domingo, junho 12, 2005

Um dia de Primavera




Lotus - Lee Kui Zhang Posted by Hello


Ergue-se o sol como flor
no campo azul porcelana
e refulge em minha alma
a tangível harmonia
gentil, consumada e pura!

Espelhando o céu, flui o rio.

As flores, ainda promessa,
abrem-se à luz qual bandeira
de paz, de amor e esperança.
Um periquito pequeno
delicadamente cuida
do seu amigo Caturro
com tanto esmero e ternura
que me quedo em mudo espanto!

Ah, o amor! É um segredo
no vento vai delirando...
brilha em cada recanto:
A vida fulge de encanto!

Mas o humano no engodo
sufoca o tesouro alado
no íntimo cofre cerrado!



Maria Petronilho,
26/5/2004
A escutar o grilo e o mar



Milly Possoz (1888-1967) Posted by Hello





Chamarás desditoso ao grilo
por ser negro?
Quem canta às estrelas?
Quem na noite soa
E nos embala?
Quem trila que trila
Sem parar?

Ah, a saudade de estar
Numa janela qualquer
Numa aldeia junto ao mar
Quieta
No silêncio suspensa
Sobre o penhasco
Escutando
O grilo e o mar
Companheiros do meu choro
Vozes brandas murmurando
É cantar!
É cantar!
É cantar!


Maria Petronilho,
Odeceixe, 1981
O BEIJO DAS BORBOLETAS





Marc Chagall - Le Bouquet Ardent Posted by Hello







LEVANTO AS MÃOS PARA O CÉU
ARCOS ÍRIS CONFIADOS RECAMAM OS MEUS DEDOS
DE BEIJOS

DELICIOSAMENTE ENFEITAM DE MIMOS
MEUS GESTOS AFLITOS

OH ALIANÇA COMOVENTE
JARDIM EFÉMERO ESCUDANDO-ME
DIÁFANO VÉU ONDULANDO
EM BRILHO SERENIDADE E ALÍVIO

SOBREVIVO CORAÇÃO!



Maria Petronilho,
Lisboa, 10/9/2004
SE TE ESCUTO



Adolphe William Bouguereau, 1891 Posted by Hello

SIGO AS ROTAS DO UNIVERSO
A TUA BOCA VAI DIZENDO
HISTÓRIAS LINDAS E BRINCANDO
SEM QUE RIAS
ENCANTADA, ESQUEÇO O MUNDO.
OS TEUS DEDOS SOSSEGADOS
SUBLINHAM DE VEZ DE EM QUANDO
OS GESTOS, TECENDO UM CASULO
ONDE NÃO CABEM SOLIDÃO NEM MÁGOA ALGUMA
MAS, SABES QUE A SAUDADE É UMA ANDORINHA AZUL
E CONSTRUIU NINHO NO BEIRAL DO MEU PEITO?



Maria Petronilho,
9/6/2005

sábado, junho 11, 2005

ALBERTO PEYRANO: DIA DE PORTUGAL (Com versão de Maria Petronilho)







10 de junio: Dia de Portugal
Desde mi humilde Pluma brotó este Fado Menor
Vaya con mi sincero homenaje al pueblo lusófono
con todo mi amor por la Lengua de Camõens y su gente.
Alberto Peyrano


Fado Menor




Nostalgias de um tempo eterno
envolto em auras de ausência
meu barco navega quieto
pelas águas deste fado
e busca que a teus beijos
o levem as brancas velas.

Fado de meu coração ferido,
fado de canções antigas
que se adornaram de flores
de teu jardim tresnoitado.
fado que hoje me tem preso
nas cordas de cem guitarras
que te pedem esta noite
não deixes de escutar minha esperança.

O barco segue seu rumo
até um porto de vento.
Capitão de velhos mares,
vai navegando até um faro
em fado menor, minha alma.

Alberto Peyrano
Versão: Maria Petronilho

* * *

Fado Menor


Nostalgias de un tiempo eterno
envuelto en olas de ausencia,
mi barco navega quieto
por las aguas de este fado
y busca que hasta tus besos
Lo lleven sus velas blancas.

Fado de mi corazón herido,
fado de antiguas cantigas
que se adornaron con flores
de tu jardin trasnochado.
Fado que hoy me tiene preso
en cuerdas de cien guitarras,
que te piden esta noche
no desoigas mi esperanza.

El barco sigue su rumbo
hacia un puerto que es de viento.
Capitãn de viejos mares,
va navegando hacia un faro,
en fado menor, mi alma.

Alberto Peyrano Posted by Hello
Mudo Encanto







MUDO ENCANTO ONDE ME QUEDO

POR TIMIDEZ MAS SEM MEDO

E VOU SORRINDO NO ENCANTO:

DO BEM E MAL NÃO ME ESPANTO.





DISSERAM-ME QUE O CONFORTO

DO POETA, ESSE SER TORTO,

QUE VIVE CANTANDO O SOFRER

E PASSA À VIDA AO MORRER

É CONTUDO CRER NA SINA



E QUE É TÃO LINDO SER MENINA



MAS MINHA INFÃNCIA ERA FRIA

TANTO E SÓ EU SABIA

MAS A NINGUÉM SOLTEI UM AI

POR NÃO TER TIDO MÃE E PAI.



FUI ATRAVESSANDO AS MÁGOAS.

MEU TEJO TEM TANTAS ÁGUAS

E NELAS DISSOLVI EM SAL

TODO DÓ DE QUEM ME FEZ MAL.



TRISTE O FADO DA MENINA

QUE PERDE A MÃE PEQUENINA!



VOU SOZINHA AO MEU NORTE

E DEUS NOS DÊ MELHOR SORTE!



MARIA PETRONILHO

27/12/2002

Posted by Hello

quarta-feira, maio 11, 2005


Star of Heaven - Edward Robert Huges Posted by Hello
Quem foi que me concebeu?

De quem fez o embrião
Que a luz divida tocou,
Pergunto-me: o que sei eu?
Que ele era bonito e mau
E ela um anjo do céu.
E os nomes que me nomeiam
Quem foi que os encarnou?
Como falavam e riam
Se riam... e como choravam,
se é que choravam, não sei!
Então como me criei?

Como um seixo que resiste
Derivando na corrente!

Maria Petronilho, 1997

segunda-feira, maio 09, 2005

Não contemos as estrelas!

Os amigos são estrelas,
sempre presentes no céu.
Os amigos são flores,
sempre presentes no campo,
mesmo quando o vento
derruba as pétalas
e o gelo encerra as sementes.
Deixa que as noites e os dias se sucedam
Deixa que rodem as estações.
Os teus amigos estarão sempre lá,
apesar do tempo que faça,
impassíveis ao tempo que avança
com a ternura e a confiança
com que Deus cria as flores
e acende as estrelas no céu!

4/5/2005
Que inquietação é esta?

(português/inglês, Maria Petronilho)


Dentro de mim
Uma ausência
Clama alto
Chora e grita
Por que implora?
Envolve-me
Sempre e ainda
A paz que foi construída
Por minhas mãos

Persistência

Mas em mim grita
A ausência!
Uma ausência
Que não tinha
Que de surpresa
Me apanha
E de súbito
Aguilhoa



Que inquietação é esta
Que transforma
A minha calma
Que mói fundo
A minha alma.


* * *


Which uneasiness is this?


Inside me
Some absence
Calls lowdly
Cries and howls
What does invokes?
Enfolds me
Ever and yet
The pace I make
With my fitting hands

Persistence

Cries inside me
Un absence!
Some absence
I had not
And surprising
Catches me
And sudden
Stings me
Which uneasiness is this?
It transforms
My calm
Crushing deep
My being.
PARA MINHA MÃE (OLHANDO O SEU RETRATO)


Mãe,
De onde te veio esse sorriso
Na precaridade e no sofrimento?
Com que olhares me criavas?
Que de mim esperarias?

De onde a força que levavas
Na vida-breve, tormento?

