terça-feira, fevereiro 03, 2004

Nem o mar soa
nos búzios de meus dias!


sinal de quietas ondas
sinal de suaves brisas!


nada nem ninguém me chama


olha-me e vale-me,
gritam!


Gritam-me quando aflittos
os marinheiros
das marés vidas
nos dias em que não


recolhem as redes plenas
de olorosas maresias!


Que a vossa bonança dure,


Que me pendam
pequeninas e vazias
as mãos que vos estendo quando
em vossos ais, penas minhas!


Melhor sol vos trate as agonias
em


meu merecido crepúsculo
de lírios, sem ouro,
roxo entardecer calmo

repousando inocentes
minhas conchas vazias


tão fartas de repouso e sono!
Queimados em só dor meus dias!



UMA ROSA NO MEU PEITO
ABERTA E VIVA
QUE PICA MAS PROCLAMA
UM LOUVOR À ALEGRIA


UM RIO DE LAVA CORRE DELA
E ME PERCORRE EM CHAMA
ME FENDE E ME GUIA
ME FAZ SENTIR VIVA.

UMA ESTRELA SOBRE A TESTA
E ATRÁS DELA, NOVO, O DIA!


DOCE LOUCURA, A DO POETA


AH, SUSPIROS QUE O VENTO LEVA,
VOAM NA CRISTA DA ONDA!
(QUE OS LEVE O SOL, QUE OS TRAGA A LUA),
DALI, DONDE NEM BRILHAM AS CONSTELAÇÕES
PARA ONDE A TERRA É DE OUTRAS ROCHAS
E SE MOVEM NOVAS ÁGUAS!

AH, PODER DIZER O INDIZÍVEL A QUEM TUDO É PERCEPTÍVEL!

ALMA PARA ALÉM DO QUE A ALMA SENTE,
SER POETA É SER DIFERENTE!
SUSPIRAR LEVE, LOUCO, ETÍLICO!
DEIXAR FLUIR, CORRER, ATRAVESSAR O VASIO,
TÃO CHEIO DE LOUCO AMOR!

DEIXA FLUIR TEU SER DE ALMA-FLOR,
TEU TRESLOUCADO DESEJO DE AMOR!
DEIXA IR, INSINUAR, SEGREDAR, DESVENDAR...
DOCE LOUCURA A DO POETA:
SER LÚCIDO, INQUIETA ALMA!
TEMOS MARÉS




DE ÁGUA E DE SAL SOMOS FEITOS
COMO AS ONDAS


CAVALGA EM NOSSO DORSO
A DOR DO VENTO


TEMOS MARÉS, COMO O MAR


AGORA NOS ERGUEMOS
E LOGO
EM BRANDAS ESPUMAS DE SONHO
NOS DESFAZEMOS


COMO AS ONDAS


EM SONHOS QUE NÃO ESQUECEMOS!




QUANDO A RAZÃO SE TRANSCENDE
E O POETA SE ENTENDE
(NO QUE ESCREVE SE DESNUDA)
MAIS DO QUE A RAZÃO ENTENDE
O CORAÇÃO QUE SE INFLAMA

AH, HÁ TANTOS CORAÇÕES
NA TELA DO MONITOR!
TANTAS MENSAGENS DE AMOR!

CONVIDAS-ME A TRANSGREDIR:
IR NO TEU SONHO A SORRIR,


CUPIDO SEM SETA!


...QUE SE INQUIETA
EM RUBRA LUZ,
SE ILUMINA!


LONGAS QUE LONGAS GARRAS!
(GAIVOTAS ORA ROSADAS)
SOBRE O RIO SOBRE O MAR
SORRIEM... ÁGUIAS MARINHAS
- OS NAVEGANTES DE UM MAR
ONDE NÃO HÁ CORAÇÃO
NEM OLHAR
NEM EMOÇÃO
AONDE TUDO É LUZ FRIA
ONDE SE AMARFANHAM ROSAS
ONDE NÃO PAIRAM GAIVOTAS

... NEM SE HÁ-DE AFOGAR MARIA.

SOMOS PRISMAS
DE INFINITAS FACES
UMAS DESCOBERTAS
OUTRAS ESCONDIDAS...


NO FUNDO MAIS FUNDO
QUE O PRÓPRIO SER DESCONHECE
PROCURAMOS INCESSANTES A BASE...
QUANTO IMPORTANTE É O VÉRTICE!

ENTERNECIDA!


MARIA ENCANTADA
ESCUTA
E TENTA
ELEVAR A TUA ALMA!


