domingo, fevereiro 15, 2004

Só em Sonhos





Pétala a pétala
A redonda rosa
Do dia se fecha

Entre o sonho e a ânsia
O querer e a dúvida
Primavera insana
Que em ondas me leva

Desmaiada dormia

E acordo colorida
pela voz do poeta,
mais não sou quem era!

Desperto ansiosa
Vento alteia a chama
sussurra
Suspira
inquieta

A Poesia.

tão-só


sinto-me
tão-só
centelha

como se me diluísse
não mais ser
me contivesse
tão-só
como outrora fosse
luz divina
que pairassse
que outro ser me emprestasse
e já de si tão alheia

apenas
luz se perdesse
nada do que fui
soubesse,
do que serei
me pesasse!
jardim de mim


há um jardim, de grades entreabertas
que espera do jardineiro, seu cultor
que em serenas e mansas descobertas
vá descobrindo uma a uma todas
as pétalas e verdes ausencias
de brilho em cada flor

que o mel do amor lhes dê e vá bebendo
levando sua força em as tragando
juntando delas em si o vigor ao vigor
e todas as gotas e essências
para bem do sorriso, terno amor

jardineiro que chegue de mansinho,
acariciando uma a uma todas as pétalas
e fazendo-as vibrar em ondas,
de um céu feliz , etéreo ardor
nsses vívidos momentos sonhados
deixe seus canteiros cuidados
a vicejar alegria e paz e cor!

polém seu semeie nesses rios
reentrâncias tão só suas e sedentas
fertilize com ternura todas as carências
e vendo sua obra tranquila sinta amor

se o jardineiro tocar de mansinho
os caules tenros e fechadas folhas
que se mantêm tão quietas umas e outras intocadas
esperando seus carinhos
com ansiada dor,

nada viola do jardim que se oferece
em retribuída troca busca em procura
por frescura e sombra, o sol...
folhinhas ressecando abindo-se à chuva
buscando a vida que enquanto salva
alento novo dão a esse cultor!

O pássaro em meu peito


Quem terá soltado
o pásaro de meu peito
que canta

que canta por estar alegre
que canta
quando está triste
abre as asas e insiste
em ir no sonho
sorrindo?

e se eleva
cantando

Se exalta
e abala

Faz de seu nada
floresta
da solidão
primavera
e comunica
e
canta!

Tanto canta
que já não tem canto
onde guarde a partitura
que se partiu
por encanto!

pássaro vadio
que se evadiu
de meu peito!
e se cala diligente
se o notam
diferente!
Queria

Queria
passar do deserto
numa caravana

Queria
ir à deriva sem rota
no mar

Queria
encontar-me perdida
para me encontrar

Queria
calar a palavra
que insiste em falar

Queria
conter os soluços
no meu peito de penar

...

E pensar
Que um gesto basta
para nos consolar!

Breve

Invejo
aquele que morre
de um só tiro
no peito.
caiu,
qual sonho
desfeito
era
e mais não é
teve sorte!

seja breve
o sofrimento,
quem dera
morrer assim,
quem me ajudaria
a mim
sendo chegado
o momento?!
Não tenho medo
da morte
não tenho nada
a perder
parar de tanto
sofrer
breve fim
de
meu tormento.


No Vento


Voo
na crista
da onda
abro os braços
abraço
o vento
me acaricia
e magoa
mas
não leva
o
pensamento!

Estrada


mendigo carinho
c'os olhos e os lábios
mas tu não queres ver
e passas por mim
sem sequer olhar
minha alma faminta
de mão estendida
á beira da estrada
da vida


EL BESO


SUEÑO
SE DILUYÉNDOSE
EN EL AIRE
PERFUME DE AZUCENA
POEMA
QUE NADIE SABE CANTAR

MOMENTO EN EL TIEMPO

CARICIA
QUE SOBREPASA
Y DIGUE TAN LEVE
DEJANDO PESADA
SOLO MÍA LA
SOLEDAD


Pena de Asa


Não há rumo
para o vento
horizonte
para o sol
sorriso
que me sorria
que apague a
dor daninha
clara chama
minha vida

Nem há chuva
que a lave
Nem lava
que a devore

Carrego-a
qual formiga
mas canto
sendo cigarra
que se perde
que vagueia
no deserto
na esperança
de que se mova
a areia

Ah, a dor
funda
que se não cala
triste fado
dura sina
minha vida
pena de asa
caída
de mansa pomba!

Se


Se
eu morrer hoje
será bom.
Ao menos
dormirei
Com
os meus olhos
abertos
de deusa.
Se
eu morrer hoje
que seja
com o coração
cheio de amor
Se
eu morrer hoje
a terra
não me comerá
porque sabe
a verde
meu corpo,
meus longos cabelos
vento,

só se me quizer
... o mar!

Na Tempestade da Vida


eis-me
pequena
e
sozinha
no
vento
que
sopra
a
mil-e-um
espinhos
por
hora
na
tempestade
da
vida

Horas Amargas



na hora
em que
te abates
sobre o teu próprio
silêncio
em que
te sobra tanto
tempo
e espaço
em que
te sobra
tanto quanto
precisas
entendimento


na hora
em que
contas
pela ausência
de uma mão
sobre a tua
quantos
amigos te restam
de quantos
te prometiam
consolo
no tempo do sorriso

na hora
em que
te debruças
sobre o teu próprio
abismo
de amargura

nessa hora
saberás
a fundura
da tua
pequena grandeza!




Goa


O
sonho
distante
levou
Gama
do
Infante
a
ambição
e
o
desejo

Bojador
enfim
dobrado,
realizada
a
quimera,
ficou-nos
daquela
terra
o
tempero
como
um
beijo
que
muito
apetecera.
Nosso
povo
a
amou
selo
Luso
lá
deixou
conquistando-a
sem
guerra.

Na
hora
da
separação
o
Ditador
disse
não.

Mas
Goa,
jóia
indiana,
não
pertence
à
Lusitânia!

Só
o
sonho
de
ir
à
India!