Como pudeste prosseguir sabendo
Que nada além de maior dor te esperava,
Que nunca me criarias, como dizias,
e eu sabia que sabias?

Tanto lias... mas porque bordavas
E como Penélope tecias infinitas rendas
Por um Ulisses que não merecia as prendas

Dessas mãos imaculadas
Tão finas, de unhas cuidadas,
Mãos de menina que eras,
Que menina findarias?

Olhando o teu olhar estremeço
De orgulho e se me vejo no espelho
No meu olhar vejo o nosso

Mãe coragem, atravesso
As altas chamas do mundo
E como tu vou cantando
O Fado que, nos calhando,

Na nossa voz reconheço,
E de coragem recobro
Do pouco de ti que lembro

Vamos, na vida e na morte, sorrindo!

Para minha mãe, Alice de Jesus Gouveia Petronilho, 1932-1958

11/2/2003
Embaraço


Está-me a apetecer
Fugir
Sumir
Ir
Obliterar
A luz
O ar
O ser
E o estar.
Quero seguir
Quero-me negar.

Mas não sei!

Só dei dar
E ficar
E entender
E amar.


7/5/2005
Os meninos



São os meninos

Que trazem os sonhos

A brilhar nos olhos

Que nada os impeça

De fazer de amor sua estrada.

Tecendo um futuro risonho

Que queira Deus aconteça.





Deixem soltos os meninos,

Ágeis, leves passarinhos,

Que num adejo de asa

Saem depressa dos ninhos

P'ra viver os seus destinos

No mundo, a sua casa.







7/5/2005
Desígnio



Hoje

é um dia que não é.

É um dia

em que não quero ser.

Quero por ele passar

como por uma estrada

de esquecimento.

Quero apagar as pegadas.

Quero que assente a poeira.



Passarei por ele inteira

pois alto esteio me escora:



Meu desígnio esplende aurora

que a este fadário inflama



Do carvão ressalta a chama!









8/5/2005
Faz noite negra, mas eu canto!


A canção dos jovens, a canção dos pobres,
a canção da esperança da gente do meu país.
Faz noite negra.
A lua brilha tão pequena!
Pequenas são as estrelas ao seu redor...
mas se toda essa luz se juntasse - que fulgor!
E luz é vida.
E para viver é preciso despertar.
A ao despertar esvai-se a noite.
Foi comido por si mesmo o negro pesadelo,
o susto desanuviou-se.
Sumiu-se em nada à luz do dia.
Dia em que a luz brilhe em todos os olhos
e em todos os sorrisos.
Dia de suspiros de alívio...
Esse o dia que espero.
Venha breve e venha prenhe de paz e de amor,
como o sol a pino.
Fujam daqui as manchas bolorentas do destino negro.
Bolor nas horas de todos os dias; na angústia.
Começa-se e segue-se sofrendo
sem que uma réstia de alvorada,
de ternura, ao menos luz no fim da jornada d
esigual da nossa vida.
Uns têm tudo; outros "têm" nada;
uns na soberba; outros na penúria;
uns os algozes; outros os servos;
uns arrotando e tantos outros mais de barriga vazia.
Acabem-se os lagos de pranto
em que afogamos o silêncio da vida.
Acabe-se o cada-qual-consigo
– nunca nada se conseguindo
... Enquanto se não entenda
que é NOSSA a mesmo causa,
como é NOSSA a mesma justiça
e que há que lutar de mão-dada!
REVIVER



REVIVER
COMO A ÁGUA DE UM RIO
QUE SEMPRE EXISTIU
QUE SE EVAPOROU
E DEPOIS CHOVEU.
REVIVER
COMO O VERDE DA FOLHINHA
QUE VIVIA ESCONDIDA
NO BOTÃO DA PLANTA.
COMO O SOL QUE DESPONTA
E É SEMPRE OUTRO DIA.
REVIVER
COMO O MAR
QUE ORA TRAZ SUA ÁGUA
ORA A LEVA DE VOLTA.
REVIVER
COMO A RÃ DO DESERTO
QUE ESPERA ENTERRADA A CHUVA.
COMO A FLOR OCULTA
NA ENERGIA
DA SUA MÃE SEMENTE.
COMO O FILHO IMATURO
NO VENTRE DA MENINA
AO NASCER.
Mãe Eterna





Pomba branca,

tão breve, tão corajosa

ave linda que Deus trouxe

por um átimo à terra

astro que foste

cometa

e atrás de ti deixaste

no esmo frágil centelha

em soledade ferida



ah, mãe como eu aspirava

cobrir-te de rosas brancas

neste dia de lembranças!

mas relembro só de mágoas

as tantas flores que levavas



como se fosse este instante



como se do além pudesse

erguer-te mais que lembrar-te

ouvir-te e ter-te presente



beijo, amada, a tua sombra

aonde o céu te mantenha

esperando a tua filha

desvalida e pequena



desde que te foste embora

uma densa nuvem negra

abafou sua vida



7/5/2005

sábado, abril 30, 2005

Victima de la mentira

Poema de Alberto Peyrano

Vaga el hombre
con su alma
persiguiendo
sus fantasmas...
No permiten su emoción...
No le aceptan su verdad...
¡No le dan su libertad...!
¡No lo aman...!

Siente el hombre
la tristeza
de estar solo
sin hermanos...
¡Es la víctima infeliz!
¡La mentira lo nutrió!
En el mundo, sin amor,
vaga y llora...

Cuando yo dejé mi hogar
seguí un sueño de quimeras
pero, al mirar hacia atrás,
a mis padres no encontré
ni a mi tierna primavera...
¡Soy un esclavo y robot
del engaño y la mentira...!
Me aparté de mi verdad
por buscar una ilusión...
¡Y gané la soledad!



* * *
Vítima da Mentira

Vagueia o homem
com a sua alma
perseguindo
os seus fantasmas...
Não permitem a sua emoção...
Não aceitam a sua verdade...
Não lhe dão a liberdade...!
Não o amam...!

Sente o homem
a tristeza
de estar só
sem irmãos...
É a vítima infeliz!
A mentira alimentou-o.
No mundo, sem amor,
vagueia e chora...

Quando deixei o meu lar
segui um sonho de quimeras
mas, ao olhar para trás,
não encontrei os meus pais
nem a minha terna primavera...
Sou um escravo e um robot
do engano e da mentira...!
Separei-me da minha verdade
por buscar uma ilusão...
E ganhei a solidão!


* * *
Victime du mensonge


Divague l’homme
Avec som âme
Pourchassant
Ses fantômes...
Ne lui permettrent son emotion…
Ne lui acceptent sa verité...
Ne lui donnent sa liberté... !
Ne l’aiment pas... !



Éprouve l’homme
La tristesse
D’être seul
Sans frères....
C’est la victime malheureux !
La mensange l’a nourit
Sur le monde, sans amour
Il divague et pleure….

Quand j’ai laissé mon foyer
Je purssuivais un rêve de quiméres !
Mais, en regardant en arriére
Je n’ai pas retrouvé mes parents
Ni mon tendre printemps...
Je suis un esclave et un robot
De l’artifice, du mensonge... !
Je me suis séparé de ma verité
Pour chercher une ilusion…
Et je n’ai arrivé qu’a l'isolement…


* * *
Victim of the Lie


Follow the man
With his soul
persecuting
his visions
don’t allow his emotions

Don’t accept his truth...
Don’t give him his freedom…!
Don‘t love him



Regrets the man
the sadness
of being alone
without brothers....
Is the unhappy victim!
The lie nurished him
On tthe world, without love,
Drifts and weeps...



When I left my home
I followed a dream of chimera
But, looking behind,
I did’t find neither my parents
Nor my tender springtimes...
I’m a slave and a robot
Of the cheating and of the insincerity...!
I disjointed myself of my truth
Searching for an illusion…
An I find out the isolation!