MARIA AMA
O TEU SORRISO
E NÃO QUER PERDÊ-LO,
ESCONDIDO


MARIA VELA
E REZARIA
POR TI
SE NÃO FOSSE TER DE DEUS
UMA IDÉIA
MAIOR!


CÁ DENTRO
CREIO NELE TANTO
QUE SE FOR SUPER-HUMANO
ESCUTARÁ


QUANDO
O MEU CORAÇÃO
EM AFLIÇÃO
DESEJA O BEM
DAQUELE
CORAÇÃO

QUE AMO!



TAL COMO UM PASSARINHO
EU VOO
E COM AS ASAS ATRAVESSO
ESSE FUNDO VALE DE LÁGRIMAS
SEM PERDER DE MIM O AMOR
E SEM ME PERDER DO SONHO


TAL COMO UM PASSARINHO
TRANSPORTO
A ESPERANÇA NAS MINHAS ASAS


E VOO ALTO
E CANTO
E CANTO
PARA AFASTAR TUAS MÁGOAS



AQUI
VOU NAVEGANDO
QUIETA INQUIETA

FRÁGIL
O MEU BARCO FEITO
DE MAR E DE NEVOEIRO
EM BUSCA DE MIM FAROLEIRO
QUE LUZ NA NOITE E VIGIA

SONHANDO
MEU RUMO QUER
O INFINITO ALÉM
Ó ESTRELA

MAS NÃO MAIS QUE
NA BEIRA DA PRAIA
MENINA
PROCURO VER O QUE OLHAR
E ENTENDER QUANTO ALÉM SOA

ESCOLHER QUANTO A MARÉ TRAGA
PARA TRAGAR-ME
DESVALIDA DE DESATENTA
NA GARRA FRIA DA ONDA.


MAS AI, A SONHADORA!


ATEUS NOS DISPAMOS
DA COTA DE MALHA
DA HIPOCRISIA



DISPERSA-TE!
TRANSMUTA-TE!
EM SAL E EM ÁGUA
DISSOLVE-TE


EVAPORA TUA ESSÊNCIA


VEM MAR!
VEM MONTANHA!
VEM PROFUNDEZA!



MINHA NUVEM
TE RECOLHA
E MEU CORPO
TE ABSORVA!


....


MAS AI,
A SONHADORA
SE ETERNIZA
NA AUSÊNCIA!!!
EXANGUE!



MEIO MORTA
DE ANSEIO
POR TUA VIDA
DISTANTE
PROIBIDA
SONHADA
ANTECIPADA
PERDIDA
AUSENTE

QUE MINHA ALMA
QUE MINHA CARNE

ANSIOSA
CLAMA
FAMINTA


SENTE!



COMER-TE-IA
COMER-ME-IAS
EM LOUCURA!



MAS TUDO É SILÊNCIO!



ENTRE NÓS, O MAR!

ser...

búzio enterrado em fria areia
sonhando a tremer c'o a maré cheia
em turbilhões de frescura
e ânsia
e vida



Recolher-me em minha concha
dolorida
receando e qu'rendo o mar!!!


O meu inteiro amar o amor


todo o poema é feito de alma
na tela
na torre que se ergue ao céu
na figura descoberta
tirado o excesso de pedra
de madeira que a escondia
todo o poema é voz
que vivia escondida
e se lança irreprimível
solta canta canta e voa
da mão da voz
poeta sofredor
sê o instrumento
da poesia flama!
DE PLENAS ASAS ABERTAS,
TENTO DESVENDAR O FIO
DO LABIRINTO DA VIDA
QUE CORRO E PROCURO AINDA


LABIRINTO TORTUOSO,
DE VOLUTAS DE BÚZIO
ONDE NÃO SOA O MAR,
MAS O CHORO E O RISO.


O GRITO DE ANGÚSTIA NO PEITO.
A ESPERANÇA DESESPERADA
DE VER E DE IR MAIS ALÉM...
PORQUÊ? PARA QUÊ?
- NÃO SEI!


É UMA ÂNSIA QUE TRANBORDA
DE MIM, ULTRA CONSCIÊNCIA.
ETERNA VONTADE DE SABER.
ETERNO PERGUNTAR-ME.
QUERER DESCOBRIR.
SEDE IMENSA.


ONDE ACABARÁ A ESPIRAL
DO MEU PENAR, CONSTANTE DOR
QUE SORRI NOS MEUS LÁBIOS
E CHORA NOS MEUS OLHOS?


- DIZ-ME, ALADO EMBAIXADOR,
QUE SOBRE O LABIRINTO
DA MINHA VIDA
PLANAS?