Poesia Viva




A Poesia é um fio
onde está suspenso
o meu sorriso
desde sempre
e para sempre

mesmo quando
eu era areia
e o mar se afogava
no meu colo
mesmo quando
eu era rola
de olhos de espanto
mesmo quando
eu era láparo
a correr de toca em toca
e só via mato
cerrado à volta
mesmo quando
eu era o eco
dos encerrados
mortos vivos
nas prisões das borboletas
mesmo quando
foi abril
e eu desabrochei
com os cravos
mesmo no tempo
dos lírios nos meus olhos

soa dentro de mim a balada
soa dentro de mim búzio
esse som de mistério
esse som de magia
que permanece
que fica
a pairar na música viva
que compulsivamente
escrevo.

O BEIJO




SONHO
SE DILUINDO
NO AR
PERFUME DE ALFAZEMA
POEMA
QUE NEM SEI CANTAR

NUVEM QUE QUE ESVAI
MOMENTO NO TEMPO

CARÍCIA
QUE PERPASSA
E SEGUE TÃO LEVE
DEIXANDO PESADA
SÓ MINHA A
SAUDADE


















Onde acaba o horizonte?




Acredita que podes voar!
Pega na asa dos teus sonhos
e segue a luz dos teus olhos
quando os perdes no mar.

Acredita que podes voar!
És pássaro vadio, borboleta, abelha, bruxa...
Lança-te no vazio
e faz da imensidão tua estrada.

Acredita que podes voar!
Como as pétalas da flor
que seguem leves no vento,
amor, perdição, pensamento....

longe, longe, longe, longe...

Onde acaba o horizonte?







CINCO CAPÍTULOS DA HISTÓRIA DO MEU PAÍS

Além-Mar

I

Vi um jovem
de olhos tristes
partir de espingarda ao ombro
a bordo
de um grande navio
para as terras de além mar
vi um vulto rastejando


nos arredores da senzala
e ouvi estouros
e ouvi gritos
e ouvi tiros

vi um caixão regressar
a bordo
de um grande navio
vi uma mãe a chorar
uma noiva a soluçar
e ouvi um sino a dobrar!

LUTO

II

As armas ferem e matam
Da ferida o sangue escorre e pinga
e afoga as pombas brancas
que eram o escudo da gente
contra as lanças e os fuzis
E o sangue
que era da cor do amor
fica negra
crosta
de luto




ROSA NEGRA

III

A gente tropeça nas pedras
que nos mancham o caminho
Nossos olhos brilham febres
nossos joelhos rasgados
estão a narrar nossas quedas
nossos lábios secos pedem
nossas mãos gretadas doem
nossos corpos alquebrados
cantam nosso desespero
mas os nossos olhos brilham
a febre doida da esperança
No escuro erguemos a fronte
porque cremos que lá longe
brilha uma estrela nossa!


CAPA NEGRA

IV

No silêncio negro da noite
eles lutam
Passam calados, em fila, sofrendo
No silêncio negro da noite
eles escrevem
e as paredes brancas
ficam reflectindo as ânsias
dos corações subjugados

No silêncio negro da noite
marchamos
a caminho do degredo

Passamos calados
lutando na noite!


25 DE ABRIL DE 1974

V

Hoje o dia de todas as venturas
das nossas esperanças
desabrochadas

saímos de nossas casas
tão carregados de ânsias!

E percorremos as ruas
sorrindo aos soldados nas esquinas
Nos corações vivas chamas!

juntou-se o povo nas ruas!
De Portugal as bandeiras
verdes rubras ah, tão altas

de rubros cravos armados
calámos a voz das armas!

A Amália Rodrigues (aquando da sua morte)

Esta noite,
enquanto a noite dormia,
Amália deixou a vida.
Fechou pela última vez
aqueles olhos tão seus,
tão meus,
tão nossos, tão negros!
Na sua garganta
Calou-se a voz imensa,
mas não se calou Amália!
Mulher de vida sofrida
chorava quanto cantava!
Mulher de intensa vivia
e tanto amava a vida

Parou

Docemente, num instante
Deixou de ser
Cansada talvez de ser tanto
deixou-nos em denso pranto
correndo do peito aberto

sofro

não choro a morte de Amália
que Amália não morreu
amália sofreu a sina
seu fado no próprio nome

cantou
cantou
desde o nascimento à morte
Amália, do verbo Amar!

6/10/1999

"não sei que paixão, candente como um ferro sobre a birgorna ou que tristeza mansa como cândida onda que um menino colhesse entre as mãos, erguia o seu jorro naquela garganta"

Escrevi à margem, na hora da triste notícia, este trecho do poema Pranto da Filha de Jefté, de Pablo Garcia Baena



Castigo



se sofro
por cada sonho
perdido
é porque por ele
dei tudo
voo sem fim
nem fundo
minh'asa de imensidão
alcança o infinito!
É um longo olhar
um grito
será talvez perdição
mas sonhar é meu destino
vida mesquinha,
castigo,
saio dela
digo
não!

TEMOS MARÉS





DE ÁGUA E DE SAL SOMOS FEITOS
COMO AS ONDAS


CAVALGA EM NOSSO DORSO
A DOR DO VENTO


TEMOS MARÉS, COMO O MAR


AGORA NOS ERGUEMOS
E LOGO
EM BRANDAS ESPUMAS DE SONHO
NOS DESFAZEMOS


COMO AS ONDAS


EM SONHOS QUE NÃO ESQUECEMOS!

Colibri


Esmeralda
Embriagada
No concâvo
Deu uma rosa!


Quetzal


Onda
que se perdeu
do mar
liberdade
em movimento!

BUSCA DE MIM

Como cadeia sem fim me conheço
Dentro de mim me interrogo

O escuro Eu de mim
Pergunta ao meu claro Eu

De onde vim e o que sou?

O que me fez e criou?

Aonde estou e que sou?

Só sou.

