segunda-feira, junho 04, 2007



A um amigo doente


Talvez um dia
Me transforme em cisne
E ao encontrar-te afaste
Com as minhas grandes asas
Os abutres que rondam
Em roda do teu pobre corpo.
Talvez surja nos teus sonhos
Mulher-ave
Mulher-branca,
Soprarei o pesadelo
Que em febre te consome.
Varrerei com o meu semblante
Essa aura negra de morte
Que envolve e ameaça
Tua vida indefesa

Porque sou da vida o começo,
Sagro a vida no meu seio!

Maria Petronilho


Asa de Lua


Que essa asa de lua

Que me saúda e que passa

Para se encontrar com a tua

Na manhã que recomeça

Nos traga da paz a esperança

Leve longe a ameaça

Que sobre todos nós paira



Que Deus ilumine os sonhos

Dos Senhores da Desgraça

Ilumine as suas almas

Como essa asa de lua

Que no céu divino passa

Lhes traga de novo ao peito

Seus corações de criança.



Dedicado a DD/9/3/2003

Maria Petronilho




SUSANA

S ê flor, mesmo quando as geadas virem
U surpar-nos o fulgor do sol… brinca
S abendo que nada se repete e que agora
A ma com deleite, degustando lentamente
N ada te impeça de prosseguir alegre e ditosa
A ssim! Bendigo este dia e brindo ao futuro!



Glória ao dia em que nasceste
arrojada poeta com asas no vento e pés no caminho
que desenhas!

com muito carinho,
Maria Petronilho





















sexta-feira, fevereiro 23, 2007


Transição

A leve brisa perpassa
Soltando a folha amarela
Que enquanto rodopia
Exulta no ocaso e sonha
Ter-se tornado perfeita
Ressurgindo noutra vida
Em forma de borboleta.


Maria petronilho,
Lisboa, 7/8/2004


O MEU GRITO

Tal como um raio revela
A sobeja cobardia
Que perfidamente intenta
Emaranhar a lisura
Em jogos de infame intriga,
O grito incontido desvenda
O perverso estratagema
Do calculista na sombra
Que o meu grito estraçalha
Na caverna onde se acoita
Rasgo a mudez do silêncio
Do meu grito se faz eco
E tal eco se faz canto
Alastrando no céu limpo
Revelo a nítida auréola
E o meu grito desabrocha
Em flor, borboleta que voa
Transluzindo evidência
Isento esplendor da alma!

Maria Petronilho















QUE O SILÊNCIO FLORESÇA!



Abra janelas de esperança


para estradas de bonança


onde um dia esqueceremos


os espinhos que calcámos


nas flores que ora bordam


e perfumam os passeios






Merecemos, pois lutámos


contra forças desmedidas


Mostrengos, Fúrias, mentiras


chegaremos ao oásis



com o qual sempre sonhámos!

Maria Petronilho

sexta-feira, agosto 04, 2006





APAIXONADO

De repente o teu sorriso
alegre pardal vadio
no meu coração se aninhou!

Maria Petronilho

sábado, julho 15, 2006


ENFIM POETA E MULHER














STAR-OF-HEAVEN-Eduard Hughes




Espero merecer morrer num dia de intenso sol
sem ninguém se aperceber que a minha alma se vai
presa num dos tantos raios que ligam a terra e o céu
e que alfim me guiarão para um espaço além dor
para um lugar só de amor onde poderei ousar
ser poeta e mulher sem ninguém me estranhar

num lugar onde não cabem arrogância e poder

ao resto de mim que ficar não importa o acontecer
não será meu sequer será resto a fecundar
o chão donde há-de nascer nova vida a luzir

o eu que sou há-de estar num cosmos a acordar
sem ninguém me censurar o ser poeta e mulher!

Lisboa, 27/1/2004




Al Fin Poeta y Mujer

Maria Petronilho
Versão em espanhol: Alberto Peyrano

Espero merecer morir un día de intenso sol
sin que nadie se dé cuenta que mi alma ya se va
abrazada de algún rayo que liga la tierra al cielo
y que al final me guiará muy distante del dolor
hacia el reino del amor donde al fin me atreveré
a ser poeta y mujer sin que ninguno me extrañe

un lugar donde no caben ni arrogancia ni poder

y a lo que de mí va a quedar no importa lo que suceda
pues eso no seré yo será un resto que fecunda
el suelo para dar más nueva vida y nueva luz

lo que yo soy ha de estar en el cosmos despertando
sin que nadie me censure si soy poeta y mujer!