QUERO CLARO ENTENDER
E VER E RIR
DIGAM À LUA NOVA
QUE PARTA
QUE MUDE DE QUARTO
QUE SE VÁ EMBORA.
QUERO LUAR.
QUERO VER A MINHA SOMBRA
NO PÓ DA ESTRADA.
DIGAM AO SOL QUE VENHA
E ME DEVOLVA AS CORES
DE PINTAR A VIDA
QUE EU AINDA
AMO E QUERO E VEJO
OIÇO E CALO
(O QUE DÓI TANTO)
O RIO DA VIDA
RI QUE RI
CORRE QUE CORRE


... E EU ESPERANDO!


VOU ESTAR SÓ

SÓ VOU ANDAR NA AREIA MACIA
SÓ VOU OLHAR A ÁGUA CRESPA DO MAR
SÓ VOU OLHAR AS DUNAS DOURADAS PLO SOL
OU À NOITE PRATEADAS PLO LUAR

VOU ESTAR SÓ

QUERO ESTAR SÓ
SE NÃO PUDER ESTAR CONTIGO

NUVEM
IRMÃ REDONDA
CINZENTA
FILHA BRANCA
E DOURADA
QUE DESANDA
TAPA A LUA
CHUVA
CHORA
DÁ A SEIVA
AO CHÃO SECO
QUE COPULA
MÃE DESFEITA
ABRAÇO
E ABRIGO
FICA COMIGO
NUA

PENSAVA EU, MARIA
...ENQUANTO DIVAGAVA PELO MATAGAL


MENSAGEIRA DO TEU OLHAR
QUANDO IA AONDE NÃO VAIS
PORQUE NÃO TENS VAGAR.


MAS DEIXA QUE TE DIGA
QUE É SEMPRE TEMPO DE ESPERANÇA.
DO APAIXONANTE DESCOBRIR E DESCODIFICAR.
DE LEVANTAR OS OLHOS DA MESA
PARA OLHAR


O CÉU A CHUVA A NUVEM A PASSAR


- QUE VAI TÃO DE LEVE E BREVE A VIDA....


PENSAVA EU, MARIA, ENQUANTO DIVAGAVA
PELO MATAGAL AONDE NÃO VAIS
DIZENDO NÃO TERES VAGAR PARA NADA


- QUE VAI TÃO DE LEVE E BREVE A VIDA....


E TU SEM DARES POR NADA!
Quetzal



onda que fugiu do mar
liberdade em movimento
saudade


amei o homem e o mar
fui água no areal
fui lençol estendido ao sol
fui regaço de embalar


sou a última folha na árvore


à volta o chão secou
e o ouro estende-se uniforme
ao encontro do azul.



colibri


esmeralda
embriagada
no concâvo
de uma rosa!

As lágrimas do Poeta


Confessa Poeta
que uma paixão insana
contigo nascida
te persegue
e domina
amas
a


linda princesa
senhora
nossa
tua
a


que chora e canta
poética palavra
conhece-la
onde pára?
paira!
vê!

Em que reino da memória
coabitas com ela
delirante sonho
encantado
cantas
tu

Confessa que guardas
no teu coração
a ama secreta
tua nossa
amada
que

à tua guarda, Guardião
vive a abençoada
aquela dama
dona
tua

que
cantas
cantamos
todos
nós
mas se derrama
dos teus olhos
e nem
vês
!
Abraço


Minhas asas
ferem-se nas esquinas
da indiferença.
Altos muros
abafam
meu canto.
Morreria de silêncio
não fora
ter lançado
ao mar largo
esta alma
desperta
ter ganho
um leme de esperança
que me leva!

Antes de mim
foram traçadas
de lágrimas
estas mesmas rotas.

Clara insónia



Cerrar as pálpebras,
senti-las cair pesadas
como no outono
as pétalas às rosas...

Mas não!
Toma conta de mim
tal inquietação
tal delírio de prosas
tal aurora de poesias
soltas brisas,

que me quedo insone
voadora peregrina
na asa
da minha própria sombra

frágil
tão frágil e tão pequena
desassossegada
clamo ao que me cerca
e me assombra
de dor humana

Ser ínfima poeira
acordada
ver tanta injustiça e cegueira
e não poder fazer nada!