Os largos caminhos estreitos
Procuro de olhos acesos

Em busca de mim
Por amor de mim

Inquieta
Pela clara certeza
O meu país

O meu país é o mar
tão feito de lonjura
de sal, de águas, de ondas
saltando de além ternura

De aves brancas, brancas, brancas
de ouro polido a luzir
e risadas a explodir
na voz pura das crianças

Meu coração, ele o fez:
Fado, má sina talvez
Mas no olhar um riso de asa,
Ou não fora português!





Tenho Medo de Sonhar



Meu sonho
esvaiu-se
no vento
voou
como um pensamento,
não sei
onde foi
parar.
Meu breve sonho
sorrindo
aos poucos
se foi
sumindo
não sei onde
o vou achar.
Meu sonho tão breve
ardeu
a tristeza
o varreu.


... tenho medo
de sonhar.



Mais um ai
eu era vida
mais amor
eu era alguém
tanto sofro nestra trilha
sem destino que caminha
p'ró nada que eu vejo além

por fome na abundância
por sozinha entre a gente
por vulgar mas diferente
mais amor e eu era alguém

sou a poeta que morre
de saudades de viver
um breve olhar p'ra me ver

no caminho torto sigo
outra sou, una comigo
... mais olhar e eu era quem!


Passe o tempo devargar




Lá fora
a chuva
de inverno
tomba doce
devagar

Lentos
meigos
os meus dedos
desvendam
os teus segredos
dão-se os meus
a revelar

Noites calmas
doces dias

Primavera
nos meus olhos
verão quente
nos teus braços

Passe o tempo
... devagar

Sorriso




Aprender a sorrir

com o temor e a confiança

com que se dão

os primeiros passos



sorrisinho tremente, incipiente

como o de quem quer

mas receia

abrir os braços.



Sorriso.

Apenas sorriso,

confiança,

credo: Eu creio!

Sorriso aberto e lindo:

Como eu amo o mundo!



Caminho certo.

Borboleta revoando

até se tornar num ponto,

até ser do infinito!



... e o sorriso abre-se em riso,

salvação

saudação

abraço!




Mulher



Princípio.

Começo eu fui

Eu sei, eu sou!



Em mim se abre

O mistério.



A mim o rio,

E eu fonte me abro.

Eu sou nascente e foz

E me dou

Sendo.



De mim a vida flui.

De mim emana o ser

Que sou

E o que não sou.



Por minhas mãos se parte o pão.



E em silêncio me desdobro,

E em amor me consumo.



Em meu ser

A flor

O fruto

O ramo e raíz.



O céu.

O mundo.





Uma tarde de sol

uma tarde
de sol
de doce sol de inverno
tão boa para passear
para namorar
divagar
à beira
na branca areia
deste mar
onde sou sua sereia
que se perdeu por amor
ai tirem-me o sol
que já me queimei naquele
doce fogo
que arde sem se ver!
que bom seria se a chuva viesse
refrescar a face
deste meu amor!


QUE O AMOR SEJA

Que o amor
seja
centelha viva
presença
tua
ainda
que
na ausência
recolher
o teu olhar
o teu saber
o teu sabor
dentro de todas as coisas
reflexo de ti ser
iluminando
o teu sorriso
o teu caminho
oásis
meu corpo
por ti regado
com tua viva essência
viva
ansia
total querer
meu ser
por ti
existir
feliz
se se
dar

Retrato

Ver
o sorriso de ontem
o olhar
que via a gente
no espelho
no retracto
instantâneo
Ver
ali novamente
sentir
em mim
sim
presente
após ter passado
tanto
conseguir
ver
dar-me
amar-me
tanto
e inteiramente!

O oito

o oito é um número
mistério
número gémeo
dois circulos
unidos
ao
centro

Deitado, é o infinito

No meio dos outros
tem um desenho
perfeito
regular
simétrico

Figuração de mulher.

Apresenta-se de pé
altivo
maiúsculo

O que tem o oito?
quatro pares de dois,
é mágico
Vê-se logo,
basta olhá-lo

Redondo sobre redondo

olhando do alto,
é um oito
aberto,

a barra do Tejo!

Pergunto
Maria Petronilho

Como falar-te
gota
de
magma
que se afoga
pirilampo
só
luzindo
na eterna noite
escura
lágrima
pura
à deriva
no silêncio
permanente
que insiste
ser
palavra


A Lira e o Cravo







A Lira e Cravo

Se deram as mãos

Fico nas nuvens

A vê-los passar

Vão a sorrir

Passeando na tarde

E eu tão sozinha

A olhar

De longe vejo

Um beijo escondido

De flor musical.

Tilinta

O riso

De felicidade

Que é verde o riso

De todo o que ama

Vermelho o sol

E as estrelas brincam

Vogando no azul

Cristal



Meus olhos
Meninos ainda
E sempre

Presentes
Até algum dia

Clara a centelha

Que há-de viver
Que há-de persistir

Na palavra
escrita

Cristal

Ser
Um dia

Já meus lábios cerro
Os nego ao gemido

Que
No querer
Nego

Voltar a chorar

... voltar a chorar!

Escolho Porque Sou


Tento
o
equilíbrio
olhos
no alvo
asas
no céu
consciente
coragem


caio
voo

vou
só no ar
que respiro
e sou

escolho
o
insustentável
mas
escolho
e vou
porque
existo
sou!


Muda as Lâmpadas ás Ideias



Todo o que vive de enganos
Acaba na desilusão

Dizem ser real o mundo
Porém eu acho que não

De que serve a gente ir
No que já foi

Vendo quanto
passou
sendo

velho
e
vão


porque não inventar
nova música
novos passos
nova luz
e
novos ângulos
imaginar
novos quadros
traçar nossas próprias estradas
seguir as nossas ideias
lutar por nossas quimeras
e viver por essas lutas

estender as mãos abertas
às mãos que
de tão cerradas
seguem aos outros alheias
O Momento da Espera





O momento da espera
É aquele em bordo
No meu crivo
Quantos pontos de amor
Espero tecer
Contigo





É o momento em que te tenho
Ainda mais perto
Porque nem tu sabes quanto
De ti está em mim




É o momento em que ensaio
O sorriso com que te acolho
Antes que a lágrima
Comovida
Desça dos olhos e morra
Na comissura de nossos lábios
enfim unidos




É o momento ...