Lisboa, 27/1/2004

domingo, fevereiro 12, 2006





















Mãe Eterna



Pomba branca,

tão breve, tão corajosa

ave linda que Deus trouxe

por um átimo à terra

astro que foste

cometa

e atrás de ti deixaste

no esmo frágil centelha

em soledade ferida



ah, mãe como eu aspirava

cobrir-te de rosas brancas

neste dia de lembranças!

mas relembro só de mágoas

as tantas flores que levavas


como se fosse este instante


como se do além pudesse

erguer-te mais que lembrar-te

ouvir-te e ter-te presente


beijo, amada, a tua sombra

aonde o céu te mantenha

esperando a tua filha

desvalida e pequena


desde que te foste embora

uma densa nuvem negra

abafou sua vida


Maria Petronilho
7/5/2005

sábado, setembro 10, 2005



A SAUDADE É UM PORTO DE PARTIDA

A saudade é uma vela
translúcida, vibrante, acesa

representando uma estrela
tanto arde e não se queima!
não é de terra nem de água

mas é transparente, voa!

É ponte que nos mantém
unidos além donde somos
sempiternos viageiros

Saudade é flor de arco íris
luze no céu e revemos
o ser amado presente.

No imo das nossas almas

.. saudade é uma dor doce

não um barco mas um porto
donde se parte e se chega
prevendo que nos abriga



Almada, 14/11/2004

quinta-feira, setembro 01, 2005






INJUSTIÇA

Quando o homem rico
faz mal
todos acodem a descupá-lo
porque têm medo dele.
Quando o homem rico
erra
Todos dizem não errou
e sorriem
e o caso passa.
Mas se o homem pobre
faz mal
todos, todos o acusam
para agradar ao homem rico.
Mas se o homem pobre
erra
é preso, torturado, morto
e os outros, indiferentes,
encolhem os ombros e dizem
"era um pobre diabo"
e a vida continua.

porque tem de ser assim?
Quando acabará a diferença?
Homem pobre, porque esperas?
Sacode de ti esse jugo!
Tens direitos como o rico
luta por eles, por ti!

Maria Petronilho

quarta-feira, julho 13, 2005





angústia


presa vela
no rio
vejo os sonhos
que não tenho

não me deixa
navegar
para longe
deste esmo

que angústia
me enlaça?
parada
na lua nova?


16/6/2003



















Sinfonia da saudade

Embalo
Quebranto
Levando
A ternura
De longe estar

Escutar o sentir

Ir
Além do olhar

Ficar
Luz acesa
Na penumbra

Na saudade de amar
Esta sinfonia
Na alma calada
Que chora a cantar


Maria Petronilho
Luar Adentro


Porque varar madrugadas
De olhos abertos no escuro
Sabendo quanto me sonhas
E os teus sonhos pressentindo

Distintos doces murmúrios
Ao descortinar da sombra
Purpurina que fascina

Vão se emanando os dias
Nós amplas rosas abertas
Velando o zimbório de estrelas

Fúlgidas breves eternas
Esvoaçando desatadas

Meditando que as cadeias
São meras ilusões apenas,

A vida corre e nós nelas!



Lisboa, 12/9/2004
DA OCIDENTAL TERRA LUSITANA


ARDE O POUCO QUE INDA RESTA
DA NOSSA TERRA BENDITA
NINGUÉM ESTRANHA, NINGUÉM GRITA
ALÉM DA NOSSA DESDITA
TUDO VARRE A LABAREDA
NESTA TERRA RESSEQUIDA
SÓ A CINZA COBRE A TERRA
POVO AMADO, QUE SOU EU
INDAGO PARA COMIGO
QUEM FOI QUE TE CONDENOU
A TÃO INFAME CASTIGO?

