quarta-feira, fevereiro 04, 2004

CONSCIÊNCIA DE MIM


Os objectos,
todos os objectos,
são meros brinquedos
para me distrair
da alma,
para me abster de senti-la
a toda a hora
esforçada
a doer.

Porque dói tanto a alma?

E brinco com as coisas
que os outros acham sérias
tolas
meras coisas efémeras
praserezinhos
guloseimas emocionais.

Para mitigar a dor que mais que mais dói,

eu brinco de administrar a casa
de cuidar da roupa
de enfeitar paredes
de jardinar os móveis
de dispersar jóias
e que se lixem as coisas!

Eu quero é matar a dor


da alma. A alma lhe chamo
porque não sei
que nome tenho!

Olham e acham que não penso
que não meço
que disperdiço...
Lérias!

Quadros, roupas, casas, fazendas,
são coisas.
E as coisas são objectos.
E os objectos brinquedos.

Não consigo envelhecer
e nunca no vida tive
brinquedos a sério,
como os outros.
Mas muitos, muitíssimos
brinquedos inventados.

Há os seres, claro,
mas esses...
são dos meus olhos os lagos
espelhos
onde espalho
meus brancos diamantes
do incntível amor.

Rebentaria de mim
se não pudesse acarinhar algo que
me reconhece
e me afirma diáriamente
que estou viva.

A única brincadeira
que brinco a sério
é escrever
para me libertar de mim.
Mas se o não calo mais,
como calei,
vejo no olhar dos outros
que é feio
falar-se disso
mostrar-se isso
como dantes
não se falava de sexo
nem de como nascemos
e nos era obstinadamente exposto
como morremos!

era uma dúvida

que bailava no espaço em branco

como bola de sabão no vento

como bola de sabão não tinha peso,

não tinha dimensão,

nem espaço



... nem devia durar tanto



mas há corações

tão desequilibrados

que até uma bola de sabão

os faz tremer, duvidar, coitados!



há corações tão solitários

(solidários)

e tão ignorantes

na sua solidão!



que viajaram aos trancos

por tantos caminhos adversos

parece que rolam em vão,

crentes

caem na vida

vão continuar

solitários

a rolar

vão continuar

carregados de dúvida

de amor, de apelo

se bem saibam de antemão

que todo o apelo é vago, vazio, doloroso

porque quando apelam

lhes respondem, os outros, os que se amam

não!



coração em sangue-vivo

sempre à disposição!


Imagina um Jardim











Dentro de mim
Desabrocha
Uma-flor-de-amor
Oferecendo
Suas pétalas
Orvalhadas
No ignoto
Infinito
Pleno
De ausências
É tal a beleza
Que me alimenta
Como á orquídea
Que sobrevive
Lançando
No nada
Suas raízes
Suspensas!

O circulo do ar

me rodeia



só o ar

me abraça



nem sequer há sol

nem sequer há lua



só o ar

me rodeia



como quero rir

vou só, no ar!



mas o ar

é circular

ora me leva

ora me trás

ora me deixa

suspensa

e vaga



bolha

transparente

irisada

suspensa

no nada



filhos do universo


o luar
é uma sombra
que não pousa
é uma poalha luminosa
que paira
que encanta
e passa

as estrelas
são os olhos do céu
anjos da gurda
gurdando
o vasio
brilham
rebrilham
sonhando

a nós
pertece-nos a terra
não para esventrá-la
violentar sua beleza
mas para amá-la
reparti-la
mantê-la
além de nós

tenho um coração que ama
tenho um cérebro que pensa

assim como eu
sois vós

porque é que
todo o mundo
vê a desvairada
injustiça da vida
e se cala
porque é que
tanto se reclama
mas não se faz nada
porque é que
se continua o caminho
por esta precária
desastrada estrada?!


Maria Petronilho
2/11/2002


vida que me sobra


Cumpri demais do que pude
acendi
apaguei fogos
lutei
queimando os braços
ganhei p'lo que fiz e faço
a paga do desamparo

suportei todas as dores
e ignorei os prazeres
...
os loucos e os pobres
deixam-se ficar
especados á porta
na esperança desesperada
de uma esmola
...
enfim,
o nada me valha!

não mais necessária,
poeira ignorada
na estrada que se pisa,
basto-me a mim mesma
em fome,
ignorância

do nada retiro a força
para caminhar ainda

que me resta?!
a loucura da escrita
inqualificada?

ser mulher ser
me supera,
paixão ignorada!

perdem-se os olhares
alheios ao que
no a dia a dia passa


que faço na terra
com o resto da vida
que me sobra?

não acredito
na ditosa vida
de martirizada
masoquista

já que sofri toda a vida
que lute e que morra
por uma causa
justa!
canto baixinho

NA GRUTA DA SOLIDÃO
EU CANTO BAIXINHO.
ESTALACTITES DE SAL
ME CAEM DOS OLHOS
MAS EU ESTOU CANTANDO
BAIXINHO
ECOA O SILÊNCIO
NO IMENSO NADA
QUE ME CIRCUNDA.
BATAM-ME OS DENTES DE FRIO.
MAS ESTOU CANTANDO BAIXINHO


TEMO QUE ACORDEM
AQUELES QUE NÃO CANTAM
E VENHAM ZURRANDO
FAZER-ME COMPANHIA!
Decerto te lembras
do verde no azul...
e quando passavas
as inquietas folhas
agitavam brisas
levavam poemas
tantas fantasias!

... e ele suspirava,
tu é que o não vias
tinha tantos sonhos

no cais de meus dias
implorando ao vento
por asas e velas!