Concha de mistério em mim fehada
Esperando a tua vinda libertadora
SOBRE VIVER



sobrevivi vendo
resistindo com mansidão
a questão não está na violência
mas na permanente
observação
e na sutileza
costumo imaginar-me
como uma gazela na savana
espertas orelhas alertas
faro e olhos despertos
se a perseguem
da meia dúzia
de valentes saltos
para que o perseguidor
desista
a seguir deita-se
na grama
camuflada
sem folego nem,
para mais um salto...

REPENTE


AI
DIZ-ME SE AÍ ESTÁS
DIZ-ME QUE AÍ ESTÁS
DIZ-ME QUE ME TENS!
QUE IMPORTA
QUEM ESTEJA
QUEM VEJA
QUEM VENHA
QUE ROLE
O MUNDO
DIZ-ME QUE SOU TUA
SÓ TUA E TU MEU
AMOR
URGÊNCIA
TANG~ENCIA
MAR
SER
LUZ
BRILHANTE
MEU
A´GUA DA MINHA SEDE
FRUTO MEU DE MORDER
DE ENGOLIR
DE-TER
DE-TER
DE-MO-RA-DA-MEN-TE
NAMORANDO
AI DIZ-ME
SOLTO SOLTA-ME
VOA COMIGO
NAUFRAGUEMOS
AMBOS IMERSOS
NESTE MAR DE AMOR!

Paraíso da Poesia

Do céu um encanto
Como se o céu fosse
este mesmo mundo
Onde se vivesse
num doce carinho
aonde reinasse
amor e respeito
que nos protegesse
e amando-nos tanto
sempre nos unisse.
Sem Solidão na Sombra


Beijos na porta
que se abre
te reconhece
te chama
Vem, é tua a casa
Senta-te à mesa
Vem
Adormece
no meu colo
sem voz velo
por teu sono
no meu regaço
descança!

DIZ-ME, ALADO EMBAIXADOR!




DE PLENAS ASAS ABERTAS,
TENTO DESVENDAR O FIO
DO LABIRINTO DA VIDA
QUE CORRO E PROCURO AINDA


LABIRINTO TORTUOSO,
DE VOLUTAS DE BÚZIO
ONDE NÃO SOA O MAR,
MAS O CHORO E O RISO.


O GRITO DE ANGÚSTIA NO PEITO.
A ESPERANÇA DESESPERADA
DE VER E DE IR MAIS ALÉM...
PORQUÊ? PARA QUÊ?
- NÃO SEI!


É UMA ÂNSIA QUE TRANBORDA
DE MIM, ULTRA CONSCIÊNCIA.
ETERNA VONTADE DE SABER.
ETERNO PERGUNTAR-ME.
QUERER DESCOBRIR.
SEDE IMENSA.


ONDE ACABARÁ A ESPIRAL
DO MEU PENAR, CONSTANTE DOR
QUE SORRI NOS MEUS LÁBIOS
E CHORA NOS MEUS OLHOS?


- DIZ-ME, ALADO EMBAIXADOR,
QUE SOBRE O LABIRINTO
DA MINHA VIDA
PLANAS?


"Querido amigo Silveira"



Aprender, que maravilha!

No teu olhar escondida

Sem "passagem proibida"

Ver acontecer a vida

A permanente aventura

Que percorrem de mãos dadas

A Natureza e a Ciência....


Correr mundo, peregrina:

No teu olhar e palavra

Ir onde jamais iria

Clandestina passageira

Pena na beira da asa

De ti, ave migradora!


Portanto, muito obrigada!


(INTRODUÇÃO AO LIVRO "cONTOS iNCONTIDOS" DE RAYMUNDO SILVEIRA
Canção de Navegar


Porque me terá deixado
ao partir, o meu amado,
em tristeza sem sentido?!
Tendo as saudades matado
porque é que terá ficado
solto no ar este pranto?
Meu amor vê as marés,
tem sete dores meu cais,
vem navegar-me outra vez!

CHORAM AS MARIAS

Eu hoje queria
qualquer nome, não Maria!
Um nome que não doesse
ser mulher que não se desse
nem por tanto amor sofresse!

Mas sendo Maria aceito
o soluço onde me deito
o mar se abrindo em meu peito

Os olhos doridos não fecho
nem o meu nome renego!


flor de lótus

fluto




na

busca sabedoria
possível
possível


com todas
as minhas pétalas
abertas em concha
como flor de lótus
no lago quieta
mas vibrante
flutente
solta
vida
!

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

"Maria"



De alma perfumada

Cercada de anjos invisíveis

O toque suave de

sua presença

Sopra no meu coração.

Sua palavras são

sopro Divino

É colo de Deus.



Seus olhos são

estrelas sorrindo

Em meio a escuridão

São estrelas que

acendes aqui na Terra

Mostrando que o amor

é possível.

Seus olhos...

Ah!! Seus olhos

trazem paz.



Seu sorriso tímido

é como flor a

desabrochar.

É água cristalina

É o azul do céu

Mostrando que a

bondade vem de dentro

e que o carinho

que nos une

é de puro sentimento



Suas poesias nos

transporta para

um tempo além

onde a vida fica

com a cara que ela tem,

mas que desaprendemos

de ver.



Maria, Maria querida

no instante

em que rimas

Deus está juntinho

de você

Você tem alma

de riacho de águas claras,

rolando noite e dia.



Para você com carinho

Nelim Monti

Mulher de Corpo e Alma



Para que solte a fêmea
que me habita e que procura
contigo em ti primavera,
Não me queiras nua
toma-me absoluta tua
imteira solta, inquieta
pensadora, criança
que ri e que chora, que ama
mulher de corpo e alma

Dói-me a alma


No limbo
em que navego
porque te escolho
minha sina?

murmura
me ensina
o caminho
da ausência
de ti em mim!