FOME... SEDE... DESEMPREGO

ATÉ O CHÃO SE CONDOE
AO VER A GENTE SOFRENDO
ARROSTANDO O DESALENTO
MAS PERSISTINDO LUTANDO

HERÓIS DO MAR SEM NAVIO!




DE LA OCCIDENTAL TIERRA LUSITANA

ARDE LO POCO QUE AÚN RESTA
DE NUESTRA TIERRA BENDITA
A NADIE EXTRAÑA, NADIE GRITA.
MÁS ALLÁ DE NUESTRA DESDICHA
SE EXTINGUE LA LLAMARADA
DE ESTA TIERRA YA RESECA
CUBIERTA POR LA CENIZA.
PUEBLO AMADO, QUE SOY YO,
INDAGO PARA CONMIGO
¿QUIÉN FUE QUE TE CONDENÓ
A TAN INFAME CASTIGO?

HAMBRE... SED... EL DESEMPLEO

HASTA EL SUELO SE CONMUEVE
AL VER LA GENTE SUFRIENDO
AFRONTANDO EL DESALIENTO
Y EN LA LUCHA PERSISTIENDO

HÉROES DEL MAR SIN NAVÍO!


8/7/2005
Maria Petronilho
Versão em castelhano: Alberto Peyrano

terça-feira, julho 12, 2005

GATA FELIZ

Feliz, feliz, feliz!
Quero-te eternamente feliz
como te guardo no peito
do lado esquerdo
aonde bate o coração traiçoeiro
mas nós insistimos em fintá-lo
pois somos e seremos
felizes, felizes, felizes
pra sempre

E gatas... ocasionalmente!



(Parabéns, amiga Gata Feliz!)

11/7/2005
Lilases e rosas


Noite de perfumes misturados,
que permanecem jungidos
na alquimia dos corpos,
saciados mas não exaustos
pois a cercania basta
para estimular a chama

noite recamada de brilhos

diademas de luz,
propícios berços etéreos
aonde nos embalamos
abraçados e enfim lassos
enleamos nossos braços
cerramos os olhos risonhos
resvalam dos nossos sorrisos
indícios do amor que nos demos
ternamente nos deitamos
na doce teia de sonhos
enredados por Morfeu

Amanhecerão enlaçados os lilases viçosos e as rosas molhadas de ondas ansiosas


11/7/2005

Jacek Yerka


Choro de Alerta... !

Rebrilham intensas chamas
Incêndios devoram florestas
ardem casas e aldeias
desarvoram as pessoas
ateadas as fogueiras
são lançadassobre as copas
semeaduras e matas
nas sedentas serras reacendem as chamas
atabafadas
gentes animais e plantas
perecem incineradas
baldadaslágrimas
suores cansaços tantas dores escusadas
crepitam choros aflitos
o fumo afoga os gritos
não chegam suor e prantos
para debelar fogos postos
ardem as nossas florestas
consomem-se as nossas esperanças
com tanto amor semeadas
lutamos ao extremo exaustos
enquanto de longe outros
se riem dos nossos esforços
e refastelados se esbaldam
nas piscinas





LLANTO DE ALERTA...!

Brillan las intensas llamas
El fuego devora el bosque
Arden Las casas y aldeas.
Envuelta en llamas, la gente.
Sobre las copas de los árboles
Las hogueras son lanzadas arden los campos, los bosques,
Hasta en las sierras sedientas se avivan
Las llamas enloquecidas
Gente, animales y plantas
Perecen incinerados
frustraciones lágrimas sudores cansancios
tantos dolores
sin sentido crepitan llantos
aflicciones
el humo ahoga los gritos
no llegan sudor y llantos a dominar ese fuego
Arden enteros los bosques
Consumiendo la esperanza
Con la que fueron sembrados
Luchamos hasta el extremo
exhaustos
mientras a lo lejos, otros,
se ríen de nuestro esfuerzo
y suntuosamente se alivian en sus piscinas.