Preciso
aprender a dar
meu coração
espiritual
Preciso
Saltar de mim
confraternizar
Preciso
reinventar o amor
dar
meu verdadeiro sentir
Preciso
valorizar
o acto de existir
Preciso
caminhar
do efémero ser
ao verdadeiro amor
Preciso
aprender
almejando crescer
sem nunca me bastar
ter.


sobrevivi vendo
resistindo com mansidão
a questão não está na violência
mas na permanente
observação
e na sutileza
costumo imaginar-me
como uma gazela na savana
espertas orelhas alertas
faro e olhos despertos
se a perseguem
da meia dúzia
de valentes saltos
para que o perseguidor
desista
a seguir deita-se
na grama
camuflada
sem folego nem,
para mais um salto...
Só em Sonhos

Pétala a pétala
A redonda rosa
Do dia se fecha

Entre o sonho e a ânsia
O querer e a dúvida
Primavera insana
Que em ondas me leva

Desmaiada dormia

E acordo colorida
pela voz do poeta,
mais não sou quem era!

Desperto ansiosa
Vento alteia a chama
sussurra
Suspira
inquieta

A Poesia.

Grão


em si encerra um ser perfeito,
um mundo.

Grão,
pequenino
mas se a terra o comer,
a chuva o lavar,
o calor do sol o beijar,
há-de ser
raíz
árvore
flor
fruto
semente
geração seguinte.



Uma Espiga

Uma espiga vibra no vento!
Ó esplendor de sol desvairado,
Ó ventre maturando
seus frutos,
Clítoris da terra fremente,
Útero
de pão e abundância,
Esperança,
Flor da Paz.
Umbigo da Natureza fecunda.
Felicidade é ver-te
bailar no azul
e saber que cumprirás
tua sorte
inteira.
Te deixarás colher
e debulhar
e moer
e transformar
em vida nova.
É essa tua essência
de renovado avançar sendo
um ser completo em ti mesmo
um ser total em se dividindo.


A escutar o grilo e o mar



Chamarás desditoso ao grilo
por ser negro?
Quem canta às estrelas?
Quem na noite soa
E nos embala?
Quem trila que trila
Sem parar?

Ah, a saudade de estar
Numa janela qualquer
Numa aldeia junto ao mar
Quieta
No silêncio suspensa
Sobre o penhasco
Escutando
O grilo e o mar
Companheiros do meu choro
Vozes brandas murmurando
É cantar!
É cantar!
É cantar!
Mas Não Sonhar


Sonhar é sentir-me triste
Porque é uma ameaça
De voltar a abrir os olhos
E de tomar consciência
De que a luz não é dourada
Nem as esferas são redondas
Nem as retas são direitas
Nem o sol brilha lá alto

Sonhar é sentir-me
É sentir-te

Sonhar
É muito triste
Porque quando abro os olhos
Vejo as paredes vazias
E sinto a nudez do espaço
E oiço o afiar das palavras.

Sonhar,
Como é triste!
Quando volto a abrir os olhos
Estou só eu
E a memória dos teus gestos.
Ao longe, os ecos do mundo
No silêncio, o choro de nós todos.

Sonhar,
É o que há de mais triste
Mas não sonhar
É a morte!
Nada há que impeça um rio


Que revoltos vão os rios!
Mas aqui e além há pontes
E, lá longe, o mar é calmo.

Ó Homens que is aos remos,
Avante! Arriba! Em frente!

Pois nada há que impeça um rio
De seguir o seu caminho

Ode ao amor


As armas ferem e matam.
Da ferida o sangue escorre e pinga
E afoga as pombas brancas
Que eram o escudo da gente
Contra as lanças e os fuzis.
E o sangue, que era a cor do amor,
fica uma crosta negra de luto.
Flor na Neve




Aqui o silêncio
É a solidão materializada
A bater as asas transparentes
Pelas paredes negras.


Aqui o presente
É este esperar desesperado
É este roer no meu peito
É esta gota a deslizar-me dos olhos.


Aqui a esperança
É como uma flor da neve
Que brota da capa de gelo
E persiste apesar do vento


Des-Ilusão


Eu quero a verdade
Custe o que custar.
Eu quero a Justiça
Doa a quem doer.
É por isso que escrevo
Tudo quanto penso
De bom e de mau
Em mim e nos outros.
Não temo as palavras,
Nem vos temo a vós
Que tanto oprimis
Que até pretendeis
Colocar barreiras
Na mente dos outros
Para serdes vós somente a reinar
Egoístas! Não quero!
Tenho um pensamento
E imensa ansiedade
De paz e de Amor
Justiça e Verdade

E já sei decerto
Que vós, me os não dais!

Gracias de Luna!