(alma branca
que divaga,
que vai no sonho
inquieta)

confiada

sofrendo
porque sim!

E choro e rio
... que é de mim?!

Ó alma
imensa
que me tocas,
asa de borboleta
ansiosa
por tua flor,
minha dádiva

murmura
me ensina
o caminha
da tua ausência!

Pássaro
que vieste manso
trazendo e levando
primavera!

O BEIJO


SONHO
SE DULUINDO
NO AR
PERFUME DE ALFAZEMA
POEMA
QUE NEM SEI CANTAR

NUVEM QUE QUE ESVAI
MOMENTO NO TEMPO

CARÍCIA
QUE PERPASSA
E SEGUE TÃO LEVE
DEIXANDO PESADA
SÓ MINHA A
SAUDADE

SORRIR... É VIVER.?





Com um sorrizinho nos olhos
fico.
Se tu me sorris,
com um sorrizinho
respondo
merci!
Com um sorriso me rio
Se de mim te ris,
que por última fico
logo, a rir continuo!
Bem basta o amuo
do que amanhece
já demais sisudo
e vai para o trabalho
automático
no contrabalanço
do autocarro
superlotado.
Eu cá, sorrio!
... e se me julgam parva,
paciência!

Corro o risco,
por gosto!











poetrix - A NOITE

parece que não fim
se o parceiro
é ruim

A noite morre calada
se só meu desejo
fala!

Hoje a poesia em dó maior entrou no meu dia!

dói-me
mas
me eleva
é preciso olhar e ver
de fora
para entender
o que vive
ou morre
se esconde
por dentro
do dó
maior!

Mergulhada em sonho
por teus olhos vendo:
a caixinha de música
está aberta
e na minha
fantasia
dança lenta
a bailarina...
tutu cor-dr rosa
num espelhinho
liso
e roda
e roda
e roda
nesta fantasia
que a ti me leva
e na minha alma
tão irmã da tua
gira roda e dansa
sem fim a
balarina!

DE SENSAÇÕES

NO MEIO DAS ONDAS
(CHEIRA A MORANGO VERMELHO)
SÓ VEJO AR
AZUL E ROSA
TUDO GIRA Á MINHA VOLTA.
ERGO-ME.
FIRMO OS JOELHOS
E FECHO COM FORÇA OS OLHOS.
LEVANTO-ME
ESTENDO OS BRAÇOS
PARA CIMA
PARA LÁ
PARA O CÉU.
FIRMO-ME.
ENTERRO OS PÉS NO SOLO
TRANSFORMA-SE O CHORO EM RISO:
MINHAS AS CORES DO MUNDO,
E QUEM MANDA EM MIM
SOU EU!

TRAVESSIA


ABREM-SE AS ÁGUAS
QUEBRA-SE O GELO
ATRAVESSO AS SOMBRAS

MAS DO OUTRO LADO
SÓ ESTÁ O VAZIO

SOZINHA
SIGO PELA VEREDA
ATRAVESSO IMPUNE
O RIO
OLHLO DE FRENTE,
FIXO,
OS IMENSOS OLHOS
DO MEDO
ENFRENTO DE PEITO NU
AS LANÇAS ACERADAS
DO MUNDO!

Flores no vento



O mundo
é um novo já velho
a morte,
o nosso destino
a nossa única certeza
no fim do nosso caminho

De que servirá o medo?
Tememos o nascimento?
Nercer é começar segindo
da morte
o passo primeiro.

O sofrimento dói muito
e é humano temê-lo
a vida, cada momento
não traz em si sofrimento?

Cubram-nos na morte
o rosto
deêm-nos o esquecimento
vivamos
com dignidade
com carinho
sem tormento

somos hoje e seremos
flores
a tremer no vento!

amadurar é crescer



estou aqui a pensar
quanto me custou chegar
aonde estou
e vencer.
a tempo de saborear

eu acabei de olhar
a vida
no seu lugar
vivi a vida a sonhar
agora quero ficar.

vivi a vida a correr
agora quero parar
em cada esquina onde houver
algo novo a aprender.

estou a amadurar
amadurar é crescer.
agora não quero correr
agora não quero morrer
quero é viver
viver!

ter tempo de vos mostrar
em versos, como calhar,
como é bonito chegar
se gostamos de viver.

olho em frente devagar
vejo o futuro chegar
o agora acontecer
agora quero é viver

quero lá saber dos anos!
anos são meros enganos,
meras contas de somar

e o meu destino é sonhar!

amando não se envelhece
quando o sonho permanece
permanece em nós a flor
do dar, do ser, do amor!
Um lento lânguido e ledo
sentimento foi chegando
não era tarde nem cedo
já só dei por mim amando
e nem mais em mim pensava
mas nele e imaginava
quantos beijos lhe daria
ai meu Deus se o apanhara!
Eram tão lindos meus dias
seguia a sorrrir airosa

feliz

por dentro
azulinha
e por fora
cor de rosa!
Salvo Meu Sonho



Arame farpado
e do outro lado
o sol,
aberto num sorriso!
Com prejuízo
porque o temo
e ao mesmo tempo
o quero.

Medito
e leio e escrevo
e calo o choro
sofro,

mas não desisto
o sol brilha
do outro lado
dos picos
do arame farpado
que fere
por fora e por dentro.

Quieta,
sigo pisando
o meu próprio
caminho
e não
pelo trilho imposto

cerco
de arame farpado
que me enreda
o destino.

Desvio-me
do fogo solto
como se fora
um soldado
aqui caio
lá me levanto,

mas sigo
na rota do vento.
A salvo,
meu sonho!

Ao alto!



eu dei meu amor
a quem me negou!
se tão só eu era
(e eu era só)
no frio
só



s
o
u








Este poema de dor
é a paga do amor
que te dei
e agradeceste
como se a alma doesse
e cada um a chorar
do outro se condoesse
por amor nada dissesse
ficasse em si
a chorar
se te dei
tudo o que sou
que garra te magoou
no lar quente
do meu peito
onde o pobre coração
coloquei na tua mão
e nela se viu desfeito?
quem é que te enganou
onde a mentira que sou
que vês tu que não conheço
onde veneno encontraste
nesta boca que beijaste
e tudo por ti deixou
a rosa que desejaste
no momento que a colheste
e por ti se coloriu
das rubras cores da paixão
que vive no coração
que por ti
quase morreu?