Versão libre em espanhol Alberto Peyrano (Argentina)
3/3/2003

segunda-feira, junho 27, 2005

Quisera ser alquimista


Gustav Klimt_Primavesi



















nas asas de borboleta
no fulgor do pirilampo
no ardil dos peixes
brincando
de esconde esconde
nos seixos
nos irisados reflexos
de cada gota de chuva
se chovera, ... buscaria
em cada grão da seara
e na laranja madura
e em cada bago de uva
moscatel, doce, dourada
como gotinha de mel
milagre vivo de abelha
ao volitar numa valsa
de flor ao sol animada
pelo renovo guiada
Ah, bendita formosura
presente na natureza!
Ah, brilhante natureza
presente na mente sana
que não se afunda na lama
mas enaltece a pureza!

Maria Petronilho,
26/6/2005

segunda-feira, junho 13, 2005

Rhinocerontic Gooseflesh - Salvador Dalí, 1956 Posted by Hello



EU E O MAR À TARDINHA

Na minh' alma o mar canta
mas no meu sorriso chora
a minha mente divaga...
que saudades de lonjura!
Onde acharei a ventura
que o meu coração demanda?
Mar, faz de mim caravela
e que o vento me erga ainda
me leve p'ra onde a ira
não se aprove e aconteça
ó sol indo,chama acesa
que em rubro e ouro se deita
guia-me para a doçura
da paz, do amor, da esperança
que minha alma tanto busca!


Maria Petronilho,
2/4/2004

* * *

EL MAR Y YO AL ATARDECER


En mi alma canta el mar
pero en mi sonrisa llora
mientras mi mente divaga
deseando la lejanía!
Dónde hallaré la aventura
que me pide el corazón?¡
Mar, haz de mí una carabela
y que el viento me levante
y me lleve donde seasuceda lo que suceda!
El sol poniente,llama encendida,
se adormece en rojo y oro,
y guíame a la dulzura
de paz, de amor, de esperanza
que tanto busca mi alma.

Versão livre em espanhol: Alberto Peyrano

domingo, junho 12, 2005

Joseph Kleisch, 1885-1931 Posted by Hello


APESAR DE TUDO


Nada, nada se esquece!
A dor viva permanece.
Não se cura o sofrimento
Desnaturado, nascido
De quem era esperado
Amor, defesa e abrigo
Na minha alma
Céu aberto
Existe uma nuvem roxa
Que entretanto me afoga
Pois só desamor tragou
Minhas asas converteram
A sombria cor das penas
Mas remordem cerceadas
As minhas sãs esperanças
Para sempre decepadas.
Fui salva pelas quimeras
Que entesourei nas estrelas
Em meio ao feroz tormento
Não guardo ódio cá dentro
A quem de infame alvedrio
Tanto e sempre me feriu

Tento deslembrar mas... não!



Maria Petronilho,
21/5/1997
Titinha Posted by Hello




Encantada primavera!


Meio ano!
Até o tempo
enlevado
em braços
doces te aninha
flor pujante de alegria
encantada primavera
que desabrochas tão linda
O tempo te leve sempre
pela estrada mais bonita!

De encanto os pais e tios
trocam entre si sorrisos

como é belo o transluzir
de teus olhos
flor de amor!


Haja muita alegria para sempre,desde sempre,Titinha,amada sobrinha!
Beijos da tia


Maria Petronilho,
16/5/2005
SophieAnderson - peek_a_boo Posted by Hello



OS MENINOS


São os meninos
Que trazem os sonhos
A brilhar nos olhos
Que nada os impeça
De fazer de amor sua estrada.
Tecendo um futuro risonho
Que queira Deus aconteça.
Deixem soltos os meninos,
Ágeis, leves passarinhos,
Que num adejo de asa
Saem depressa do ninho
Viver é o seu destino
E o mundo, a sua casa.



Maria Petronilho
7/5/2005
J. William Watherhouse - Cleopatra, 1888 Posted by Hello


SÓ POSSO ACEITAR O QUE ENTENDO


Aproveitar a vida
É questioná-la
E aos outros
E a tudo o que me rodeia.
Quando não mais perguntar
É porque deixei de ser.
É porque parei de viver.
Mesmo se o meu coração
Teimoso, ainda bater.



