAZEMA
POEMA
QUE NEM SEI CANTAR

NUVEM QUE QUE ESVAI
MOMENTO NO TEMPO

CARÍCIA
QUE PERPASSA
E SEGUE TÃO LEVE
DEIXANDO PESADA
SÓ MINHA A
SAUDADE


***

EL BESO


SUEÑO
SE DILUYÉNDOSE
EN EL AIRE
PERFUME DE AZUCENA
POEMA
QUE NADIE SABE CANTAR

MOMENTO EN EL TIEMPO

CARICIA
QUE SOBREPASA
Y DIGUE TAN LEVE
DEJANDO PESADA
SOLO MÍA LA
SOLEDAD






EL BESO - Autoria- Maria Petronilho - Portugal-m.petronilho@netcabo.pt -
Traducción para el español - Betty - Argentina - betinahg@yahoo.com.ar

andar como se tivesse





andar ao relento no tempo

como se tempo tivesse

para perder se do tempo



como se algo existisse

se algo ou alguém houvesse


que os amigos separasse
como se o tempo fosse



inexorável



àquele no vai no vento

sem derivar

se alhear ...

qual sombra do meio dia

presente se bem



pequena!



ai ....

a saudade refresca

ao voltar

o ser

a seu ninho retorna

cuidando bem dada a volta



se fica

de posse da vida


SE A SAUDADE
NÃO MATASSE
TALVEZ EU
NÃO TE
DISSESSE
AS SAUDADES
QUE PLANTASTE
AS SAUDADES
QUE DEIXASTE
AS SAUDADES
QUE FIZESTE!

Tempo de Amar


o tempo que
antes
o tempo
anuncia
é benção
é primavera
risonha amizde que fica
dentro do peito acolhida
como a folhinha enrolada
no escuro gomo escondida

plantemos amor carinho
com suave atenção
aos males
alheios
e aos
nossos

sigamos de mão na mão


como que voz nós poderemos
a poesia cantar
se entre nós não soubermermos
esse verbo conjugar?!

Vamos juntos contra o Nada



Raízes se nos entrelaçam

Sorvemos a mesma seiva

Como papoilas fraternas

A rir em trigais infinitos



Vamos juntos contra o Nada

Cansados de indiferença

Olhando na mesma senda

Sentindo com a mesma alma



Sentindo a dor primeira

Como havemos de sentir

A última dor de sermos

Trilhados por vãos motivos



Vamos juntos contra o Nada



Pois prometem-nos a queda

No imensurável abismo

Em busca da vã riqueza

que de nada pode e serve

Se nada produz nem cria




"Cachopa da Beira Rio"


Cachopa da beira rio
dei meu coração ao mar
sou filha da foz do Tejo
passo a vida a navegar
meu coração um veleiro
com velas de ir e voltar
peregrenino companheiro
está partido e a chorar
de si só guardo metade
onde a outra irei buscar?
num paraíso distante
Vera Cruz, hei-de chegar!
cachopa da beira rio
com saudades de abalar
e encontrar essa metade
que tanto choro a cantar
meu fado é esta tristeza
quando te irei encontrar?
... só perto do meu olhar!

CADA VEZ MAIS


TE VEJO MAR, TE SINTO MAR!
SOU DE NOVO A MENINA ABSORTA
CAMINHANDO HORAS ESQUECIDA> DE SI-MESMA, QUE SONHAVA...

...jÁ QUASE SE FOI, A PRAIA!

MAS VIVE AINDA A MENINA
TEMEROSA E FASCINADA,
OLHAR ALÉM - TÃO PERDIDA
DE SI-MESMA, QUE SONHAVA...

SOL VIBRANTE NO MEU ROSTO
CABELOS SOLTOS NO VENTO
FASCÍNO
TERNURA
MEDO!
FECHO OS OLHOS



E VEJO MAR, E SINTO MAR...
SALGADO-DOCE
ASSUSTADORA ATRACÇÃO
QUE NOS AFOGA NUM SORRISO

SENDO PULSANTE VIDA

PROFUNDA TRANSPARÊNCIA
REFLEXO DO CÉU
FRÉMITO
ESCURO-SORRISO

PRINCÍPIO E FIM

CALMARIA E ABISMO
FONTE DO SONHO
NOITE-MANHÃ!
Onde Estás?





Onde estás, que há tempo
que venho te procurando
nas estradas enluaradas;
nos raios de sol filtrados
por entre galhos em flor?
onde estás tu, que eu tanto
venho em vão te procurando;
no pólen que ainda resta;
na flor dourada da giesta
que atapeta a montanha?
onde estás,




que não te encontro,
e há tanto tempo percorro
todas as praias e grutas
em nenhuma te achando;
onde estarás Tu? Eu venho
nesses mares navegando
em nenhum deles te vendo,
procurando-te divago...
contando estrelas me perco
buscando o teu amor!


O oleiro que eu sonho




Vou ainda na esperança
de que um dia
o oleiro que eu sonho
penetre a espiral
onde voo
temendo
perder equilíbrio.

Imagino
que suas mãos
de amor me tomem
e com fervor me recolham
Inteira e leve,
qual ave solta
em feliz em gorjeio

com zelo e carinho
me acolha no ninho
do seu coração!

Digo



Maria Petronilho



Aquém do meu ser total,
Que não sei dizê-lo todo,
Apenas
Sei e sinto
Que não sei dizer tudo,
Nem quanto.
É que há algo imerso
Dentro de quem sou
Que conheço e desconheço
Porque me transcende o entendimento.

Só sei dizer o imenso
Mais do que eu
Que me avassala,
Que não de todo se solta,
Que não vejo mas me inquieta,
Que é muito maior do que eu.

Como se eu fosse rede
E uma ave enorme
Dentro de mim se debatesse
E me rasgasse
Sem contudo conseguir soltar-se,

Para que um dia alguém me
Encontre!





***



DIGO






A quien le doy mi ser total,
Que no sé decirlo todo,
Apenas
Sé y siento
Que no sé decirlo todo,
Ni cuánto.
Es que hay algo inmerso
Dentro de quien soy
Que conozco y desconozco
Porque trasciende mi razón.

Sólo se decir lo inmenso,
más que lo mío,
que me avasalla,
que no del todo se libera,
que no veo mas me inquieta,
que es mucho más grande que yo.

Como si fuese yo una red
y un ave enorme
Dentro de mí se debatiese
Y me rasgase
sin poder del todo soltarse,

para que un día alguien me
encuentre!



(Versión libre en español: Alberto Peyrano)