A menina a sua mãe









Mãe porque é que partiste
nessa manhã-noite-negra?

E porque é que me deixaste?
Era leve e pequenina
porque é que não que não me agarraste
e me levaste contigo?

E lembras-te, ao outro dia
das tantas flores que levaste?

Eram lírios, eram rosas
e açucenas, grinaldas
tão lindas! Mas tu dormias!

Como o Barrocal estava triste!
Até o chão percebeu
que tu nunca mais voltavas

Nesse tempo em que eu era
a tua menina pequena
te guardava e me guardavas

Estrada

mendigo carinho
c'os olhos e os lábios
mas tu não queres ver
e passas por mim
sem sequer olhar
minha alma faminta
de mão estendida
á beira da estrada
da vida

Pergunto


Como falar-te
gota
de
magma
que se afoga
pirilampo
só
luzindo
na eterna noite
escura
lágrima
pura
à deriva
no silêncio
permanente
que insiste
ser
palavra


Nús ao Vento



Agora

Passamos às vezes

pelas veredas fechadas

em busca de outros tempos.

Pegamos nossos sorrisos

e alongamos os braços

Para tentar que eles voem

por cima dos muros negros

para os campos

além das montanhas

vermelhas e azuis

onde a aurora nasce.

As nossas vozes sussurram

como se fossemos pássaros

pressentindo

o acordar das serpentes
Lá longe uma estrela


A gente tropeça nas pedras
Que nos mancham o caminho.
Nossos olhos brilham febres...
Nossos joelhos rasgados
Estão a narrar nossas quedas.
Nossos lábios secos pedem,
Nossas mãos gretadas doem.
Nossos corpos alquebrados
Cantam nosso desespero
Mas os nossos olhos brilham
A febre doida da Esperança.
No escuro erguemos a fronte
Porque cremos que lá longe
Brilha uma estrela nossa.

Cachopa da Beira-Rio

Cachopa da beira rio
dei meu coração ao mar
sou filha da foz do Tejo
passo a vida a navegar
meu coração um veleiro
com velas de ir e voltar
peregrenino companheiro
está partido e a chorar
de si só guardo metade
onde a outra irei buscar?
num paraíso distante
Vera Cruz, hei-de chegar!
cachopa da beira rio
com saudades de abalar
e encontrar essa metade
que tanto choro a cantar
meu fado é esta tristeza
quando te irei encontrar?

só perto do meu olhar!

A Amália Rodrigues

Esta noite,
enquanto a noite dormia,
Amália deixou a vida.
Fechou pela última vez
aqueles olhos tão seus,
tão meus,
tão nossos, tão negros!
Na sua garganta
Calou-se a voz imensa,
mas não se calou Amália!
Mulher de vida sofrida
chorava quanto cantava!
Mulher de intensa vivia
e tanto amava a vida

Parou

Docemente, num instante
Deixou de ser
Cansada talvez de ser tanto
deixou-nos em denso pranto
correndo do peito aberto

sofro

não choro a morte de Amália
que Amália não morreu
amália sofreu a sina
seu fado no próprio nome

cantou
cantou
desde o nascimento à morte
Amália, do verbo Amar!

6/10/1999

"não sei que paixão, candente como um ferro sobre a birgorna ou que tristeza mansa como cândida onda que um menino colhesse entre as mãos, erguia o seu jorro naquela garganta"

Escrevi à margem, na hora da triste notícia, este trecho do poema Pranto da Filha de Jefté, de Pablo Garcia Baena

Com todo o meu amor,



Lisboa - Portugal

Debruço-me de mim
e caio

condenada porquê?
Que fiz?
Já não tenho nada
do que fui
mais nada quero

senão
por uma vez
descançar

que semente
germinaria
na crestada
terra
de mim
que ficou?

aqui a poeta
inventa
numerosas formas
de auto
extermínio

LÁGRIMA





lágrima


escondo
o
encanto,
desvio
calada
o
pranto,
desdigo
a
cor
do riso.


fonte
tremente,
vela
no rosto
à
deriva.
rio
fluindo,
desvendo
a
raiz
de mim,
roxo lírio.


levo
o
desfeito
mar
magoado
e
exponho
o
querer
sonhado


se
em minha fonte
surgira
a
esperança
o
brilho
claro
que fora


a
ventura
o
arco íris
a
opala
o
claro resplendor
da
aurora.





CONSCIÊNCIA DE MIM


Os objectos,
todos os objectos,
são meros brinquedos
para me distrair
da alma,
para me abster de senti-la
a toda a hora
esforçada
a doer.

Porque dói tanto a alma?

E brinco com as coisas
que os outros acham sérias
tolas
meras coisas efémeras
praserezinhos
guloseimas emocionais.

Para mitigar a dor que mais que mais dói,

eu brinco de administrar a casa
de cuidar da roupa
de enfeitar paredes
de jardinar os móveis
de dispersar jóias
e que se lixem as coisas!

Eu quero é matar a dor


da alma. A alma lhe chamo
porque não sei
que nome tenho!

Olham e acham que não penso
que não meço
que disperdiço...
Lérias!

Quadros, roupas, casas, fazendas,
são coisas.
E as coisas são objectos.
E os objectos brinquedos.

Não consigo envelhecer
e nunca no vida tive
brinquedos a sério,
como os outros.
Mas muitos, muitíssimos
brinquedos inventados.

Há os seres, claro,
mas esses...
são dos meus olhos os lagos
espelhos
onde espalho
meus brancos diamantes
do incntível amor.

Rebentaria de mim
se não pudesse acarinhar algo que
me reconhece
e me afirma diáriamente
que estou viva.