Permites-me que responda?
Para encontrares tua estrela
Aquela que o teu pé escrevia
Ergue bem alto o teu rosto
Vislumbra no infinito
Do céu escurecendo, o reflexo
De uma estrela, a mais bela

Aquela: Graçias de Luna!

TU

Tu, que cheiras a estrume
e a terra molhada;
tu, em cujos dedos
o pó negro se entranhou;
tu, de sorriso amargo
e de olhos tristes;
tu, que nem mesmo desistes
quando o ano é mau
e a colheita se perde;
tu que amas a terra
a paz e a família
(em que descarregas o fel
que no chão bebeste);
tu, cujos filhos
choram se te vêem,
te amam a medo;
tu, cuja mulher
é o fardo de tudo,
até das pancadas,

TU!
tambéns tens direito
à vida
a uma vida justa!
basta desta luta
obscura e desigual
entre o Homem e os elementos

Vamos,
reflecte e escolhe
com esperança no futuro!
Esta Poesia

sentida
emocionada
arrepiada
alma torturada
grito na garganta
perdura
magoa
não passa

fica
e dói porque deve
esta poesia!

MARIA PETRONILHO " A POETISA"


Edméa Barsotti






Poetisa do Além do rio

Poetisa do Além do mar

Poetisa da terra

Poetisa do céu

Poetisa do universo

É uma estrela maior

Luz das Luzes

Que ilumina a língua portuguesa

Com as suas graciosas escritas harmoniosas

O romantismo é a sua essência

Que impera a sensualidade de uma flor

Mulher guerreira e sonhadora

Seu talento flutua

Na sua alma sedutora



04/10/02

1:07hrs

uma vez única


ai perder-se a vida
a branca praia
deixar sem pena ou perda
olhar
com o sonho atrás do
virar a crista da onda
na borrasca
ficar levantado
ai do que saiba
da vida iluminada
minha mágua
minha ânsia
nua e plena
lançada
na nua crista da onda
arvorada
minha barca
asa do mar...


Releitura: Helena Armond
Buscar

Aprender a dar
meu ser
suspenso
meu universal
amor
Imenso
Além de mim
Buscar
o amor
nas fraternas mãos
que anseio
Buscar
não apenas
a face visível
das coisas
mas o ser
verdadeiro
Buscar
o supremo valor
buscar
existir
além
do efémero
imperfeito ser
Buscar
sempre
aprender
almejar
crescer
sem me deter
Buscar
o imenso
Ser!
choram as Marias

Eu hoje queria
qualquer nome, não Maria!
Um nome que não doesse
ser mulher que não se desse
nem por tanto amor sofresse!

Mas sendo Maria aceito
o soluço onde me deito
o mar se abrindo em meu peito

Os olhos doridos não fecho
nem o meu nome renego!


PRIMAVERA

Primavera
pode acontecer
sempre
que eu quizer
me dar
em amor
desabrochar
num outro coração
qualquer
numa leira
de saudade
verdejante
abrir a cada intante
minha ânsia
de ser
elevar ao céu o olhar
e no além azul de ti
rosas de mim
a passar
e um sol imenso
num claro beijo
brilhar!


Anoitece

Quanta doçura no céu!
Pouco a pouco
uma a uma
vai acordando
a tremer
estremunhada
da maior á mais pequena
no céu lilás
cada estrela

silencioso e brando
o sol
no horizonte outonal
de ouro e azul
se entretece

a lua vai emergindo
a larga face sorrindo
como que da vez primeira
em que tudo era inocência
e paz
sobre a nua terra!
Querido poeta em permanente alerta
quanta estrela perpassa e deixa
nos teus olhos doce encanto
uma outra estrela que fala
uma nova estrela que canta
na tua voz: Poesia!

Beijo carinhoso

Maria

30/9/2002
Silêncio
GUIDO CARLOS PIVA
(1947/2003)


Uma esmola de vento canta
Uma cor caramelo brilha
A tarde vai estendendo a noite
O sol se enrola e pisca...

O lusco vai e volta
O fusco vem e fica
Na rua um poeta espia
No céu uma cadente risca.

Silêncio!
O dia adormece longe...
A noite escurece o dia

Silêncio!
O poeta sonha!
Está nascendo uma poesia!

**** * **** *

Querido poeta em permanente alerta
quanta estrela perpassa e deixa
nos teus olhos doce encanto
uma outra estrela que fala
uma nova estrela que canta
na tua voz: Poesia!

Beijo carinhoso

Maria

30/9/2002


Silêncio
GUIDO CARLOS PIVA
(1947-2003)

Uma esmola de vento canta
Uma cor caramelo brilha
A tarde vai estendendo a noite
O sol se enrola e pisca...

