sábado, julho 15, 2006


ENFIM POETA E MULHER














STAR-OF-HEAVEN-Eduard Hughes




Espero merecer morrer num dia de intenso sol
sem ninguém se aperceber que a minha alma se vai
presa num dos tantos raios que ligam a terra e o céu
e que alfim me guiarão para um espaço além dor
para um lugar só de amor onde poderei ousar
ser poeta e mulher sem ninguém me estranhar

num lugar onde não cabem arrogância e poder

ao resto de mim que ficar não importa o acontecer
não será meu sequer será resto a fecundar
o chão donde há-de nascer nova vida a luzir

o eu que sou há-de estar num cosmos a acordar
sem ninguém me censurar o ser poeta e mulher!

Lisboa, 27/1/2004




Al Fin Poeta y Mujer

Maria Petronilho
Versão em espanhol: Alberto Peyrano

Espero merecer morir un día de intenso sol
sin que nadie se dé cuenta que mi alma ya se va
abrazada de algún rayo que liga la tierra al cielo
y que al final me guiará muy distante del dolor
hacia el reino del amor donde al fin me atreveré
a ser poeta y mujer sin que ninguno me extrañe

un lugar donde no caben ni arrogancia ni poder

y a lo que de mí va a quedar no importa lo que suceda
pues eso no seré yo será un resto que fecunda
el suelo para dar más nueva vida y nueva luz

lo que yo soy ha de estar en el cosmos despertando
sin que nadie me censure si soy poeta y mujer!

Lisboa, 27/1/2004

domingo, fevereiro 12, 2006





















Mãe Eterna



Pomba branca,

tão breve, tão corajosa

ave linda que Deus trouxe

por um átimo à terra

astro que foste

cometa

e atrás de ti deixaste

no esmo frágil centelha

em soledade ferida



ah, mãe como eu aspirava

cobrir-te de rosas brancas

neste dia de lembranças!

mas relembro só de mágoas

as tantas flores que levavas


como se fosse este instante


como se do além pudesse

erguer-te mais que lembrar-te

ouvir-te e ter-te presente


beijo, amada, a tua sombra

aonde o céu te mantenha

esperando a tua filha

desvalida e pequena


desde que te foste embora

uma densa nuvem negra

abafou sua vida


Maria Petronilho
7/5/2005

sábado, setembro 10, 2005



A SAUDADE É UM PORTO DE PARTIDA

A saudade é uma vela
translúcida, vibrante, acesa

representando uma estrela
tanto arde e não se queima!
não é de terra nem de água

mas é transparente, voa!

É ponte que nos mantém
unidos além donde somos
sempiternos viageiros

Saudade é flor de arco íris
luze no céu e revemos
o ser amado presente.

No imo das nossas almas

.. saudade é uma dor doce

não um barco mas um porto
donde se parte e se chega
prevendo que nos abriga



Almada, 14/11/2004

quinta-feira, setembro 01, 2005






INJUSTIÇA

Quando o homem rico
faz mal
todos acodem a descupá-lo
porque têm medo dele.
Quando o homem rico
erra
Todos dizem não errou
e sorriem
e o caso passa.
Mas se o homem pobre
faz mal
todos, todos o acusam
para agradar ao homem rico.
Mas se o homem pobre
erra
é preso, torturado, morto
e os outros, indiferentes,
encolhem os ombros e dizem
"era um pobre diabo"
e a vida continua.

porque tem de ser assim?
Quando acabará a diferença?
Homem pobre, porque esperas?
Sacode de ti esse jugo!
Tens direitos como o rico
luta por eles, por ti!

Maria Petronilho

quarta-feira, julho 13, 2005





angústia


presa vela
no rio
vejo os sonhos
que não tenho

não me deixa
navegar
para longe
deste esmo

que angústia
me enlaça?
parada
na lua nova?


16/6/2003



















Sinfonia da saudade

Embalo
Quebranto
Levando
A ternura
De longe estar

Escutar o sentir

Ir
Além do olhar

Ficar
Luz acesa
Na penumbra

Na saudade de amar
Esta sinfonia
Na alma calada
Que chora a cantar


Maria Petronilho
Luar Adentro


Porque varar madrugadas
De olhos abertos no escuro
Sabendo quanto me sonhas
E os teus sonhos pressentindo

Distintos doces murmúrios
Ao descortinar da sombra
Purpurina que fascina

Vão se emanando os dias
Nós amplas rosas abertas
Velando o zimbório de estrelas

Fúlgidas breves eternas
Esvoaçando desatadas

Meditando que as cadeias
São meras ilusões apenas,

A vida corre e nós nelas!



Lisboa, 12/9/2004
DA OCIDENTAL TERRA LUSITANA


ARDE O POUCO QUE INDA RESTA
DA NOSSA TERRA BENDITA
NINGUÉM ESTRANHA, NINGUÉM GRITA
ALÉM DA NOSSA DESDITA
TUDO VARRE A LABAREDA
NESTA TERRA RESSEQUIDA
SÓ A CINZA COBRE A TERRA
POVO AMADO, QUE SOU EU
INDAGO PARA COMIGO
QUEM FOI QUE TE CONDENOU
A TÃO INFAME CASTIGO?