(versões para português, francês e inglês, Maria Petronilho)
No claro raiar




Sou filha do vento,

Sou noiva do mar



Divago em saudade



em espumas douradas

no rasar das ondas



anseio chegar

ao claro regaço



ao e-terno amar!

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Canção do amor e da ira calada


Que a melancolia
não me leve a sombra
de árvore viva
em alma de primavera

Que não oiça
a maré alta que soa...
Quero ficar quieta
a sonhá-la, da duna...

Que a duna do meu peito
permaneça adormecida
que não a toque a chama
nem a ventania

Que os meus olhos ousem
uma vez na vida
olhar o sol de frente
e depois fique cega

E cega, deixarei passar sem ver
toda a lonjura onde não fui nem irei
todo o ouro, todo o azul.

E, ainda que não vendo,
vereis vós dos meus tormentos
fazerem-se vulcões meus olhos
que foram ensombrados lagos

Deixai-me ficar quieta
no meu terraço florido
com meus pássaros cantando

Levai o vosso sossego
do meu ser angustiado

Que o sol me seque o pranto
e o ar o leve escondido...
Horas Amargas



na hora
em que
te abates
sobre o teu próprio
silêncio
em que
te sobra tanto
tempo
e espaço
em que
te sobra
tanto quanto
precisas
entendimento


na hora
em que
contas
pela ausência
de uma mão
sobre a tua
quantos
amigos te restam
de quantos
te prometiam
consolo
no tempo do sorriso

na hora
em que
te debruças
sobre o teu próprio
abismo
de amargura

nessa hora
saberás
a fundura
da tua
pequena grandeza!




13/11/2002
... Depois


É forçoso caminhar
Além do precário ser
Do ignorado existir
No tempo e modo
Devir

Depois é preciso sonhar
É difícil construir
....Depois

A estrela longe a fulgir
Tanto se pode alcançar
Quanto se pode perder

....Depois
Será preciso tentar
Redesenhar o amor

15/2/2004
Diz que é meu engano a desdita!



Nos meus olhos desertos
da tua presença
e
foscos de tanta tristeza
na
eterna lua-nova
cerrada e ansiosa
...
separa
o mordente sal
da água
diz apenas uma palavra
sopra uma vez que seja
que estás comigo ainda
que é meu engano a desdita
de jazer abandonada
e faz crescer a esperança
e faze de lua-cheia
o colo que te aninhava
e
anseia
reflorir em esplendorosa
e infinita aliança
o meu destino
de areia!

Lisboa, 14/10/2004
Do cálido Beijo


Levito
Na brisa

Fluo no azul
Diáfano

Excedendo
O além de

Botão abrindo

No âmago,

A vida
Transluz

Fulgurante
Florida

Reacendo
A vida.
Eu e Tu


Os nossos sonhos e planos
Com desvelo entrelaçamos
Tu e eu somos um todo
O mundo reinventamos!
As mãos tremendo




De repente,

As mãos encontram-se

Tremendo sozinhas

No meio da noite

Quase podendo tocar-te

Tremendo

Por desejar-te

Mas tu estás tão ausente

Se bem estejas tão presente!

E o espaço se faz imenso

Volteia no ar minha chama

No teu encalço

... Mas não te alcanço!

Escuta o coração lancinante

Dizer-te secretamente

Vem, meigo e doce

Fazer-me vibrar

Fremente

Corda de violino nos teus braços;

Sê o arco que me faz gemer

De prazer

E gritar delirante


As palmas das minhas mãos

Dão por si tão de repente

Vazias de ti,

Tremendo

Antecipando o instante....


5/3/2004
Proposta


No mais perfeito compasso

Claramente de mão dada

Mesmo em hora de cansaço

Venceremos a jornada
Gostavas de ser diferente?



Se tu fosses diferente
Do Homem que és agora
Verias, crendo sómente,
Já que atento e consciente,
Que quando a alma acorda
Da dor, eterna cadeia,
O nosso olhar se alteia
Vendo mais à nossa volta


Tanta coisa ora alheia:
Que adormecida paira!


Que tudo o que se cria
Não morre mas se transforma!

Que onde estiver Deus cuida
Atento, da sua obra!

Que é dentro do sofrimento
Que a consciência acorda!

Que o amor que se semeia
Há-de reflorir ainda!


Se tu fosses diferente
Quem sabe alguém veria


Que é na palavra fluente
Do que ousa pensar diferente
Que a mudança principia!



Lisboa, 22/6/2002
Tu sabes lá...




O que é ser-se
uma mulher solitária!
Ter tanta coisa a dizer
e ninguém para escutar!
O corpo e a alma a tremer
e ninguém nos encontrar!
Andar às cegas na luz
e ver bem na escuridão!
Até um olhar se agradece,
até nos enleva um sorriso!
Não é a solidão que dói,
que a solidão não existe!
É bom falar com si mesma,
a solidão não é triste!


É um vazio qualquer,
uma cadeira a sobrar,
uma ânsia de pedir
com vergonha de aceitar!
"Quem desdenha..."


...E te darei o meu beijo,

Me dizes meio sorrindo!

Não te atiçasse o desejo,

Porque estarias dizendo?!
Em Esperança


Nos braços da poesia

onde folha a folha teço

um amanhecer de esperança

na Terra em que padeço
Espírito



Dei passos no vazio
Defrontando o abismo
Valeu-me ver-te, brilhante,
Na beira da frágua
Se assim não fosse
Por me achar voando sem asas
Navegando sem leme nem remos
Perderia o tino
E o meu ser
Estilhar-se-ia no fundo
Com um sonido
Dilúcido


Lisboa, 20/9/2004
Canto de Outono







Arrebatados os cachos

As videiras condoídas

Agitam no ar valdevinos

Os braços desadornados

Esbulhadas melenas ruivas

Estremecem despenteadas

Longos dedos desprovidos

Secos de anéis e enliços

Fecham as queimadas parras

E as lágrimas decaem louras

Cobrindo os regos lidados.



Lisboa, 23/9/2004
Horizonte


Sobre a visão da ponte

funde-se o Tejo no mar

é tão lindo o horizonte

onde me perco a sonhar!
Ferida que arde sem doer



Que por teus beijos padece

Que à mingua me consome

De teu corpo tenho sede

De teus beijos tenho fome
De onde mana o alento

Que nos iguala na vida?

Nem tu és o meu cativo

Nem eu sou tua senhora!
Que o vento me levante


Docemente
me eleve
acima de toda a pena
na sua diáfana
asa
proteja
da dor salgada
entranhe
no azul profundo
leve
as cinzas magoadas
na busca
de nuvens brancas
onde
repouse a fronte
a alma repare
adormeça e acorde
sossegue
de onde volte
renascida
para
cantar a ternura
e
saudar a primavera
a
luz que a todos afaga
espargindo
amor na terra

Lisboa, 31/4/2004
ENCONTRO



O MEU CORAÇÃO NO IMO
DO TEU CORAÇÃO

COMO SE O TEMPO E O ESPAÇO PARASSEM


NUM TERNO ENLAÇO
NA DOÇURA DESTE ABRAÇO



LISBOA, 31/4/2004
Sonhadora



Não, não sei como falar-te

Desta alma sonhadora

Que olhando o céu desenha

Uma paisagem colorida

Entre as nuvens imagina

Um mundo que se desdobra

Paralelo a este outro

Donde minha alma se evola



Sou a eterna criança

Brincando à beira da praia

Vou desenhando na areia

Versos que o mar de repente

Desfaz e refaz em espuma



Mas sorrio, não me importo

Fico na margem tranquila

Vendo a areia que rola

E o meu sonho recomeça

Erguendo castelos de espera

Em minha alma, sonhadora.




Lisboa, 5/12/2003

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Nada demora na vida


A brancura da poesia
Esvoaça ao rés da espuma
Beija a praia gota a gota
Como se dedos de céu
Detendo do mar a fúria
Estremece longe a safira
Ergue-se em alta montanha
Que logo decai desfeita
Nada demora na vida
Por muito alto que suba
Por muita força que tenha
Recorda o mar à poeta

terça-feira, fevereiro 01, 2005

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Les souvenirs

sont des fleurs éternelles

Moi. Je suis la joie de vivre

Je me souviens de tous mes printemps

Quand je vivais sur des nuages !