Tinha tantas e belas
incontidas esperanças
ao vento lançadas!

tinha tantas rosas
coloridas, tantas,
mas tão espinhosas!

cantava diários
colares de lágimas
e eram tão sentidas!

tinha portas fechadas
e as chaves perdidas...

Contigo o tempo







Como um raio de luz


Se detém o tempo
Ou então esvoaça

Pairando, tremendo
num lago tranquilo

Brilha minha alma
quando estou contigo











Saudades do sol, da brisa

Em que se brinda a saúde

a saudade, o bem estar

numa esplanada serena

a escrever à beira-mar...

É por isso que as letras

vão caindo uma a uma

na fímbria do meu regaço

e se desfazem em espuma!

terça-feira, fevereiro 03, 2004

O POETA



O POETA
TEM A ALMA NUA
LANÇA-A EM VERSOS
NO VENTO
RECLAMAM-NA
COMO SUA
DE VIDRO É
O SEU PENSAMENTO
PERTENCE A TODOS
E NO ENTANTO
O POETA
VIVE CANTANDO
O AMOR
NA SOLIDÃO!

Dentes de ouro









eu sou tu és

ao invés

de

ele tem tu tens



sorriem
caveiras
vivas
costelas
barrigas
inchadas
crianças
sem

pão
carinho
futuro
esperança
de vida
digna

brilha
decrépita
a
figura
da
suma
indecência
camuflada
que
arrota
abundância

e viva
o consumo


que presta
o ouro
na miséria
que
nos toca?!
Estar e Ser


de onde vêm
as palavras
que lanço no ar
e te digo?
de onde vem
a ternura
que tirar do mal
consigo?
de onde vem
a coragem
de traçar
o meu destino?
de onde vem
a esperança
que ilumina
o meu caminho?
de onde vem
esta força
que me guia
e partilho?


de onde vêm?
para onde vão?
onde fico?


Castigo



se sofro
por cada sonho
perdido
é porque por ele
dei tudo
voo sem fim
nem fundo
minh'asa de imensidão
alcança o infinito!
É um longo olhar
um grito
será talvez perdição
mas sonhar é meu destino
vida mesquinha,
castigo,
saio dela
digo
não!
sem outra ventura


Entender
ouvir o não dito
perceber e aceitar
o oculto
humilhar-se e engrandecer
se dar e se confiar
abrir todo o coração
aos que só mostram janelas
chaves de segredo
que ora abrem ora não
corações de labirintos
a dizer-nos que o não são.

ver mais altos os contos
que as contas.
esconder o altruísmo
carecer e dizer não
fechar os olhos
deixar-se ver
e parecer cego.

Ser rosa
que no vento se desfolha
semente
perdida na terra
dura de pedra

a florir ternura
sem outra ventura que esta
ser tida por louca
a poeta!

a tarde













esconde-se o sol
minhas pálpebras
ansiosoas de luz
procuram
esconder de ti
o orvalho

as últimas rosas
renascidas na manhã
que me deste

Mas ai a brisa
que me mostraste
indiferente
levas

num instante
cai a noite

nas tuas costas
douradas





Hei-de Cantar!


Quero que a canção
permaneça
em meu coração
em meu verso
em meu tormento
minha desolação.
Quero que a canção
não estanque
seja para sempre
artéria a brilhar
escarlate
até que meu ser se esgote

Hei-de cantar!
ai, vou cantar!
Digam que não posso
nem devo,
deixai-os dizer!
desobedecendo fui e irei!
Hei-de continuar
cantando!!!!


O ECO
O RESSOAR DISTANTE
ME CHEGA DE LONGE.


O NÃO-ESTAR
ESTANDO
O NÃO-SER
SENDO


EM VÃO GRITO
EM VÃO MORRO
EM VÃO FICO
NUM MUNDO TÃO ERMO
QUE EU-SÓ HABITO.


DIZEM SIM
NEGANDO
DIZEM O DITO
POR NÃO DITO


NÃO JOGO!
NÃO ACREDITO
NO AMAR-FEITO.


TENHO AS MÃOS
ATADAS
CONTRA O PEITO


DE OLHOS RASOS
VERMELHAS BRASAS
A LUZIR NO ROSTO.


O CARRASCO CHEGA
E EU À ESPERA:


DE PÉ!
NO MEU POSTO!

MÃOS-DADAS



A
TEU OLHAR
QUE VAI
MERGULHADO
NESSA LUZ
AR SOL
RISO
E
CHORO

O
CULTO
NO ETÉREO
BRILHO



VAGO SILÊNCIO
O SILÊNCIO
HABITO
NADA SOA
SÓ MEU
CALADO
GRITO



O AZUL
NOS OLHOS LEVO
TÃO LONGE

LÁ
ONDE
SÓ
O INFINITO!



LANÇO MINH' ALMA
NUM ESFORÇO
DE
IMENSO TUDO
EXPONHO
ME



NA
LONGA
ESTRADA
POR ONDE
DESAGUA
A
VAGA SINUOSA



O POSSÍVEL
TUDO
SEM ROSTO


O SER
NINGUÉM
O
DETENHA
CORRE CORRE
VEIA
NA VIDA
AUTOMÁTICA



QUEM VERÁ
A MÃO ESTENDIDA
CARECIDA
DE TERNURA
MAS TÃO SÓ
QUE
NADA LEVA
TÃO SÓ
ALMA
ABERTA
SEDE
DESAFIADA



EM
ROSÁRIOS
MOINHOS
DESEJOS
DE
TERNURA?