FOME... SEDE... DESEMPREGO

ATÉ O CHÃO SE CONDOE
AO VER A GENTE SOFRENDO
ARROSTANDO O DESALENTO
MAS PERSISTINDO LUTANDO

HERÓIS DO MAR SEM NAVIO!




DE LA OCCIDENTAL TIERRA LUSITANA

ARDE LO POCO QUE AÚN RESTA
DE NUESTRA TIERRA BENDITA
A NADIE EXTRAÑA, NADIE GRITA.
MÁS ALLÁ DE NUESTRA DESDICHA
SE EXTINGUE LA LLAMARADA
DE ESTA TIERRA YA RESECA
CUBIERTA POR LA CENIZA.
PUEBLO AMADO, QUE SOY YO,
INDAGO PARA CONMIGO
¿QUIÉN FUE QUE TE CONDENÓ
A TAN INFAME CASTIGO?

HAMBRE... SED... EL DESEMPLEO

HASTA EL SUELO SE CONMUEVE
AL VER LA GENTE SUFRIENDO
AFRONTANDO EL DESALIENTO
Y EN LA LUCHA PERSISTIENDO

HÉROES DEL MAR SIN NAVÍO!


8/7/2005
Maria Petronilho
Versão em castelhano: Alberto Peyrano

terça-feira, julho 12, 2005

GATA FELIZ

Feliz, feliz, feliz!
Quero-te eternamente feliz
como te guardo no peito
do lado esquerdo
aonde bate o coração traiçoeiro
mas nós insistimos em fintá-lo
pois somos e seremos
felizes, felizes, felizes
pra sempre

E gatas... ocasionalmente!



(Parabéns, amiga Gata Feliz!)

11/7/2005
Lilases e rosas


Noite de perfumes misturados,
que permanecem jungidos
na alquimia dos corpos,
saciados mas não exaustos
pois a cercania basta
para estimular a chama

noite recamada de brilhos

diademas de luz,
propícios berços etéreos
aonde nos embalamos
abraçados e enfim lassos
enleamos nossos braços
cerramos os olhos risonhos
resvalam dos nossos sorrisos
indícios do amor que nos demos
ternamente nos deitamos
na doce teia de sonhos
enredados por Morfeu

Amanhecerão enlaçados os lilases viçosos e as rosas molhadas de ondas ansiosas


11/7/2005

Jacek Yerka


Choro de Alerta... !

Rebrilham intensas chamas
Incêndios devoram florestas
ardem casas e aldeias
desarvoram as pessoas
ateadas as fogueiras
são lançadassobre as copas
semeaduras e matas
nas sedentas serras reacendem as chamas
atabafadas
gentes animais e plantas
perecem incineradas
baldadaslágrimas
suores cansaços tantas dores escusadas
crepitam choros aflitos
o fumo afoga os gritos
não chegam suor e prantos
para debelar fogos postos
ardem as nossas florestas
consomem-se as nossas esperanças
com tanto amor semeadas
lutamos ao extremo exaustos
enquanto de longe outros
se riem dos nossos esforços
e refastelados se esbaldam
nas piscinas





LLANTO DE ALERTA...!

Brillan las intensas llamas
El fuego devora el bosque
Arden Las casas y aldeas.
Envuelta en llamas, la gente.
Sobre las copas de los árboles
Las hogueras son lanzadas arden los campos, los bosques,
Hasta en las sierras sedientas se avivan
Las llamas enloquecidas
Gente, animales y plantas
Perecen incinerados
frustraciones lágrimas sudores cansancios
tantos dolores
sin sentido crepitan llantos
aflicciones
el humo ahoga los gritos
no llegan sudor y llantos a dominar ese fuego
Arden enteros los bosques
Consumiendo la esperanza
Con la que fueron sembrados
Luchamos hasta el extremo
exhaustos
mientras a lo lejos, otros,
se ríen de nuestro esfuerzo
y suntuosamente se alivian en sus piscinas.


Versão libre em espanhol Alberto Peyrano (Argentina)
3/3/2003

segunda-feira, junho 27, 2005

Quisera ser alquimista


Gustav Klimt_Primavesi



















nas asas de borboleta
no fulgor do pirilampo
no ardil dos peixes
brincando
de esconde esconde
nos seixos
nos irisados reflexos
de cada gota de chuva
se chovera, ... buscaria
em cada grão da seara
e na laranja madura
e em cada bago de uva
moscatel, doce, dourada
como gotinha de mel
milagre vivo de abelha
ao volitar numa valsa
de flor ao sol animada
pelo renovo guiada
Ah, bendita formosura
presente na natureza!
Ah, brilhante natureza
presente na mente sana
que não se afunda na lama
mas enaltece a pureza!