Quand je combattais les ombres !



Puis !…

Un certain mois d'avril arrive

E mon été débute

par l’éclat d'une fleur rouge



Qui figurait la tonalité

de tant de nos cris muets !

Une fleur couleur de sang

qui nous apportait la paix !



Maintenant je m’accomplis

dans la douceur de mon automne

Si paisible ! Si rayonnante

Que j’ai l’impression, quelques fois !

Qu’aucun hiver ténébreux

Ne m’entraîneras jamais.

- - -

Maria Petronilho

As recordações

são flores eternas

Eu sou a alegria de viver

Lembro-me de todas as primaveras

Quando vivia nas nuvens

Quando combatia as sombras.



Então...

Um certo mês de abril chegou

e o meu verão começou...

No auge rubro d’uma flor



Que simbolizava o tom

de tantos gritos calados!

Uma flor da cor do sangue

que nos conduzia à paz.



Agora. Aconchego-me

na doçura do meu outono

Tão calmo, tão radioso

Que às vezes me parece

que nenhum inverno tenebroso

entrará na minha existência






PARA NÃO FALAR DE SAUDADE


EU, QUE SOU FILHA DAS ONDAS,
GRITOS DE MARÉS,
GAIVOTAS EM VOOS RASANTES,
ESPUMAS,


A POUCO E POUCO ME ENTERRO


NOS NUS AREAIS
EM BRUMAS.


NOS MEUS OLHOS VAI MORRENDO
A LUZ QUE DELES DIZIAS...


A POUCO E POUCO ME PERCO
BUSCANDO TUAS MÃOS
SE VOLTO
TRAZENDO AS MINHAS VAZIAS.

25/2/2002

ASA DE MAR / Ala de Mar


ASA DE MAR
MINHA BARCA
ARVORADA
NA NUA CRISTA DA ONDA


LANÇADA
NUA E PLENA
MINHA ÂNSIA
MINHA MÁGOA


DE VIDA ILUMINADA


AI DO QUE SAIBA
FICAR LEVANTADO
NA BORRASCA
VIRAR A CRISTA DA ONDA


COM O SONHO ATRÁS DO OLHAR
DEIXAR
SEM PENA OU PERDA
A BRANCA PRAIA


AI PERDER-SE A VIDA
UMA VEZ ÚNICA!

*

ALA DE MAR
MARIA PETRONILHO
Versão em espanhol: ALBERTO PEYRANO

ALA DE MAR
MI BARCA
ALBORADA
EN LA DESNUDA CRESTA DE LA OLA


LANZADA
DESNUDA Y PLENA
MI ANSIA
MI PENA


DE VIDA ILUMINADA


AY DEL QUE SEPA
QUEDARSE LEVANTADO
EN LA BORRASCA
SIN ZOZOBRAR EN LA CRESTA DE LA OLA


CON EL SUEÑO ATRÁS DE LA MIRADA
DEJAR
SIN PENA O PÉRDIDA
LA BLANCA PLAYA


AY PERDERSE LA VIDA
SÓLO UNA VEZ!

NO SILÊNCIO DA CASA



acordar para quê?
para ver as estrelas
tremular sumidas?

não mais margaridas
bordando as manhãs
nem o fresco rocio

cúmplice

os pés roçando-se nus
debaixo da mesa posta

recendia a casa
de aroma a ternura

mas

as pétalas das margaridas
estão agora esfolhadas
à espera das geadas

olhar cinzas, para quê?


Lisboa, 13/1/2004


Anjo-Estrela



Faço-me ânsia! Minhas centelhas
Tomam formas Percorrem distâncias
Envolvem-te alucinadas Divago no céu,
Em demandas Os olhos acesos
De urgências. As mãos implorando
As tuas Entranho-me em teus sonhos
E sussurro aos teu ouvidos
Cânticos infinitos, pois
Nasci entre os astros
E venho tomar-te nos braços
Para cingidos subirmos
À luz onde pertencemos



Se o silêncio é de oiro



Hoje faço-me silêncio.
Excepcionalmente hoje,
que me estanquem nos lábios
as correntes das palavras
que não digo nem escuto.
Sequer o mar longínquo
me segreda murmúrios
de terno aconchego.
Tudo está calado, como se o vazio
contivesse o soído na noite.
O sol brilha, no entanto
e disfere profusamente
correntes de oiro descoberto,
mas de tão banal e gratuito
passa desapercebido.
Os homens decidiram
envenenar os rios de mercúrio
revirando nas mãos combalidas
as vísceras da terra descarnada
buscando o brilho na poeira
com que revestem a vaidade alheia,
a levantar a cabeça e aspirar fundo
o aroma das florestas refulgindo

... Portanto remeto-me ao silêncio
e busco que correntes de lágrimas
me desenxovalhem o rosto.



Lisboa, 21/9/2004
Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...



Mário Quintana



LES POÈMES




LES POÉMES SONT DES OISEAUX QUE ARRIVENT
ON NE SAIT PAS OÙ ILS SE DÉPOSENT
DAS LE LIVRE QUE TU LIS.
QUAND TU FERMES LE LIVRE ILS S’ENVOLENT
COMME D’UN PIÉGE
ILS N’ONT PAS D’ENDROIT
NI DE PORT
ILS SE NOURRISSENT POR UN INSTANT À CHAQUE PAIRE DE MAINS
ET ILS S’EN VONT
ET ALORS TU REGARDES CE VIDE DE TES MAINS
DANS LE MEIVEILLEUX ÉTONNEMENT DE SAVOIR
QUE SA NOURRITOURE ÉSTAIT DÉJÀ DANS TOI...


Mário Quintana

(Trad. Maria Petronilho)





domingo, janeiro 30, 2005

No tempo da brilhantina

Tudo o via embaçava
Só o nosso olhar brilhava
Da mais profunda tristeza
Quanta a conta acumulada
Na mercearia da esquina!
Se brilhava na cabeça
O fulgor de uma ideia
Derrubavam-nos a porta
Arrastavam-nos à força
Para a prisão e a tortura.
Por fora o que brilhava
Era a glória abestalhada
“Como vai V.ª Excelência?”,
E o tolo e o parolo
vergavam-se um ao outro
Que o povo botava um lenço
De lágrimas ensopado
Para acenar ao filho
No cais de onde o navio
O levava para a guerra.
Que guerra? Nem o sabia! Soía
Que uns terroristas nas matas,
Queriam as tais colónias
Antigas, que tresandavam.
Nos tempos da brilhantina
Eu de vestido engendrado
De outros postos de lado
Cozinhava, limpava, cozia
E depois de espancada
Com o cinturão do polícia
Ia adoçar limonada
A que vinha habituada
De Angola, a minha madrasta.
Quando enfim me recolhia
Mergulhava na leitura
Embrenhava-me na escrita
Que a muito custo passava
Até ao norte de África
Onde pela uma hora
Manuel Alegre dizia
"Aqui, Voz da Liberdade!"
E os horrores desvendava
E as mentiras mostrava
E os nossos versos lia...

Anos dourados havia,
Para a nação impostora
Retratada em cada sala
Um à esquerda, outro à direita
Com a cara inexpressiva.
No meio um Cristo pregado
Mantinha-se angustiando
Ao ver-nos sofrer tal vida!


O meu grito



Tal como um raio revela
A solerte cobardia
Que perfidamente intenta
Emaranhar a lisura
Em jogos de alvar intriga
Mas o meu grito desvenda
O pérfido estratagema
Do calculista na sombra
Que o meu grito estraçalha
Na caverna onde se acoita
A insensível luxúria

Rasgo a mudez do silêncio

E o meu grito se faz eco
E esse eco se faz canto
Alastrando no céu limpo

Verso a explícita brancura

E o meu grito desabrocha
Em flor! Borboleta que voa
Transluzindo na evidência

O claro esplendor da alma.


quinta-feira, janeiro 27, 2005

Serenata



Que sonharia a moça
Que jazia solitária
Sobre a nua alva cama?
Quem atentaria nela?