Maria Petronilho
29/5/1997
O Tempo corre sem tino Posted by Hello





Eu queria o poder de segurar no colo
As fulvas grinaldas do tempo
Que aos poucos se vão desfolhando
Queria dissipar o alor que prendo
Mas me leva consigo, quase me arrastando.
Eu queria tantos mais minutos em todas as horas!
Eu queria que o sol sobrepusesse as sombras
Eu queria viver, viver todo o tempo
De olhos despertos, folgando ao relento!
Eu queria abolir o tic tac desvelado
Sempre atento, reclamando...
Queria mais tempo, já que Deus mo deu
Para me enlaçar no vosso carinho
E a vocês no meu!



Maria Petronilho,
12/5/2005
SEM APELO NEM AGRAVO


Walter Crane - Summer Posted by Hello


No meu solitário refúgio
se bem que iluminado
pela tua memória
pela tua ausência
deixo pousar a cabeça
no colo da desesperança
Suspendo o ar que inspiro
não me traga o desvario
num átomo do teu cheiro
Represo os passos
entrecerro os dedos
não ousem eles soltar o ímpeto
de te alcançar
de pedir ou de aceitar
de com os teus se enlear.

Afinco-me remoendo
o absurdo não-querer querendo

deixo o meu sangue ferver
deixo o meu sangue secar
deixo-me evaporar
se
etérea celebrar
a aura em teu redor


Maria Petronilho,
30/5/2005
DIANTE DE TI




John William Watherhouse, 1909 Posted by Hello



Estremeço
no espelho de água
me mostro
nua perante teu rosto
vê-me teu olhar por dentro
tremendo
revivo o momento
em que te sei e te sinto
tremendo
avassala-me o desejo
não escondo
sou eu a água do espelho
diante de ti revelado
tão louca que não aguento
resistir-te e por isso
assopro a água do espelho

omito-me
tremeluzindo



Maria Petronilho
DEIXA-ME DIZER-TE



Georgia O'Keffee - Ligth Iris Posted by Hello


Deixa-me dizer-te
como é bom partilhar contigo
o pão e o sal
a palavra sagrada
que te sai da alma
e nos mostra as cores do conhecimento
tão diáfanas que, se divagamos,
nos perdemos nelas
como aves implumes e cegas
A tua asa incansável
chega como flor estendida
mostrando brandamente e de novo
os sítios onde é assisado aninhar o coração.
Firmemente dizes que ninguém se apoquente
pois uma era de glória e amor está chegando
Os dragões de escamas e garras fugiram uivando
e agora caminhamos por vias estelares
que ainda não enxergamos
Os teus olhos brilham como diamantes
enquanto a tua palavra serena
pacifica a alma e enxota a inquietação.

Deixa-me, só por esta vez, e em nome de tantos
agradecer-te o suave carinho
com que nos revelas caminhos de luz!


Com verdade e amizade,
Maria Petronilho,
29/5/2005

(ao meu amigo Poeta Manuel de Sousa, Starwalker)
PRECLARA NUDEZ



John William Waterhouse, 1890 Posted by Hello


Olhaste-me tão docemente
que me senti mergulhar
no lago do teu olhar
Fui átomo feliz de ti
noutra dimensão me achei
as chaves do amor busquei
Vaguei como peixe áureo
no teu límpido esplendor

De repente escureceu
e o teu olhar se cerrou
e a manhã me cegou
na lágrima que desceu

Perdi-me em ti... não sou eu
mas Eva que desobedeceu
além do permitido ousou
adentrar, o teu olhar cobiçou.


E se agora estiolo
na fria aridez do solo
em celso orgulho evoco
ter vencido o preconceito
ter ousado o inaudito...

Em júbilo me sublimo!



Maria Petronilho,
28/5/2005
Um dia de Primavera




Lotus - Lee Kui Zhang Posted by Hello


Ergue-se o sol como flor
no campo azul porcelana
e refulge em minha alma
a tangível harmonia
gentil, consumada e pura!

Espelhando o céu, flui o rio.

As flores, ainda promessa,
abrem-se à luz qual bandeira
de paz, de amor e esperança.
Um periquito pequeno
delicadamente cuida
do seu amigo Caturro
com tanto esmero e ternura
que me quedo em mudo espanto!

