CONSCIÊNCIA DE MIM
Os objectos,
todos os objectos,
são meros brinquedos
para me distrair
da alma,
para me abster de senti-la
a toda a hora
esforçada
a doer.
Porque dói tanto a alma?
E brinco com as coisas
que os outros acham sérias
tolas
meras coisas efémeras
praserezinhos
guloseimas emocionais.
Para mitigar a dor que mais que mais dói,
eu brinco de administrar a casa
de cuidar da roupa
de enfeitar paredes
de jardinar os móveis
de dispersar jóias
e que se lixem as coisas!
Eu quero é matar a dor
da alma. A alma lhe chamo
porque não sei
que nome tenho!
Olham e acham que não penso
que não meço
que disperdiço...
Lérias!
Quadros, roupas, casas, fazendas,
são coisas.
E as coisas são objectos.
E os objectos brinquedos.
Não consigo envelhecer
e nunca no vida tive
brinquedos a sério,
como os outros.
Mas muitos, muitíssimos
brinquedos inventados.
Há os seres, claro,
mas esses...
são dos meus olhos os lagos
espelhos
onde espalho
meus brancos diamantes
do incntível amor.
Rebentaria de mim
se não pudesse acarinhar algo que
me reconhece
e me afirma diáriamente
que estou viva.
A única brincadeira
que brinco a sério
é escrever
para me libertar de mim.
Mas se o não calo mais,
como calei,
vejo no olhar dos outros
que é feio
falar-se disso
mostrar-se isso
como dantes
não se falava de sexo
nem de como nascemos
e nos era obstinadamente exposto
como morremos!
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
era uma dúvida
que bailava no espaço em branco
como bola de sabão no vento
como bola de sabão não tinha peso,
não tinha dimensão,
nem espaço
... nem devia durar tanto
mas há corações
tão desequilibrados
que até uma bola de sabão
os faz tremer, duvidar, coitados!
há corações tão solitários
(solidários)
e tão ignorantes
na sua solidão!
que viajaram aos trancos
por tantos caminhos adversos
parece que rolam em vão,
crentes
caem na vida
vão continuar
solitários
a rolar
vão continuar
carregados de dúvida
de amor, de apelo
se bem saibam de antemão
que todo o apelo é vago, vazio, doloroso
porque quando apelam
lhes respondem, os outros, os que se amam
não!
coração em sangue-vivo
sempre à disposição!
que bailava no espaço em branco
como bola de sabão no vento
como bola de sabão não tinha peso,
não tinha dimensão,
nem espaço
... nem devia durar tanto
mas há corações
tão desequilibrados
que até uma bola de sabão
os faz tremer, duvidar, coitados!
há corações tão solitários
(solidários)
e tão ignorantes
na sua solidão!
que viajaram aos trancos
por tantos caminhos adversos
parece que rolam em vão,
crentes
caem na vida
vão continuar
solitários
a rolar
vão continuar
carregados de dúvida
de amor, de apelo
se bem saibam de antemão
que todo o apelo é vago, vazio, doloroso
porque quando apelam
lhes respondem, os outros, os que se amam
não!
coração em sangue-vivo
sempre à disposição!
filhos do universo
o luar
é uma sombra
que não pousa
é uma poalha luminosa
que paira
que encanta
e passa
as estrelas
são os olhos do céu
anjos da gurda
gurdando
o vasio
brilham
rebrilham
sonhando
a nós
pertece-nos a terra
não para esventrá-la
violentar sua beleza
mas para amá-la
reparti-la
mantê-la
além de nós
tenho um coração que ama
tenho um cérebro que pensa
assim como eu
sois vós
porque é que
todo o mundo
vê a desvairada
injustiça da vida
e se cala
porque é que
tanto se reclama
mas não se faz nada
porque é que
se continua o caminho
por esta precária
desastrada estrada?!
Maria Petronilho
2/11/2002
o luar
é uma sombra
que não pousa
é uma poalha luminosa
que paira
que encanta
e passa
as estrelas
são os olhos do céu
anjos da gurda
gurdando
o vasio
brilham
rebrilham
sonhando
a nós
pertece-nos a terra
não para esventrá-la
violentar sua beleza
mas para amá-la
reparti-la
mantê-la
além de nós
tenho um coração que ama
tenho um cérebro que pensa
assim como eu
sois vós
porque é que
todo o mundo
vê a desvairada
injustiça da vida
e se cala
porque é que
tanto se reclama
mas não se faz nada
porque é que
se continua o caminho
por esta precária
desastrada estrada?!