Parecia que dormia

Nem as estrelas saberiam
Nem a lua infiltrada
Pelas dobras da cortina
De nada se tem certeza
Quando se olha de fora

Dormiria a bela alva?

Uma estátua parecia
Na penumbra desmaiada
Por onde vaguearia
Ninguém nunca saberia
Só a via a madrugada

Desprezara a sua vida
Que a si mesma sobrava
Com uma adaga enterrada
Em pétalas rubras a rosa
Sobre o nu lençol da vida
Em sangue se desfolhava.



Foguetes!



As lágrimas caem do céu
e a gente olha esquecendo
que chora todos os dias

que ao menos junho
nos amorne o desepero

meu povo que sou eu
na beira abismo
mantendo a esperança
hasteada na janela

e viva a bola, a música e a sardinha
povo triste do meu fado

corrido
do barco pró autocarro
emprego tremido
sono inquieto

mas amanhã será feriado

por decreto
morremos de fome
mas olhamos o céu em pasmo
em lágrimas

fazemos ahhh como os meninos
apontando estrelas

vimos
inquietos desdormidos
contando cêntimos
os euros tão caros
tão curtos
enganosos

vivam pois os santos
que fazem o milagre
de abrir sorrisos nos rostos

ó pá olha que lindo
até o pedestal do Cristo
tem os arcos pintados de verde e vermelho

dêem-nos circo que o pão nos falta
deem à malta a ilusão da vitória

comprada
uma bandeira em todos os carros
parados à porta
que a gasolina está cara

que império manda agora
os nossos filhos para a guerra
numa colónia feita de areia

ardida
o povo entusiamado grita
portugal...! Portugal...! Portugal...!

pois pouco mais resta
que ser-se patriota!



Minha Lisboa/Lisboa Mía




É uma cidade ancorada
talvez fosse uma jangada
É uma cidade tecida
de ruelas e escadinhas
unindo as sete colinas

É um bordado de pedra
onde o coração flutua
cintila entre mar e Tejo
onde se enleia e espelha

onde terra, mar e céu
se casaram, nasci eu
e ainda que sendo dela
ergo os estendais qual vela
e adentro como asa branca
a aura de céu cor de rosa
buscando outra ventura


Lisboa, 27/1/2005



Lisboa Mía

Maria Petronilho
Versão em espanhol: Alberto Peyrano

Es una ciudad anclada
tal vez fuese una jangada
Es una ciudad tejida
en escaleras, callejas
uniendo siete colinas

Es un bordado de piedra
donde el corazón navega
brilla entre el Tajo y el mar
donde se enreda y refleja

donde tierra, cielo y mar
se casaron, nací yo
y aún siendo tan de ella
me despliego como vela
y vuelo como ala blanca
a su aura color rosa
buscando felicidad.

Desespero/Desesperación

Onde está a minha força,
o meu orgulho altaneiro?
Perante Ti sou cordeiro.
Sinto invadir-me inteiro
aquele estado de alma
de nada qu'rer tudo qu'rendo
Em vão, em vão, em vão...
Os braços Te estendo
sobre corpo e alma os fecho
vazios de todos, de tudo
triste, inertes os desço.
À porta bate o desespero:
renego o impulso e retomo
a ténue vereda da esperança
vagueio por entre o fumo
sigo trôpega o caminho,
aquele onde Te procuro
aquele aonde recuso
perder minha fé em tudo!





Desesperación

Maria Petronilho

Versão em español: Alberto Peyrano



Dónde está mi fuerza,

mi orgullo altanero?

Delante de Ti soy cordero.

Siento que me invade entero

aquel estado del alma

de nada querer... queriendo todo.

En vano, en vano, en vano...

Los brazos Te extiendo

sobre cuerpo y alma los cierro

vacíos de todos, de todo.

Triste, inertes los bajo.

A mi puerta llama la desesperación:

reniego el impulso y retomo

de la esperanza el tenue sendero

deambulo entre el humo,

torpe, en el camino

aquel donde Te procuro,

aquél donde rehúso

perder mi fe en todo!

13/4/2003
Hora da Sesta

Tudo dorme
só o olho do sol
resplandece
ardendo apaixonado
no grande leito do céu.
A libido sobreleva-se
como se folha de feto
emergindo airosa,
desenrolando-se lentamente
sem se dar mostra
da exigência contida

para o asceta
a sesta impele a ânsia
que opressa na sombra
desperta
Enfim Poeta e Mulher/
Maria Petronilho


Espero merecer morrer
num dia de intenso sol
sem ninguém se aperceber
que a minha alma se vai
presa num dos tantos raios
que ligam a terra e o céu
e que alfim me guiarão
para um espaço além dor
para um lugar só de amor
onde poderei ousar
ser poeta e mulher
sem ninguém me estranhar

num lugar onde não cabem
arrogância e poder

ao resto de mim que ficar
não importa o acontecer
não será meu sequer
será resto a fecundar
o chão donde há-de nascer
nova vida a luzir

o eu que sou há-de estar
num cosmos a acordar
sem ninguém me censurar
o ser poeta e mulher!

Lisboa, 27/1/2004



Al Fin Poeta y Mujer


Versão em espanhol: Alberto Peyrano

Espero merecer morir
un día de intenso sol
sin que nadie se dé cuenta
que mi alma ya se va
abrazada de algún rayo
que liga la tierra al cielo
y que al final me guiará
muy distante del dolor
hacia el reino del amor
donde al fin me atreveré
a ser poeta y mujer
sin que ninguno me extrañe

un lugar donde no caben
ni arrogancia ni poder

y a lo que de mí va a quedar
no importa lo que suceda
pues eso no seré yo
será un resto que fecunda
el suelo para dar más
nueva vida y nueva luz

lo que yo soy ha de estar
en el cosmos despertando
sin que nadie me censure
si soy poeta y mujer!

Lisboa, 27/1/2004


terça-feira, janeiro 18, 2005


Maria Petronilho Posted by Hello
No silêncio negro
Maria Petronilho


No silêncio negro da noite
Eles lutam
Passam calados, em fila,
Sofrendo.
No silêncio negro da noite
Eles escrevem
E as paredes brancas
Ficam reflectindo a ânsia
Dos corações subjugados.
No silêncio negro da Situação
Marchamos.

Na degradação total,
Passamos calados
Lutando na noite

* * *

En el silencio negro



En el silencio negro de la noche

Ellos luchan

Pasan callados, en fila,

Sufriendo.

En el silencio negro de la noche

Ellos escriben

Y las paredes blancas


Quedan reflejando el ansia
De los corazones subyugados.

En el silencio negro de la Situación

Marchamos.



En la degradación total,

Pasamos callados

Luchando en la noche.


* * *

Maria Petronilho

(versão em español: Alberto Peyrano)
Dentro de minha alma




Florescendo ainda
Ergue-se um ramo
De nova enxertia

Dentro de minha alma

A flor que devia
Estar pálida e nua
Se ergue renascida.

Dentro de mim soa
Um hino de esperança
Que vibra no vento

Dentro de minha alma

Reluz a fagulha
Que irrompe da sombra
E sobe e crepita

Em meu canto voa!


Lisboa, 22/3/2004






Dans Mon Âme






Fleurissant encore
Se lève une branche
De nouvelle entière

Dans mon âme

La fleur que devrais
Être pâle et nue
Se lève rentrée

Dans mon âme sonne
Un hymne d’espoir
Qui pince le vent

Dans mon âme

Reluit l’étincelle
Que pousse de l’ombre
Et monte et crépite

Dans mon chant s’en vole !