O lusco vai e volta
O fusco vem e fica
Na rua um poeta espia
No céu uma cadente risca.

Silêncio!
O dia adormece longe...
A noite escurece o dia

Silêncio!
O poeta sonha!
Está nascendo uma poesia!

Voa a minha voz no vento


Ah, meu Deus há quanto
tanto!
voa este amor no vento
cantiga de encantamento
em que me dou como sou
te conto quanto te quero
soa a voz
livre de peias
companheiros
companheiras
todos me sabem amando
mas responde-me o silêncio
solitária voz no vento
que envio ao teu encontro
dizendo quanto carinho
no meu peito solitário
acalanto
onde te tenho e te guardo
vida toda
tanto tempo
diz-me que a noite finda
e virás de madrugada!
nada
cantigo vai solitária
até onde o amor esteja!
Sem solidão na sombra

Beijos na porta
que se abre
te reconhece
te chama
Vem, é tua a casa
Senta-te à mesa
Vem
Adormece
no meu colo
sem voz velo
por teu sono
no meu regaço
descansa!

Não me guardes
para os dias de alegria
estou contigo a toda a hora
teu coração em ninh'alma
por ti respirando a vida

Não me guardes na ausência
que o tempo da nossa vida
é um punhada de areia
que escorre em fina ampulheta
sem sombra de misericórdia

quero-te mesmo em silêncio
longe da sombra do tempo
é nesta hora hora que embalo
o sonho que vivo e calo
de um momento, um momento!

Avé
Maria

em mim te guardo
que mal algum te atinja
que sempre sorrias à vida

Avé
Maria

Que semeis alegria
neste outro coração
que pulsa
de esperança
mas nem ousa
murmurar no teu ouvido
que por ti vive batendo

Avé
Maria

que a pura alma
te entrega


coração amado
escuta o meu
descompassado
mas vivo


Avé
Maria
vem

consolar minha alma


quanto anseio teu carinho,
como semente há muito enterrada
anseia uma gota que seja
da tua ternura
para irrromper de mim
e florir contigo!

falta-me a palavra de esperança
que de ti esperava
mas que não chegou!

e protejo o teu silêncio
com o meu recato

o amor guardo
fundo em meu peito
por ti, tão teu!

Que farei
se te amo mais que
a mim mesma?

dia tão longamente esperado
se viu condenado
ao sonho desfeito

meu

olhar perdido longínquo
na vã busca do teu
que aguardo

coração
tão só
teu

OS MEUS VERSOS

QUERIA DAR A MEUS VERSOS
O TOM MELANCÓLICO
DA CHUVA A CAIR NO SOLO.
QUERIA DAR-LHES TONS RUBROS
DE LABAREDAS EM NOITE NEGRA,
MAS NINGUÉM ENTENDERIA!
OS MEUS VERSOS
NÃO PASSAM DE CHORO CONTIDO,
DE LÁGRIMAS QUE NÃO VAZEI
SENÃO PARA DENTRO DE MIM,
OU EM LETRAS NO PAPEL.



Cansadas lágrimas
cansadas sombras
cansados abrigos desnudos
cansadas noites perpétuas
de silêncios mastigados
martirizadas ausências
cansada serviçal disponível
guerreira emérita
que em constante batalha
padece e é esquecida
indefesa e insepulta
na guerra há muito perdida


Do mar







Vai e vem
É branca a espuma
É verde o mar
Vai e vem
E quando rola
A areia se evola
Na água salgada
Meu mar
Maré cheia
Vem
Maré baixa
Vai
O mar



Na orla
Espero
Descalça
O teu voltar!


Só




Uma gaivota
ronda
redonda
no alto
mar

só

o verde das águas
o azul cinza do céu!

Se me nascessem asas,
se me crescessem penas,

essa gaivota
era eu!
Do Som das palavras



Oiço o cantar das palavras

Digo LEITE
e oiço manhã, açucena, aconchego, princípio...
e oiço - MAR

digo MAR
e oiço o nascer da vida
e oiço o entrechocar titânico das placas intercontinentais
e oiço a luz e a sombra
e oiço
vaaaatctch....uvaaaatchtchchch...
e vejo tanto
e sinto o ventre da minha mãe! viagem...!!!!



O sol sorriu
Chegou aos céus
Lavados

Na brisa morna
O calor
O puro azul
A doçura



Hoje finalmente chegou
A cantar, a primavera!
PARA NÃO FALAR DE SAUDADE


EU, QUE SOU FILHA DAS ONDAS,
GRITOS DE MARÉS,
GAIVOTAS EM VOOS RASANTES,
ESPUMAS,


A POUCO E POUCO ME ENTERRO


NOS NUS AREAIS
EM BRUMAS.