Ah, o amor! É um segredo
no vento vai delirando...
brilha em cada recanto:
A vida fulge de encanto!

Mas o humano no engodo
sufoca o tesouro alado
no íntimo cofre cerrado!



Maria Petronilho,
26/5/2004
A escutar o grilo e o mar



Milly Possoz (1888-1967) Posted by Hello





Chamarás desditoso ao grilo
por ser negro?
Quem canta às estrelas?
Quem na noite soa
E nos embala?
Quem trila que trila
Sem parar?

Ah, a saudade de estar
Numa janela qualquer
Numa aldeia junto ao mar
Quieta
No silêncio suspensa
Sobre o penhasco
Escutando
O grilo e o mar
Companheiros do meu choro
Vozes brandas murmurando
É cantar!
É cantar!
É cantar!


Maria Petronilho,
Odeceixe, 1981
O BEIJO DAS BORBOLETAS





Marc Chagall - Le Bouquet Ardent Posted by Hello







LEVANTO AS MÃOS PARA O CÉU
ARCOS ÍRIS CONFIADOS RECAMAM OS MEUS DEDOS
DE BEIJOS

DELICIOSAMENTE ENFEITAM DE MIMOS
MEUS GESTOS AFLITOS

OH ALIANÇA COMOVENTE
JARDIM EFÉMERO ESCUDANDO-ME
DIÁFANO VÉU ONDULANDO
EM BRILHO SERENIDADE E ALÍVIO

SOBREVIVO CORAÇÃO!



Maria Petronilho,
Lisboa, 10/9/2004
SE TE ESCUTO



Adolphe William Bouguereau, 1891 Posted by Hello

SIGO AS ROTAS DO UNIVERSO
A TUA BOCA VAI DIZENDO
HISTÓRIAS LINDAS E BRINCANDO
SEM QUE RIAS
ENCANTADA, ESQUEÇO O MUNDO.
OS TEUS DEDOS SOSSEGADOS
SUBLINHAM DE VEZ DE EM QUANDO
OS GESTOS, TECENDO UM CASULO
ONDE NÃO CABEM SOLIDÃO NEM MÁGOA ALGUMA
MAS, SABES QUE A SAUDADE É UMA ANDORINHA AZUL
E CONSTRUIU NINHO NO BEIRAL DO MEU PEITO?



Maria Petronilho,
9/6/2005

sábado, junho 11, 2005

ALBERTO PEYRANO: DIA DE PORTUGAL (Com versão de Maria Petronilho)







10 de junio: Dia de Portugal
Desde mi humilde Pluma brotó este Fado Menor
Vaya con mi sincero homenaje al pueblo lusófono
con todo mi amor por la Lengua de Camõens y su gente.
Alberto Peyrano


Fado Menor




Nostalgias de um tempo eterno
envolto em auras de ausência
meu barco navega quieto
pelas águas deste fado
e busca que a teus beijos
o levem as brancas velas.

Fado de meu coração ferido,
fado de canções antigas
que se adornaram de flores
de teu jardim tresnoitado.
fado que hoje me tem preso
nas cordas de cem guitarras
que te pedem esta noite
não deixes de escutar minha esperança.

O barco segue seu rumo
até um porto de vento.
Capitão de velhos mares,
vai navegando até um faro
em fado menor, minha alma.

Alberto Peyrano
Versão: Maria Petronilho

* * *

Fado Menor


Nostalgias de un tiempo eterno
envuelto en olas de ausencia,
mi barco navega quieto
por las aguas de este fado
y busca que hasta tus besos
Lo lleven sus velas blancas.

Fado de mi corazón herido,
fado de antiguas cantigas
que se adornaron con flores
de tu jardin trasnochado.
Fado que hoy me tiene preso
en cuerdas de cien guitarras,
que te piden esta noche
no desoigas mi esperanza.

El barco sigue su rumbo
hacia un puerto que es de viento.
Capitãn de viejos mares,
va navegando hacia un faro,
en fado menor, mi alma.

Alberto Peyrano Posted by Hello
Mudo Encanto







MUDO ENCANTO ONDE ME QUEDO

POR TIMIDEZ MAS SEM MEDO

E VOU SORRINDO NO ENCANTO:

DO BEM E MAL NÃO ME ESPANTO.