Lisboa, 23/3/2004





























ITENERÁRIOS


Difícil deslindar caminhos
difícil seguir a linha do arco Íris
no meio das nuvens negras

Difícil desatar os nós
do destino que ameaça
em laças desesperadas
afogar nossas esperanças

Difícil entrar em guerras
pela pacificação das almas
de mãos nuas, desarmadas
Da alma ante o corpo perdido


Ainda retenho o peso
Do corpo de que fui esteio
A vida ainda me enrola
Como embrulhada na onda
E a razão ainda não depara
O desopressão da mágoa
Ando ainda numa busca
Vagueio como fantasma
Que ainda não acredita
Que se encontra noutra vida
Meu pobre corpo coberto
De algas e de entulho
Putrefacto, inabitado
Jaze onde foi engolido
Já sem os esgares do medo
Mas eu, que ainda divago
Comprovo quanto é insano
E absurdo o ser humano
Eu, que a tudo pertenço
Pois sou átomo suspenso
De pavor empalideço
Subi do fundo do abismo
Fui cuspida do meu fruto
Mas preciso de mais tempo
Para ser de novo rebento
Re-habitar este solo
Aonde o alimento
É tão mal distribuído
Agora, vejo o engano
Em que me forcei sem ganho
pois nada sendo, sou tudo


segunda-feira, maio 10, 2004

Quando sonho contigo

sou tão feliz que flutuo

e me evado

Sinto-me no apertado

abraço

que recordo

que revivo



sonhando contigo

o mundo fica mais belo

esqueço tudo

e me entrego

aguardando

o momento



de concretizar esse sonho!



Um beijo do Tejo


Enquanto no azul divago
O céu funde-se com o Tejo
onde os barcos se aconchegam

eu sinto-me como um pássaro
afeito à travessia
nestas rotas que te abraçam

A nossa alma ultrapassa
toda e qualquer distância
sem sequer dar conta dela

enquanto os olhos viajam
neste coração o fado
vai trinando de saudade

acostumado à tristeza
que se enlaça na alegria
com que se faz a amizade

Quem Sou?

Sou a viva chama
No vento que voa
Evocando a Vida!
 
De novo sou  flama
Viva como vela
De acesa chama.
 
Na vida que apela
Mantenho-me viva
 
Pirata, que trazes teias
De sedas e de brocados.
Derrubas minhas ameias
Sonho volúpia, delicias

Astuto que me adivinhas
Arrebatas, desatinas
O sangue de minhas veias
Agitas quando caminhas

Nas redes de azuis safiras
Rendadas de espumas brancas
Que ladeiam tuas praias
Vêm assaltar as minhas

Ai noite, tu que vigias
Muda a rota das estrelas
Cruzeiro do Sul tão longe
E a Estrela Polar sozinha

A frialdade arrepia
Pois que lânguida divaga
Mas é tão longe essa Ilha!
Mater Dolorosa




Minh’alma traja de lírios
Sou a Madre trespassada
Por flechas memoriais sinos


Que ecoam na tarde roxa
Ao rematar minha vida

De intrépida luta, tanta!

Eleva-se a ofensa erguida
Como bandeira rasgada

Sobre a terra conquistada
No fragor de uma batalha
Por uma grei esquecida.

No inescrutável espanto.

Maria de todas as dores
Desponta em meu peito o soluço
Que abafaste no teu pranto!

"Crepúsculos"



Na cúpula
De azul cobalto
A andorinha se afasta

No infinito bordado
De vermelho e dourado
O alvo cisne regressa
Brilha o esplêndido manto!

Divago no céu dos Andes
Picos de onde aos céus
Se levantam os condores
Transportando pelos ares
Mensagens de outros mundos
Seguindo o rumo dos astros
Aspiro o ar das florestas!
Argentina de ouro e prata
Tem cautela que os abutres
Estão preparando as garras
Para devorar-te as entranhas
Tais escorpiões e aranhas
Que tudo vão dissolvendo
Com seus palpes e veneno
Proclamam justos temores
Os filhos do sol pensadores
Anseio ver-te em progresso
Sem estragarem o teu manto!

Do ventre da vida



Ondas que se esbatem
Na areia dourada
Nas rochas cinzentas
De franjas cobertas

Escuto e oiço o grito
Dos Homens lutando
Por nada morrendo
O mar traz no dorso
O sangue esvaído
Enterra esqueletos
De homens, mulheres,
Velhos e crianças
A eito apanhados
Em guerras estultas
De lágrimas tantas
Ventre de esperança
Aonde se adoça
Continua a vida


Oh que vontade de correr pelas ruas frias
Neste Natal escuro de guerra e de morte
E procurar por debaixo das pedras
Aquela estrela branca que iluminou os Magos!
Oh que vontade de correr pelas terras nuas
E de chamar a cada Homem irmão
E de abraçar cada criança triste
E destroçar os brinquedos de guerra
E trocá-los por amor e paz e pão
E alumia-lhes os olhos e o peito e os lábios
De esperanças e de sorrisos!
Era uma casa deserta
Sem cortinas na janela
Voando ao sabor da brisa
Onde havia uma menina

Pequena, vivendo de ânsia
Olhos postos no infindo
Sonho feito de estrelados
Céus de amor e de bonança

Desenhava a sua alma
Com as cores da fantasia
E a sua alma abrangia
Todas as cores da esperança

Segue meu fado na bruma
Atento à longa distância
Onde o luzeiro se apaga




E tanto brilhou um dia
A luz alta da esperança
Que hoje não é mais nada
Que uma fugida lembrança


Que em lástima me aniquila

A Mãe no palco da guerra



Ser a mãe correndo cega
Aos zigues zagues na rua
Apertando ao peito ainda
A criança assassinada
Por uma bala perdida

Sobre o solo que trepida
Ver a casa devastada
Algures seu homem erra
Na insânia de uma guerra
Que a todos nos desespera

Jazem os mortos na estrada
Olhos cheios de surpresa
E o sangue empapa a areia
Nesta vastidão deserta
Que a cobiça incendeia
Onde o ódio se apregoa

Rebolando-se nos leitos
Soam mais alto que os tiros
De outras mulheres os gritos
Lançando ao mundo seus filhos
Já antevendo os destinos
De seus meninos amados


Os velhos abandonados
Puseram de lado o espanto
Sofreram e viram tanto
Que o seu momento esperam
No recanto onde se albergam
A morte não temem, esperam!
PARIS

Autor: Nilton Bustamante

trad.p/ francês, Maria Petronilho



Eu que nunca fui a Paris, tenho saudades.
Moi, que ne suis jamais allé à Paris, j’en ai de la nostalgie.

Eu que nunca beijei seus lábios, tenho saudades.
Moi, que n’ai jamais embrassé ses lévres, j’en ai de la nostalgie.
Eu que nunca soube das cores de seu mundo, tenho
Moi, que n’ai pas connu les couleurs de son mond, j’en ai de la nostalgie.
saudades.


Juro que te vi, andamos pelas mesmas alamedas,
Je jure que je t’ai vu, nous nous sommes promenés par les mêmes boulevards,
Sentamo-nos nos mesmos cafés, junto aos poetas.
Nous nous somes assis même aux cafés, parmi les poétes.
Dias ensolarados, o nada prazeroso para fazer...
Des jours ensoleillés, le plaisir de laisser faire laisser passer…


O corpo pedindo,
Le corps demandant
Os olhos vendo através dos pensamentos,
Les yeus voyant tranvers la pensée
A vontade de ser feliz, Paris, Paris...
La volonté d’être heureux, Paris, Paris…


Vem pra mim, eu que nunca fui a Paris,
Viens à moi, que je ne suis jamais allé á Paris,
Vem pra mim, eu que sempre te quis.
Viens à moi, parce que je t’ai aimé toujours.
Paris, Paris, meu estado de espírito.
Paris, Paris, mon état d’esprit.


Nas Tuas entrego a minha angústia e a minha paz
Nas Tuas mãos nascem as noites e as manhãs
Nas Tuas mãos se levantam os ventos e se acalmam tempestades

A Ti o princípio e o fim e o reverso.