NOS MEUS OLHOS VAI MORRENDO
A LUZ QUE DELES DIZIAS...


A POUCO E POUCO ME PERCO
BUSCANDO TUAS MÃOS
SE VOLTO
TRAZENDO AS MINHAS VAZIAS.


SE A ILUSÃO NÃO DOESSE


SE MEU CORAÇÃO VOLTASSE
A BATER COMO BATIA!
SE ESFRIASSE,
SE ESQUECESSE!
SE UMA ONDA O NÃO LEVASSE
PR'A UMA PRAIA VAZIA!
ONDE SE LANÇA
SE ABRAZA
NA AREIA AGORA RASA
QUE DUNAS LHE PROMETIA!
Corre triste lento e ledo
Calmo este dia de outono.
Namoro daqui o Tejo
Ora azul ora cinzento.

Paira a névoa na janela.
Cabecinha sob a asa,
Os passaros estão dormindo

Se eu pudesse embalar-te
Em meu carinho beijar-te
Tomar em mim tua dor
Trocá-la por só amor!

ONDE ACABA O HORIZONTE?





Acredita que podes voar!
Pega na asa dos teus sonhos
e segue a luz dos teus olhos
quando os perdes no mar.

Acredita que podes voar!
És pássaro vadio, borboleta, abelha, bruxa...
Lança-te no vasio
e faz da imensidão tua estrada.

Acredita que podes voar!
Como as pétalas da flor
que seguem leves no vento,
amor, perdição, pensamento....

longe, longe, longe, longe...

Onde acaba o horizonte?
Contigo


Dizes que
Não me esqueceste
E eu digo
Estar contigo
Prisioneira
Te guardando
Acordada
E dormindo
Revivivendo
Relembrando
Beijo a beijo
Momento
Nosso o tempo
Limitado
Infinito
Minha alegria
Mora escondida
Em teu peito
E teu sorriso
Baila
Na minha boca
Calada
E ainda
Que tu não saibas
Sentir-me-ei
Abraçada
Te abraçando
Em meus braços
Tornando reais
Nossos sonhos


Se a saudade for
o amor parado dentro
do coração
que dormindo
vai em sonhos se perdendo
e nesse sonho chorando
se esquecendo de acordar
se esquecendo de vibrar
se esquecendo de cantar
pouco a pouco se perdendo

Venha o sol e seque o pranto

fora de nós
mas cá dentro
que se esboce um sorriso
em breve convertido em riso
pulse forte sinta o brilho
acordar de novo
vendo
ao nosso redor tudo e tanto
flores de novo se abrindo
asas alegres pairando
exulte o ser no caminho
em si mesmo desenhando
a tristeza vá mudando
quebrando o relógio parado
mude-se o tempo do pranto
em novo amor convertido


TÁCITO ACORDO




Sei que estou contigo

Silenciosa e(terna)

Mesmo se escondo

A paixão que te dou

Inteira e clara

QUERO SEMPRE


Manter o afecto
A comunhão
Manter a simplicidade
De meu coração
De meu nome Maria
Da dádiva serena
Seguir os horizontes
Que o céu além desenha
Seguir verde ainda
Em flor
De verde esperança
Voar como asa branca
E encontrar tua alma!

Eis-me
em doces sonhos perdida
revivo
a tua presença
longe de mim
dentro de mim
encantada
moura antiga
num feitiço de indif'rença
que ao teu olhar se quebra
que um toque teu incendeia
eternamente menina
em teu carinho se embala
pulsante paixão emana
meu coração arde em chama
reflexo de ti, maré viva!
DOCE MEMÓRIA



Ah, se eu pudesse

tranformar-me em borboleta

que secreta te seguisse,

escondida viajassse

na aba da tua sombra!



A frescura do teu dia,

centelha na noite escura!



No teu sorriso brilhasse!



Soubesse a mel a lembrança

que meu sabor te deixasse

e breve ausência bastasse

pr'a sonhar reencontrá-la!



Fazer minha a liberdade







Sou livre!



Tão livre

como um vento quieto,

um mar de calmaria,

um pardal ferido à fisga,

um pássaro de asas cortadas!



O meu pensamento é que voa,

não pára!



Não me aquieto nunca,

sou e vou

ligeireza,

sou e vou

de busca em busca:



Tanta, tanta pergunta!