DISSERAM-ME QUE O CONFORTO

DO POETA, ESSE SER TORTO,

QUE VIVE CANTANDO O SOFRER

E PASSA À VIDA AO MORRER

É CONTUDO CRER NA SINA



E QUE É TÃO LINDO SER MENINA



MAS MINHA INFÃNCIA ERA FRIA

TANTO E SÓ EU SABIA

MAS A NINGUÉM SOLTEI UM AI

POR NÃO TER TIDO MÃE E PAI.



FUI ATRAVESSANDO AS MÁGOAS.

MEU TEJO TEM TANTAS ÁGUAS

E NELAS DISSOLVI EM SAL

TODO DÓ DE QUEM ME FEZ MAL.



TRISTE O FADO DA MENINA

QUE PERDE A MÃE PEQUENINA!



VOU SOZINHA AO MEU NORTE

E DEUS NOS DÊ MELHOR SORTE!



MARIA PETRONILHO

27/12/2002

Posted by Hello

quarta-feira, maio 11, 2005


Star of Heaven - Edward Robert Huges Posted by Hello
Quem foi que me concebeu?

De quem fez o embrião
Que a luz divida tocou,
Pergunto-me: o que sei eu?
Que ele era bonito e mau
E ela um anjo do céu.
E os nomes que me nomeiam
Quem foi que os encarnou?
Como falavam e riam
Se riam... e como choravam,
se é que choravam, não sei!
Então como me criei?

Como um seixo que resiste
Derivando na corrente!

Maria Petronilho, 1997

segunda-feira, maio 09, 2005

Não contemos as estrelas!

Os amigos são estrelas,
sempre presentes no céu.
Os amigos são flores,
sempre presentes no campo,
mesmo quando o vento
derruba as pétalas
e o gelo encerra as sementes.
Deixa que as noites e os dias se sucedam
Deixa que rodem as estações.
Os teus amigos estarão sempre lá,
apesar do tempo que faça,
impassíveis ao tempo que avança
com a ternura e a confiança
com que Deus cria as flores
e acende as estrelas no céu!

4/5/2005
Que inquietação é esta?

(português/inglês, Maria Petronilho)


Dentro de mim
Uma ausência
Clama alto
Chora e grita
Por que implora?
Envolve-me
Sempre e ainda
A paz que foi construída
Por minhas mãos

Persistência

Mas em mim grita
A ausência!
Uma ausência
Que não tinha
Que de surpresa
Me apanha
E de súbito
Aguilhoa



Que inquietação é esta
Que transforma
A minha calma
Que mói fundo
A minha alma.


* * *


Which uneasiness is this?


Inside me
Some absence
Calls lowdly
Cries and howls
What does invokes?
Enfolds me
Ever and yet
The pace I make
With my fitting hands

Persistence

Cries inside me
Un absence!
Some absence
I had not
And surprising
Catches me
And sudden
Stings me
Which uneasiness is this?
It transforms
My calm
Crushing deep
My being.
PARA MINHA MÃE (OLHANDO O SEU RETRATO)


Mãe,
De onde te veio esse sorriso
Na precaridade e no sofrimento?
Com que olhares me criavas?
Que de mim esperarias?

De onde a força que levavas
Na vida-breve, tormento?

Como pudeste prosseguir sabendo
Que nada além de maior dor te esperava,
Que nunca me criarias, como dizias,
e eu sabia que sabias?

Tanto lias... mas porque bordavas
E como Penélope tecias infinitas rendas
Por um Ulisses que não merecia as prendas

Dessas mãos imaculadas
Tão finas, de unhas cuidadas,
Mãos de menina que eras,
Que menina findarias?

Olhando o teu olhar estremeço
De orgulho e se me vejo no espelho
No meu olhar vejo o nosso

Mãe coragem, atravesso
As altas chamas do mundo
E como tu vou cantando
O Fado que, nos calhando,

Na nossa voz reconheço,
E de coragem recobro
Do pouco de ti que lembro

Vamos, na vida e na morte, sorrindo!