Infinito ciclo

Tu és Tudo!

Faço-me ânsia!
Minhas centelhas
Tomam formas
Percorrem distâncias
envolvem-te alucinadas

Divago no céu,
Em demandas
Os olhos acesos
De urgências.
As mãos implorando
As tuas

Entranho-me em teus sonhos
E sussurro aos teu ouvidos
Cânticos infinitos, pois

Nasci entre os astros
E venho tomar-te nos braços
Para cingidos subirmos
À luz onde pertencemos

E meu amor que não vem!


A imersão balsâmica
De alfazema e de rosa
Há tanto te aguarda!
Criei afrodisíacos aromas
Para refazer-nos à ceia

Alongam-se meus olhos
Na estrada vazia
Inflamo-me sonhadora
Antecipando a centelha
De teu corpo que ao rasar-me
Chispa minha rubra brasa
E me leva incendiada
Numa ânsia indefinida
De onde assomo renascida

Aonde estás, que te detém?
Escuta bramir o silêncio
Segue-o e vem!

Despe-me das sedas diáfanas
Que aprisionam a ninfa ansiosa
Pelo golpe da tua asa
Afim de achar-se libertada

Tudo se aquieta na tarde calma
O sol declina levando a esperança
De retirar-me contigo
Em arrebatador desvario
E anoitecer nos teus braços
Em langorosa bonança....
CÁLIZ INGRATO
Cálice ingrato
Autor Alberto Peyrano; trad p/ português Maria Petronilho


Y se hace vieja la calle...
Já se faz velha a rua....
Tan vieja y agobiada,
Tão velha e angustiada
depositada en esos ojos nuevos
confiada nesses olhos novos
que nacieron en un país que duerme ,
que nasceram num país que dorme,
donde la mañana sólo sirve para nada...
onde a manhã para nada serve....


Existe un árbol donde un pájaro
Existe uma árvore onde um pássaro
renunció a su canto cierta noche,
renunciou a seu canto certa noite,
y le contó al poeta
e confidenciou ao poeta
la negra pesadilla que observó
a negra inquietação que percebeu
bajo sus ramas,
sob as suas ramas
tal vez para llorar con él
talvez para chorar com ele
o para buscar apoyo
ou para buscar apoio
en los gritos del verso
nos gritos do verso
que la angustia inspira,
que a angústia inspira
con la esperanza anticipada y casi vana
com a esperança antecipada e quase vã
de un poeta escuchado y atendido
de um poeta escutado e acatado
en medio del vacío.
no meio do vazio.


Se le va el aliento al futuro,
Vai-se com alento no futuro
ensayando a tientas la sobrevivencia,
ensaiando às tentativas a sobrevivência

nadando entre los vómitos inéditos
nadando entre os vómitos inéditos
que son lanzados en diarios y cartones,
que são lançados em diários e panfletos
y que se tragan en el plato de comida
e que se tragam no prato de comida
que tiene gusto a rabia
que tem gosto de raiva
y a resentimiento.
E de ressentimento


Es un cáliz ingrato el que ofreces,
É um cálice ingrato o que ofereces
mi ciudad, a tus hijos y al presente,
minha cidade, aos teus filhos e ao presente
que hace pensar en un solar
que faz pensar numa linhagem
ausente
ausente
o desaparecido,
ou desaparecida
vacío de esperanzas, protección o abrigo
vazia de esperanças, protecção e abrigo
y donde no se pueden
e onde não se podem
ensayar pasos hacia el frente.

Ensaiar passos avante


Tu presente profano, ciudad,
O teu presente profano, cidade,
cachetea muy duro y sin piedad
esbofeteia com muita dureza e sem piedade
a mi futuro,
o meu futuro,
a mi no-ser que clama
o meu não-ser que clama
porque apartes este cáliz
para que afastes este cálice
donde el poema
onde o poema
quedó disuelto en lágrimas
se desfez em lágrimas
junto al pájaro inerte
junto ao pássaro inerte
que se volvió al olvido.

Que retornou para o esquecimento.



Alberto Peyrano
Buenos Aires, Abril 2004


Ah, feliz da musa, da vénus, da sereia
Que te retira da tua Ilha sombria
Onde te debruças para felicidade nossa
Mas no teu próprio desterro
Desfiando colares e colares
De versos feitos de pérolas caídas
Dos teus olhos húmidos de ânsia!
Feliz da musa, da vénus, da sereia
Que encantadoramente cantas
Queira estar em afectiva atalaia
Pois é diamantina a tua voz
Que reluz engastada e nos ilumina
As almas encolhidas no proclamado
Mas dolorido ouro do silêncio!
A Um Futuro de Ordem e Progresso

Maria Petronilho

Brasil, venho de lá do mar
Com os braços carregados de flores e de esperança,
Que é primavera, e é Abril!
Chego com o coração florido de alegria
Desde o cais das Descobertas.

Trago na alma as dores cicatrizadas
De agruras e espoliações
Dos lusitanos de antanho,
Sedentos de pedras e preciosidades
Mas disponho o coração dulcificado
Por mor de diamantes fraternos,
Que valem mais do que pesam
Não se vendem nem compram,
Crescem com a seiva que emana
Da nossa compreensão

Quinhentos e quatro anos de luta
São cansativos mesmo para um jovem
Que contém no seu âmago a força
De todas as cores entrelaçadas
Em sorrisos profusos como as folhas dos mangais

Sobre rios de águas povoadas de golfinhos brancos
E de sucuris e de piranhas no aguardo,
Mudando de nome conforme os tempos vão mudando
E os senhores dos impérios que todos servimos
Pois nem todo o sangue e suor do esforço colectivo
Chegam para saciar-lhes a fome de manter-nos angustiados.

Continuam armando arapucas sem fim
Nessas terras infindáveis onde a morte
Marca passo nas ruas onde o samba escamba no eterno carnaval
Os esquadrões da morte andam armados de agulhas
E o império continua dividindo as riquezas
Deixando os teus filhos nos labirintos das favelas
Suspensas em ladeiras tão altas
Para onde mais fácil é subir do que descer

Quinhentos e quatro anos de labor contra a cobiça
Na fome feita de abastança roubada
É tarefa só possível aos grandes heróis
Aos homens sem terra no maior país do mundo

Que breve surja o dia, pátria dos meus irmãos
Em que os senhores do costume desçam dos capitéis de ouro
E seja possível à sonhadora da barra do Tejo
Seguir enfim o rumo aberto em luminosidades azuis
Para ir ter contigo... sinal que a riqueza do mundo
A deixou enfim fretar um banco na classe económica
Aonde transporte os ossos calcinados e os olhos deslumbrados
De uma vida inteira de abnegação
Por um pequeno país em decréscimo de tudo
Menos de arrogância e de hipocrisia de um poder fictício

Peço a Deus a honra de abraçar em glória
O Brasil que mais merece do que tem:
Sereno bem estar, em Ordem e Progresso.

segunda-feira, abril 05, 2004

Noite de Fado




Cantaram a Tágide e o Tejo

Turbulentos, agitados

No ímpeto de seus abraços



Na noite escutei murmúrios

E no mar todos os búzios

Ressoaram os seus cantos



Soavam suspiros tantos

Ternos risos abafados

E gemidos tresloucados



O Tejo adormeceu tremendo

Ela alquebrada em seus braços

Tranquilos, de amar cansados





De amar







Quando me quiseres amar

Finge-te louco de amor

E deixa-me extravasar

Em teu rio minha sede



Quando me deixares ter-te

Dá-me inteira liberdade

De ser terna, que é tarde

E tanto anseio beber-te



Ensaia um dueto comigo

Sê meu rei e meu castigo

Sê o meu senhor e escravo



Possui-me como se louco

E saneia o desconcerto

Do tempo desperdiçado



Teus Beijos









Pairam tão longe, teus beijos!

Mal os avisto, são estrelas!