Maria Petronilho,
26/6/2005

segunda-feira, junho 13, 2005

Rhinocerontic Gooseflesh - Salvador Dalí, 1956 Posted by Hello



EU E O MAR À TARDINHA

Na minh' alma o mar canta
mas no meu sorriso chora
a minha mente divaga...
que saudades de lonjura!
Onde acharei a ventura
que o meu coração demanda?
Mar, faz de mim caravela
e que o vento me erga ainda
me leve p'ra onde a ira
não se aprove e aconteça
ó sol indo,chama acesa
que em rubro e ouro se deita
guia-me para a doçura
da paz, do amor, da esperança
que minha alma tanto busca!


Maria Petronilho,
2/4/2004

* * *

EL MAR Y YO AL ATARDECER


En mi alma canta el mar
pero en mi sonrisa llora
mientras mi mente divaga
deseando la lejanía!
Dónde hallaré la aventura
que me pide el corazón?¡
Mar, haz de mí una carabela
y que el viento me levante
y me lleve donde seasuceda lo que suceda!
El sol poniente,llama encendida,
se adormece en rojo y oro,
y guíame a la dulzura
de paz, de amor, de esperanza
que tanto busca mi alma.

Versão livre em espanhol: Alberto Peyrano

domingo, junho 12, 2005

Joseph Kleisch, 1885-1931 Posted by Hello


APESAR DE TUDO


Nada, nada se esquece!
A dor viva permanece.
Não se cura o sofrimento
Desnaturado, nascido
De quem era esperado
Amor, defesa e abrigo
Na minha alma
Céu aberto
Existe uma nuvem roxa
Que entretanto me afoga
Pois só desamor tragou
Minhas asas converteram
A sombria cor das penas
Mas remordem cerceadas
As minhas sãs esperanças
Para sempre decepadas.
Fui salva pelas quimeras
Que entesourei nas estrelas
Em meio ao feroz tormento
Não guardo ódio cá dentro
A quem de infame alvedrio
Tanto e sempre me feriu

Tento deslembrar mas... não!



Maria Petronilho,
21/5/1997
Titinha Posted by Hello




Encantada primavera!


Meio ano!
Até o tempo
enlevado
em braços
doces te aninha
flor pujante de alegria
encantada primavera
que desabrochas tão linda
O tempo te leve sempre
pela estrada mais bonita!

De encanto os pais e tios
trocam entre si sorrisos

como é belo o transluzir
de teus olhos
flor de amor!


Haja muita alegria para sempre,desde sempre,Titinha,amada sobrinha!
Beijos da tia


Maria Petronilho,
16/5/2005
SophieAnderson - peek_a_boo Posted by Hello



OS MENINOS


São os meninos
Que trazem os sonhos
A brilhar nos olhos
Que nada os impeça
De fazer de amor sua estrada.
Tecendo um futuro risonho
Que queira Deus aconteça.
Deixem soltos os meninos,
Ágeis, leves passarinhos,
Que num adejo de asa
Saem depressa do ninho
Viver é o seu destino
E o mundo, a sua casa.



Maria Petronilho
7/5/2005
J. William Watherhouse - Cleopatra, 1888 Posted by Hello


SÓ POSSO ACEITAR O QUE ENTENDO


Aproveitar a vida
É questioná-la
E aos outros
E a tudo o que me rodeia.
Quando não mais perguntar
É porque deixei de ser.
É porque parei de viver.
Mesmo se o meu coração
Teimoso, ainda bater.



Maria Petronilho
29/5/1997
O Tempo corre sem tino Posted by Hello





Eu queria o poder de segurar no colo
As fulvas grinaldas do tempo
Que aos poucos se vão desfolhando
Queria dissipar o alor que prendo
Mas me leva consigo, quase me arrastando.
Eu queria tantos mais minutos em todas as horas!
Eu queria que o sol sobrepusesse as sombras
Eu queria viver, viver todo o tempo
De olhos despertos, folgando ao relento!
Eu queria abolir o tic tac desvelado
Sempre atento, reclamando...
Queria mais tempo, já que Deus mo deu
Para me enlaçar no vosso carinho
E a vocês no meu!



Maria Petronilho,
12/5/2005
SEM APELO NEM AGRAVO


Walter Crane - Summer Posted by Hello


No meu solitário refúgio
se bem que iluminado
pela tua memória
pela tua ausência
deixo pousar a cabeça
no colo da desesperança
Suspendo o ar que inspiro
não me traga o desvario
num átomo do teu cheiro
Represo os passos
entrecerro os dedos
não ousem eles soltar o ímpeto
de te alcançar
de pedir ou de aceitar
de com os teus se enlear.

Afinco-me remoendo
o absurdo não-querer querendo

deixo o meu sangue ferver
deixo o meu sangue secar
deixo-me evaporar
se
etérea celebrar
a aura em teu redor


Maria Petronilho,
30/5/2005
DIANTE DE TI




John William Watherhouse, 1909 Posted by Hello



Estremeço
no espelho de água
me mostro
nua perante teu rosto
vê-me teu olhar por dentro
tremendo
revivo o momento
em que te sei e te sinto
tremendo
avassala-me o desejo
não escondo
sou eu a água do espelho
diante de ti revelado
tão louca que não aguento
resistir-te e por isso
assopro a água do espelho

omito-me
tremeluzindo



Maria Petronilho