Para minha mãe, Alice de Jesus Gouveia Petronilho, 1932-1958

11/2/2003
Embaraço


Está-me a apetecer
Fugir
Sumir
Ir
Obliterar
A luz
O ar
O ser
E o estar.
Quero seguir
Quero-me negar.

Mas não sei!

Só dei dar
E ficar
E entender
E amar.


7/5/2005
Os meninos



São os meninos

Que trazem os sonhos

A brilhar nos olhos

Que nada os impeça

De fazer de amor sua estrada.

Tecendo um futuro risonho

Que queira Deus aconteça.





Deixem soltos os meninos,

Ágeis, leves passarinhos,

Que num adejo de asa

Saem depressa dos ninhos

P'ra viver os seus destinos

No mundo, a sua casa.







7/5/2005
Desígnio



Hoje

é um dia que não é.

É um dia

em que não quero ser.

Quero por ele passar

como por uma estrada

de esquecimento.

Quero apagar as pegadas.

Quero que assente a poeira.



Passarei por ele inteira

pois alto esteio me escora:



Meu desígnio esplende aurora

que a este fadário inflama



Do carvão ressalta a chama!









8/5/2005
Faz noite negra, mas eu canto!


A canção dos jovens, a canção dos pobres,
a canção da esperança da gente do meu país.
Faz noite negra.
A lua brilha tão pequena!
Pequenas são as estrelas ao seu redor...
mas se toda essa luz se juntasse - que fulgor!
E luz é vida.
E para viver é preciso despertar.
A ao despertar esvai-se a noite.
Foi comido por si mesmo o negro pesadelo,
o susto desanuviou-se.
Sumiu-se em nada à luz do dia.
Dia em que a luz brilhe em todos os olhos
e em todos os sorrisos.
Dia de suspiros de alívio...
Esse o dia que espero.
Venha breve e venha prenhe de paz e de amor,
como o sol a pino.
Fujam daqui as manchas bolorentas do destino negro.
Bolor nas horas de todos os dias; na angústia.
Começa-se e segue-se sofrendo
sem que uma réstia de alvorada,
de ternura, ao menos luz no fim da jornada d
esigual da nossa vida.
Uns têm tudo; outros "têm" nada;
uns na soberba; outros na penúria;
uns os algozes; outros os servos;
uns arrotando e tantos outros mais de barriga vazia.
Acabem-se os lagos de pranto
em que afogamos o silêncio da vida.
Acabe-se o cada-qual-consigo
– nunca nada se conseguindo
... Enquanto se não entenda
que é NOSSA a mesmo causa,
como é NOSSA a mesma justiça
e que há que lutar de mão-dada!
REVIVER



REVIVER
COMO A ÁGUA DE UM RIO
QUE SEMPRE EXISTIU
QUE SE EVAPOROU
E DEPOIS CHOVEU.
REVIVER
COMO O VERDE DA FOLHINHA
QUE VIVIA ESCONDIDA
NO BOTÃO DA PLANTA.
COMO O SOL QUE DESPONTA
E É SEMPRE OUTRO DIA.
REVIVER
COMO O MAR
QUE ORA TRAZ SUA ÁGUA
ORA A LEVA DE VOLTA.
REVIVER
COMO A RÃ DO DESERTO
QUE ESPERA ENTERRADA A CHUVA.
COMO A FLOR OCULTA
NA ENERGIA
DA SUA MÃE SEMENTE.
COMO O FILHO IMATURO
NO VENTRE DA MENINA
AO NASCER.
Mãe Eterna





Pomba branca,

tão breve, tão corajosa

ave linda que Deus trouxe

por um átimo à terra

astro que foste

cometa

e atrás de ti deixaste

no esmo frágil centelha

em soledade ferida



ah, mãe como eu aspirava

cobrir-te de rosas brancas

neste dia de lembranças!

mas relembro só de mágoas

as tantas flores que levavas



como se fosse este instante



como se do além pudesse

erguer-te mais que lembrar-te

ouvir-te e ter-te presente



beijo, amada, a tua sombra

aonde o céu te mantenha

esperando a tua filha

desvalida e pequena



desde que te foste embora

uma densa nuvem negra

abafou sua vida



7/5/2005