A única brincadeira
que brinco a sério
é escrever
para me libertar de mim.
Mas se o não calo mais,
como calei,
vejo no olhar dos outros
que é feio
falar-se disso
mostrar-se isso
como dantes
não se falava de sexo
nem de como nascemos
e nos era obstinadamente exposto
como morremos!

era uma dúvida

que bailava no espaço em branco

como bola de sabão no vento

como bola de sabão não tinha peso,

não tinha dimensão,

nem espaço



... nem devia durar tanto



mas há corações

tão desequilibrados

que até uma bola de sabão

os faz tremer, duvidar, coitados!



há corações tão solitários

(solidários)

e tão ignorantes

na sua solidão!



que viajaram aos trancos

por tantos caminhos adversos

parece que rolam em vão,

crentes

caem na vida

vão continuar

solitários

a rolar

vão continuar

carregados de dúvida

de amor, de apelo

se bem saibam de antemão

que todo o apelo é vago, vazio, doloroso

porque quando apelam

lhes respondem, os outros, os que se amam

não!



coração em sangue-vivo

sempre à disposição!


Imagina um Jardim











Dentro de mim
Desabrocha
Uma-flor-de-amor
Oferecendo
Suas pétalas
Orvalhadas
No ignoto
Infinito
Pleno
De ausências
É tal a beleza
Que me alimenta
Como á orquídea
Que sobrevive
Lançando
No nada
Suas raízes
Suspensas!

O circulo do ar

me rodeia



só o ar

me abraça



nem sequer há sol

nem sequer há lua



só o ar

me rodeia



como quero rir

vou só, no ar!



mas o ar

é circular

ora me leva

ora me trás

ora me deixa

suspensa

e vaga



bolha

transparente

irisada

suspensa

no nada



filhos do universo


o luar
é uma sombra
que não pousa
é uma poalha luminosa
que paira
que encanta
e passa

as estrelas
são os olhos do céu
anjos da gurda
gurdando
o vasio
brilham
rebrilham
sonhando

a nós
pertece-nos a terra
não para esventrá-la
violentar sua beleza
mas para amá-la
reparti-la
mantê-la
além de nós

tenho um coração que ama
tenho um cérebro que pensa

assim como eu
sois vós

porque é que
todo o mundo
vê a desvairada
injustiça da vida
e se cala
porque é que
tanto se reclama
mas não se faz nada
porque é que
se continua o caminho
por esta precária
desastrada estrada?!


Maria Petronilho
2/11/2002


vida que me sobra


Cumpri demais do que pude
acendi
apaguei fogos
lutei
queimando os braços
ganhei p'lo que fiz e faço
a paga do desamparo

suportei todas as dores
e ignorei os prazeres
...
os loucos e os pobres
deixam-se ficar
especados á porta
na esperança desesperada
de uma esmola
...
enfim,
o nada me valha!

não mais necessária,
poeira ignorada
na estrada que se pisa,
basto-me a mim mesma
em fome,
ignorância

do nada retiro a força
para caminhar ainda

que me resta?!
a loucura da escrita
inqualificada?

ser mulher ser
me supera,
paixão ignorada!

perdem-se os olhares
alheios ao que
no a dia a dia passa


que faço na terra
com o resto da vida
que me sobra?

não acredito
na ditosa vida
de martirizada
masoquista

já que sofri toda a vida
que lute e que morra
por uma causa
justa!
canto baixinho

NA GRUTA DA SOLIDÃO
EU CANTO BAIXINHO.
ESTALACTITES DE SAL
ME CAEM DOS OLHOS
MAS EU ESTOU CANTANDO
BAIXINHO
ECOA O SILÊNCIO
NO IMENSO NADA
QUE ME CIRCUNDA.
BATAM-ME OS DENTES DE FRIO.
MAS ESTOU CANTANDO BAIXINHO


TEMO QUE ACORDEM
AQUELES QUE NÃO CANTAM
E VENHAM ZURRANDO
FAZER-ME COMPANHIA!
Decerto te lembras
do verde no azul...
e quando passavas
as inquietas folhas
agitavam brisas
levavam poemas
tantas fantasias!

... e ele suspirava,
tu é que o não vias
tinha tantos sonhos

no cais de meus dias
implorando ao vento
por asas e velas!

Tinha tantas e belas
incontidas esperanças
ao vento lançadas!

tinha tantas rosas
coloridas, tantas,
mas tão espinhosas!

cantava diários
colares de lágimas
e eram tão sentidas!

tinha portas fechadas
e as chaves perdidas...

Contigo o tempo







Como um raio de luz


Se detém o tempo
Ou então esvoaça

Pairando, tremendo
num lago tranquilo

Brilha minha alma
quando estou contigo











Saudades do sol, da brisa

Em que se brinda a saúde

a saudade, o bem estar

numa esplanada serena

a escrever à beira-mar...

É por isso que as letras

vão caindo uma a uma

na fímbria do meu regaço

e se desfazem em espuma!

terça-feira, fevereiro 03, 2004

O POETA



O POETA
TEM A ALMA NUA
LANÇA-A EM VERSOS
NO VENTO
RECLAMAM-NA
COMO SUA
DE VIDRO É
O SEU PENSAMENTO
PERTENCE A TODOS
E NO ENTANTO
O POETA
VIVE CANTANDO
O AMOR
NA SOLIDÃO!

Dentes de ouro









eu sou tu és

ao invés

de

ele tem tu tens



sorriem
caveiras
vivas
costelas
barrigas
inchadas
crianças
sem

pão
carinho
futuro
esperança
de vida
digna

brilha
decrépita
a
figura
da
suma
indecência
camuflada
que
arrota
abundância

e viva
o consumo


que presta
o ouro
na miséria
que
nos toca?!
Estar e Ser


de onde vêm
as palavras
que lanço no ar
e te digo?
de onde vem
a ternura
que tirar do mal
consigo?
de onde vem
a coragem
de traçar
o meu destino?
de onde vem
a esperança
que ilumina
o meu caminho?
de onde vem
esta força
que me guia
e partilho?


de onde vêm?
para onde vão?
onde fico?