Maria Petronilho
2/11/2002
vida que me sobra
Cumpri demais do que pude
acendi
apaguei fogos
lutei
queimando os braços
ganhei p'lo que fiz e faço
a paga do desamparo
suportei todas as dores
e ignorei os prazeres
...
os loucos e os pobres
deixam-se ficar
especados á porta
na esperança desesperada
de uma esmola
...
enfim,
o nada me valha!
não mais necessária,
poeira ignorada
na estrada que se pisa,
basto-me a mim mesma
em fome,
ignorância
do nada retiro a força
para caminhar ainda
que me resta?!
a loucura da escrita
inqualificada?
ser mulher ser
me supera,
paixão ignorada!
perdem-se os olhares
alheios ao que
no a dia a dia passa
que faço na terra
com o resto da vida
que me sobra?
não acredito
na ditosa vida
de martirizada
masoquista
já que sofri toda a vida
que lute e que morra
por uma causa
justa!
Cumpri demais do que pude
acendi
apaguei fogos
lutei
queimando os braços
ganhei p'lo que fiz e faço
a paga do desamparo
suportei todas as dores
e ignorei os prazeres
...
os loucos e os pobres
deixam-se ficar
especados á porta
na esperança desesperada
de uma esmola
...
enfim,
o nada me valha!
não mais necessária,
poeira ignorada
na estrada que se pisa,
basto-me a mim mesma
em fome,
ignorância
do nada retiro a força
para caminhar ainda
que me resta?!
a loucura da escrita
inqualificada?
ser mulher ser
me supera,
paixão ignorada!
perdem-se os olhares
alheios ao que
no a dia a dia passa
que faço na terra
com o resto da vida
que me sobra?
não acredito
na ditosa vida
de martirizada
masoquista
já que sofri toda a vida
que lute e que morra
por uma causa
justa!
canto baixinho
NA GRUTA DA SOLIDÃO
EU CANTO BAIXINHO.
ESTALACTITES DE SAL
ME CAEM DOS OLHOS
MAS EU ESTOU CANTANDO
BAIXINHO
ECOA O SILÊNCIO
NO IMENSO NADA
QUE ME CIRCUNDA.
BATAM-ME OS DENTES DE FRIO.
MAS ESTOU CANTANDO BAIXINHO
TEMO QUE ACORDEM
AQUELES QUE NÃO CANTAM
E VENHAM ZURRANDO
FAZER-ME COMPANHIA!
NA GRUTA DA SOLIDÃO
EU CANTO BAIXINHO.
ESTALACTITES DE SAL
ME CAEM DOS OLHOS
MAS EU ESTOU CANTANDO
BAIXINHO
ECOA O SILÊNCIO
NO IMENSO NADA
QUE ME CIRCUNDA.
BATAM-ME OS DENTES DE FRIO.
MAS ESTOU CANTANDO BAIXINHO
TEMO QUE ACORDEM
AQUELES QUE NÃO CANTAM
E VENHAM ZURRANDO
FAZER-ME COMPANHIA!
tinha tantos sonhos
no cais de meus dias
implorando ao vento
por asas e velas!
Tinha tantas e belas
incontidas esperanças
ao vento lançadas!
tinha tantas rosas
coloridas, tantas,
mas tão espinhosas!
cantava diários
colares de lágimas
e eram tão sentidas!
tinha portas fechadas
e as chaves perdidas...
no cais de meus dias
implorando ao vento
por asas e velas!
Tinha tantas e belas
incontidas esperanças
ao vento lançadas!
tinha tantas rosas
coloridas, tantas,
mas tão espinhosas!
cantava diários
colares de lágimas
e eram tão sentidas!
tinha portas fechadas
e as chaves perdidas...
terça-feira, fevereiro 03, 2004
sem outra ventura
Entender
ouvir o não dito
perceber e aceitar
o oculto
humilhar-se e engrandecer
se dar e se confiar
abrir todo o coração
aos que só mostram janelas
chaves de segredo
que ora abrem ora não
corações de labirintos
a dizer-nos que o não são.
ver mais altos os contos
que as contas.
esconder o altruísmo
carecer e dizer não
fechar os olhos
deixar-se ver
e parecer cego.
Ser rosa
que no vento se desfolha
semente
perdida na terra
dura de pedra
a florir ternura
sem outra ventura que esta
ser tida por louca
a poeta!
Entender
ouvir o não dito
perceber e aceitar
o oculto
humilhar-se e engrandecer
se dar e se confiar
abrir todo o coração
aos que só mostram janelas
chaves de segredo
que ora abrem ora não
corações de labirintos
a dizer-nos que o não são.
ver mais altos os contos
que as contas.
esconder o altruísmo
carecer e dizer não
fechar os olhos
deixar-se ver
e parecer cego.
Ser rosa
que no vento se desfolha
semente
perdida na terra
dura de pedra
a florir ternura
sem outra ventura que esta
ser tida por louca
a poeta!
Hei-de Cantar!