Desejo havê-las cadentes

Afim de poder bebê-las.



Se poisam, são como chispas

São meigos lumes, centelhas

Percorrem-me como raios

E de tremor me incendeias.



Vesti-me de azul esperando

Fundir-me no céu e as estrelas

Sonegar-te, às escondidas



... Em vão! É Inverno, perdi-as.

Estavam todas cerradas

Em pardos véus de neblinas.











Flauta doce







Ah a cana

Do cabo

De engenho

Flauta doce

Que embebeda

Quanto toca

E dedilha

A minha

Suave lira!





Que inquietação é esta?!









Dentro de mim

Uma ausência

Clama alto

Chora e grita



Por que implora?



Envolve-me

Sempre e ainda

A paz que foi construída

Por minhas mãos

Persistência



Mas em mim grita

A ausência!

Uma ausência

Que não tinha

Que de surpresa

Me apanha

E de súbito

Aguilhoa



Que inquietação

É esta

Que transforma

A minha calma

Que mói fundo

A minha alma?!

"BARULHO
Ferreira Gullard

Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura."

***

DE AMAR O AMOR


todo o poema
é feito de alma

na tela
na torre que se ergue ao céu
na figura descoberta
tirado o excesso de pedra
de madeira
que a escondia

todo o poema é voz
que vivia
escondida
e se lança
irreprimível
solta canta canta e voa

da mão da voz


poeta sofredor

sê o instrumento
da poesia
flama!


Maria Petronilho
E NÃO VENHAS PEDIR-ME
QUE NÃO TE FALE DE AMOR


Não te quero triste
Nem me quero triste
A voz do amor solta se ergue
O meu sonho te procura e segue
Certo no tempo incerto
Incessantemente ao teu encontro.


Volta vazio de teu olhar
Saudoso do teu sorriso
Do teu cheiro no meu cabelo solto
Derramado no teu peito
Ah, como é leve e inevitável seguir este fio!
Como todos os caminhos da ternura
Vão do meu para o teu coração!


Meus ouvidos enlevados
Repetem a tua voz sem conta
Mas todos os meus poros
Anseiam pelos teus dedos
E a minha boca perdeu o dom de sorrir
Pela tua inquieta....






"Mar reflexo"



.....MAR...
AGITAÇÃO E ANINHO
QUE NO SANGUE TRAGO,

ESPELHO INFINITO



DE NOSSO MOMENTO,
O FRÁGIL EQUILÍBRIO!


Mulher de Corpo e Alma




para que solte a fêmea
que me habita e que procura
contigo em ti
primavera,


Não me queiras nua
toma-me absoluta
tua
inteira solta
inquieta
pensadora
criança
que ri e que chora
que ama


mulher de corpo e alma



O BEIJO/EL BESO




SONHO
SE DILUINDO
NO AR
PERFUME DE ALFAZEMA
POEMA
QUE NEM SEI CANTAR

NUVEM QUE QUE ESVAI
MOMENTO NO TEMPO

CARÍCIA
QUE PERPASSA
E SEGUE TÃO LEVE
DEIXANDO PESADA
SÓ MINHA A
SAUDADE


***

EL BESO


SUEÑO
SE DILUYÉNDOSE
EN EL AIRE
PERFUME DE AZUCENA
POEMA
QUE NADIE SABE CANTAR

MOMENTO EN EL TIEMPO

CARICIA
QUE SOBREPASA
Y DIGUE TAN LEVE
DEJANDO PESADA
SOLO MÍA LA
SOLEDAD






EL BESO - Autoria- Maria Petronilho - Portugal-m.petronilho@netcabo.pt -
Traducción para el español - Betty - Argentina - betinahg@yahoo.com.ar

andar como se tivesse





andar ao relento no tempo

como se tempo tivesse

para perder se do tempo



como se algo existisse

se algo ou alguém houvesse


que os amigos separasse
como se o tempo fosse



inexorável



àquele no vai no vento

sem derivar

se alhear ...

qual sombra do meio dia

presente se bem



pequena!



ai ....

a saudade refresca

ao voltar

o ser

a seu ninho retorna

cuidando bem dada a volta



se fica

de posse da vida


SE A SAUDADE
NÃO MATASSE
TALVEZ EU
NÃO TE
DISSESSE
AS SAUDADES
QUE PLANTASTE
AS SAUDADES
QUE DEIXASTE
AS SAUDADES
QUE FIZESTE!

Tempo de Amar


o tempo que
antes
o tempo
anuncia
é benção
é primavera
risonha amizde que fica
dentro do peito acolhida
como a folhinha enrolada
no escuro gomo escondida

plantemos amor carinho
com suave atenção
aos males
alheios
e aos
nossos

sigamos de mão na mão


como que voz nós poderemos
a poesia cantar
se entre nós não soubermermos
esse verbo conjugar?!

Vamos juntos contra o Nada



Raízes se nos entrelaçam

Sorvemos a mesma seiva

Como papoilas fraternas

A rir em trigais infinitos



Vamos juntos contra o Nada

Cansados de indiferença

Olhando na mesma senda

Sentindo com a mesma alma



Sentindo a dor primeira

Como havemos de sentir

A última dor de sermos

Trilhados por vãos motivos



Vamos juntos contra o Nada



Pois prometem-nos a queda

No imensurável abismo

Em busca da vã riqueza

que de nada pode e serve

Se nada produz nem cria




"Cachopa da Beira Rio"


Cachopa da beira rio
dei meu coração ao mar
sou filha da foz do Tejo
passo a vida a navegar
meu coração um veleiro
com velas de ir e voltar
peregrenino companheiro
está partido e a chorar
de si só guardo metade
onde a outra irei buscar?
num paraíso distante
Vera Cruz, hei-de chegar!
cachopa da beira rio
com saudades de abalar
e encontrar essa metade
que tanto choro a cantar
meu fado é esta tristeza
quando te irei encontrar?
... só perto do meu olhar!

CADA VEZ MAIS


TE VEJO MAR, TE SINTO MAR!
SOU DE NOVO A MENINA ABSORTA
CAMINHANDO HORAS ESQUECIDA> DE SI-MESMA, QUE SONHAVA...

...jÁ QUASE SE FOI, A PRAIA!

MAS VIVE AINDA A MENINA
TEMEROSA E FASCINADA,
OLHAR ALÉM - TÃO PERDIDA
DE SI-MESMA, QUE SONHAVA...

SOL VIBRANTE NO MEU ROSTO
CABELOS SOLTOS NO VENTO
FASCÍNO
TERNURA
MEDO!
FECHO OS OLHOS



E VEJO MAR, E SINTO MAR...
SALGADO-DOCE
ASSUSTADORA ATRACÇÃO
QUE NOS AFOGA NUM SORRISO

SENDO PULSANTE VIDA

PROFUNDA TRANSPARÊNCIA
REFLEXO DO CÉU
FRÉMITO
ESCURO-SORRISO

PRINCÍPIO E FIM

CALMARIA E ABISMO
FONTE DO SONHO
NOITE-MANHÃ!
Onde Estás?





Onde estás, que há tempo
que venho te procurando
nas estradas enluaradas;
nos raios de sol filtrados
por entre galhos em flor?
onde estás tu, que eu tanto
venho em vão te procurando;
no pólen que ainda resta;
na flor dourada da giesta
que atapeta a montanha?
onde estás,




que não te encontro,
e há tanto tempo percorro
todas as praias e grutas
em nenhuma te achando;
onde estarás Tu? Eu venho
nesses mares navegando
em nenhum deles te vendo,
procurando-te divago...
contando estrelas me perco
buscando o teu amor!


O oleiro que eu sonho




Vou ainda na esperança
de que um dia
o oleiro que eu sonho
penetre a espiral
onde voo
temendo
perder equilíbrio.

Imagino
que suas mãos
de amor me tomem
e com fervor me recolham
Inteira e leve,
qual ave solta
em feliz em gorjeio

com zelo e carinho
me acolha no ninho
do seu coração!