Castigo



se sofro
por cada sonho
perdido
é porque por ele
dei tudo
voo sem fim
nem fundo
minh'asa de imensidão
alcança o infinito!
É um longo olhar
um grito
será talvez perdição
mas sonhar é meu destino
vida mesquinha,
castigo,
saio dela
digo
não!
sem outra ventura


Entender
ouvir o não dito
perceber e aceitar
o oculto
humilhar-se e engrandecer
se dar e se confiar
abrir todo o coração
aos que só mostram janelas
chaves de segredo
que ora abrem ora não
corações de labirintos
a dizer-nos que o não são.

ver mais altos os contos
que as contas.
esconder o altruísmo
carecer e dizer não
fechar os olhos
deixar-se ver
e parecer cego.

Ser rosa
que no vento se desfolha
semente
perdida na terra
dura de pedra

a florir ternura
sem outra ventura que esta
ser tida por louca
a poeta!

a tarde













esconde-se o sol
minhas pálpebras
ansiosoas de luz
procuram
esconder de ti
o orvalho

as últimas rosas
renascidas na manhã
que me deste

Mas ai a brisa
que me mostraste
indiferente
levas

num instante
cai a noite

nas tuas costas
douradas





Hei-de Cantar!


Quero que a canção
permaneça
em meu coração
em meu verso
em meu tormento
minha desolação.
Quero que a canção
não estanque
seja para sempre
artéria a brilhar
escarlate
até que meu ser se esgote

Hei-de cantar!
ai, vou cantar!
Digam que não posso
nem devo,
deixai-os dizer!
desobedecendo fui e irei!
Hei-de continuar
cantando!!!!


O ECO
O RESSOAR DISTANTE
ME CHEGA DE LONGE.


O NÃO-ESTAR
ESTANDO
O NÃO-SER
SENDO


EM VÃO GRITO
EM VÃO MORRO
EM VÃO FICO
NUM MUNDO TÃO ERMO
QUE EU-SÓ HABITO.


DIZEM SIM
NEGANDO
DIZEM O DITO
POR NÃO DITO


NÃO JOGO!
NÃO ACREDITO
NO AMAR-FEITO.


TENHO AS MÃOS
ATADAS
CONTRA O PEITO


DE OLHOS RASOS
VERMELHAS BRASAS
A LUZIR NO ROSTO.


O CARRASCO CHEGA
E EU À ESPERA:


DE PÉ!
NO MEU POSTO!

MÃOS-DADAS



A
TEU OLHAR
QUE VAI
MERGULHADO
NESSA LUZ
AR SOL
RISO
E
CHORO

O
CULTO
NO ETÉREO
BRILHO



VAGO SILÊNCIO
O SILÊNCIO
HABITO
NADA SOA
SÓ MEU
CALADO
GRITO



O AZUL
NOS OLHOS LEVO
TÃO LONGE

LÁ
ONDE
SÓ
O INFINITO!



LANÇO MINH' ALMA
NUM ESFORÇO
DE
IMENSO TUDO
EXPONHO
ME



NA
LONGA
ESTRADA
POR ONDE
DESAGUA
A
VAGA SINUOSA



O POSSÍVEL
TUDO
SEM ROSTO


O SER
NINGUÉM
O
DETENHA
CORRE CORRE
VEIA
NA VIDA
AUTOMÁTICA



QUEM VERÁ
A MÃO ESTENDIDA
CARECIDA
DE TERNURA
MAS TÃO SÓ
QUE
NADA LEVA
TÃO SÓ
ALMA
ABERTA
SEDE
DESAFIADA



EM
ROSÁRIOS
MOINHOS
DESEJOS
DE
TERNURA?






Abro todas as janelas
voam no ar as cortinas
neste tépido outono
de tanto sol e ar morno
perto e ainda tão puro
além o azul do Tejo



em cinza adormece o dia
mas não adormece a idéia
que em doces sonhos me embala



HORIZONTE FECHADO







HAVIA FEITO SOL
HAVIA FEITO LUA
A MINHA MÃO NA TUA
OS MEUS DEDOS REVOLVENDO
A LAVA DOS TEUS CABELOS

HAVÍAMOS RIDO
HAVÍAMOS TAMBÉM CHORADO
À BEIRA DO MAR DANSADO
AH, HORIZONTE FECHADO....

AINDA SINTO NOS PÉS
O ESCORRER DOCE DA AREIA
MAS TRANSPAREÇO NA BRUMA
QUE NESSA NOITE DESCERA.






Teu Olhar!!!



Teu olhar é labareda,
Percorre-me como um rio,
Deixando-me nua, onda
Tremendo, sem ser de frio!


POR TI

SUBIREI AOS CÉUS SIDERAIS
COM MINHAS ASAS FÁGEIS DE BORBOLETA

POR TI

SEGUIREI VIDA FORA SONHANDO
NAS ASAS DE UMA GAIVOTA


MESMO SE EM CÉU CINZENTO


POR TI


FAR-ME-EI MARIA NUVEM BRANCA
PARA LAVAR TUA TRISTEZA!




Beira mar
longo horizonte
anel de céu e mar ao longe
sem ter começo nem fim

brisa

maresia
mimosas na primavera
conchas e búzios
areia macia

... e barcos para partir.


Nem o mar soa
nos búzios de meus dias!


sinal de quietas ondas
sinal de suaves brisas!


nada nem ninguém me chama


olha-me e vale-me,
gritam!


Gritam-me quando aflittos
os marinheiros
das marés vidas
nos dias em que não


recolhem as redes plenas
de olorosas maresias!


Que a vossa bonança dure,


Que me pendam
pequeninas e vazias
as mãos que vos estendo quando
em vossos ais, penas minhas!


Melhor sol vos trate as agonias
em


meu merecido crepúsculo
de lírios, sem ouro,
roxo entardecer calmo

repousando inocentes
minhas conchas vazias


tão fartas de repouso e sono!
Queimados em só dor meus dias!