Quero que a canção
permaneça
em meu coração
em meu verso
em meu tormento
minha desolação.
Quero que a canção
não estanque
seja para sempre
artéria a brilhar
escarlate
até que meu ser se esgote
Hei-de cantar!
ai, vou cantar!
Digam que não posso
nem devo,
deixai-os dizer!
desobedecendo fui e irei!
Hei-de continuar
cantando!!!!
Quero que a canção
permaneça
em meu coração
em meu verso
em meu tormento
minha desolação.
Quero que a canção
não estanque
seja para sempre
artéria a brilhar
escarlate
até que meu ser se esgote
Hei-de cantar!
ai, vou cantar!
Digam que não posso
nem devo,
deixai-os dizer!
desobedecendo fui e irei!
Hei-de continuar
cantando!!!!
O ECO
O RESSOAR DISTANTE
ME CHEGA DE LONGE.
O NÃO-ESTAR
ESTANDO
O NÃO-SER
SENDO
EM VÃO GRITO
EM VÃO MORRO
EM VÃO FICO
NUM MUNDO TÃO ERMO
QUE EU-SÓ HABITO.
DIZEM SIM
NEGANDO
DIZEM O DITO
POR NÃO DITO
NÃO JOGO!
NÃO ACREDITO
NO AMAR-FEITO.
TENHO AS MÃOS
ATADAS
CONTRA O PEITO
DE OLHOS RASOS
VERMELHAS BRASAS
A LUZIR NO ROSTO.
O CARRASCO CHEGA
E EU À ESPERA:
DE PÉ!
NO MEU POSTO!
O RESSOAR DISTANTE
ME CHEGA DE LONGE.
O NÃO-ESTAR
ESTANDO
O NÃO-SER
SENDO
EM VÃO GRITO
EM VÃO MORRO
EM VÃO FICO
NUM MUNDO TÃO ERMO
QUE EU-SÓ HABITO.
DIZEM SIM
NEGANDO
DIZEM O DITO
POR NÃO DITO
NÃO JOGO!
NÃO ACREDITO
NO AMAR-FEITO.
TENHO AS MÃOS
ATADAS
CONTRA O PEITO
DE OLHOS RASOS
VERMELHAS BRASAS
A LUZIR NO ROSTO.
O CARRASCO CHEGA
E EU À ESPERA:
DE PÉ!
NO MEU POSTO!
MÃOS-DADAS
A
TEU OLHAR
QUE VAI
MERGULHADO
NESSA LUZ
AR SOL
RISO
E
CHORO
O
CULTO
NO ETÉREO
BRILHO
VAGO SILÊNCIO
O SILÊNCIO
HABITO
NADA SOA
SÓ MEU
CALADO
GRITO
O AZUL
NOS OLHOS LEVO
TÃO LONGE
LÁ
ONDE
SÓ
O INFINITO!
LANÇO MINH' ALMA
NUM ESFORÇO
DE
IMENSO TUDO
EXPONHO
ME
NA
LONGA
ESTRADA
POR ONDE
DESAGUA
A
VAGA SINUOSA
O POSSÍVEL
TUDO
SEM ROSTO
O SER
NINGUÉM
O
DETENHA
CORRE CORRE
VEIA
NA VIDA
AUTOMÁTICA
QUEM VERÁ
A MÃO ESTENDIDA
CARECIDA
DE TERNURA
MAS TÃO SÓ
QUE
NADA LEVA
TÃO SÓ
ALMA
ABERTA
SEDE
DESAFIADA
EM
ROSÁRIOS
MOINHOS
DESEJOS
DE
TERNURA?
A
TEU OLHAR
QUE VAI
MERGULHADO
NESSA LUZ
AR SOL
RISO
E
CHORO
O
CULTO
NO ETÉREO
BRILHO
VAGO SILÊNCIO
O SILÊNCIO
HABITO
NADA SOA
SÓ MEU
CALADO
GRITO
O AZUL
NOS OLHOS LEVO
TÃO LONGE
LÁ
ONDE
SÓ
O INFINITO!
LANÇO MINH' ALMA
NUM ESFORÇO
DE
IMENSO TUDO
EXPONHO
ME
NA
LONGA
ESTRADA
POR ONDE
DESAGUA
A
VAGA SINUOSA
O POSSÍVEL
TUDO
SEM ROSTO
O SER
NINGUÉM
O
DETENHA
CORRE CORRE
VEIA
NA VIDA
AUTOMÁTICA
QUEM VERÁ
A MÃO ESTENDIDA
CARECIDA
DE TERNURA
MAS TÃO SÓ
QUE
NADA LEVA
TÃO SÓ
ALMA
ABERTA
SEDE
DESAFIADA
EM
ROSÁRIOS
MOINHOS
DESEJOS
DE
TERNURA?
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