Voo na mata cerrada

atrás de uma borboleta

ora sigo-a,

ora perco-a



ela, seguindo o perfume que a chama



e eu, cega, na erva

tropeço, enleio-me confusa

mas desistir...



não, nunca!

Por mais que doa!



Há uma asa qualquer

que dentro de mim se agita

e me impele e me grita



voa!





MEU SONHO SER


Haja o que houver
seguirei igual a mim-mesma:
Figura de proa ao vento e ao sol,
aguentarei no rosto o sal do mar
serei autêntica
única
livre como o vento
que me faz oscilar
e avançar mar dentro
que refresca minha alma
e a mantém límpida.

De outra forma
eu não seria.

Amo o brilho da manhã
o sol a bater na janela
o reflexo no espelho d'água
o ar leve, a mente leve, o riso...
Rir que nem uma criança ri!
Olhar o meu sorriso e vê-lo
doce, para além de toda a
amargura
da má-sorte, sei lá
e continuar a acreditar.

Meu sonho ser.





segunda-feira, fevereiro 02, 2004

LIRA-ROSA

Serei sempre tua rosa
Sem espinhos e
Sem queixume
Se me quiseres

Lira rosa
Perfumada
Muito tua

Amada

Sendo eu fogo
E tu lume

Tarda em afogar-se

em silencisosa tristeza

o dia

pedra solta que rola

na dura encosta da vida

onde meus sonhos

se perdem

nevados

lá na altura

fossem eles corolário

de minha vida

sentir-me-ia

pedra preciosa

esmeralda

turmalina

uma joia verde

de esperança!

Mas de nada valeria

que sigo nua perdida

sem elo

desengastada

sentindo na minha alma

a dura aresta da vida!



CHEGANDO, O OUTONO





Aí

...e aqui
pleno
e tão
sincero
se faz
o sorriso!
Ainda
que esteja
escondida
a lua
e o céu
na colcha
de névoa
que leve
anuncia
a noite
do primeiro dia
do mês
de setembro,
cante leve
o vento
nas douradas
folhas
nas frutas
maduras...
bendigo
o outono
até nós chegando.
Que bom é
vivê-lo
total
fundo
intenso!
Íntima
certeza,
estação
do bom-senso,
mantendo
a centellha
do amor
e do sonho.
Fulgente
sorriso
aurora
de onde
pura
solta
emerge
cantando
a poesia!
Paira
no céu alto
ténue
nevoeiro
...mas um fogo
imenso
renasce
no peito,
que mais
brilha
a esperança
que o ouro
e mantenho
límpido
o sorriso!

SAUDADES E NOTÍCIAS


Cresce em mim, se adensa
dentro de minha'alma
como raiz funda
a saudade imensa
onda que me leva
vogando qual onda
feita branca espuma
por amor da vossa
arte e poesia...

Mas no peito ainda
algo se me nega
(onde a minha força?)
trava a minha asa
me fere e magoa
e na móvel tela
cheia de beleza
de mim só vós chega
minha ausência ainda!
Que ao menos eu possa
dizer quanto é clara
e por vós imensa
a minha ternura,
ainda que oculta:
Amizade tanta
em meus olhos feita
água que desliza...


Resta-nos a esperança
de que breve seja
esta ausência longa
que tanto me pesa
que tanto se esforça
na vossa procura.


Desde sempre e ainda
o abraço da vossa
amiga Maria

Ai, Perder-se a Vida Uma Vez Única!








Asa de mar
minha barca
arvorada
na nua crista da onda


lançada
nua e plena
minha ânsia
minha mágoa


De vida iluminada


ai do que saiba
ficar levantado
ma borrasca
virar a crista da onda


com o sonho atrás do olhar
deixar sem pena ou perda
a branca praia

ai perder-se a vida
uma vez única!!!



Ó SAUDADE MINHA!


Sede, amor, carinho
Levo no meu peito
Um barco de fogo
Uma nuvem rosa
Na tarde que tomba
Uma onda verde
No mar sem guarida
Andorinha mansa
Na tua janela
Uma leve brisa
Pequenina estrela
Flor abrindo ao sol
Da tua ternura
Voo manso de ave
Coração de vela
Seguindo à deriva
Branca ao largo e solta
Ó saudade minha!

seguindo o amor


De olhos cerrados
te abraço
sinto-te
dentro do meu peito
onde o coração
fala mais alto
É teu o meu corpo
tremendo
ausente do teu
há tanto tempo
sempre
constante
habitas
inflamas
em loucura
todos os meus
sentimentos
pensamentos
que me habitam
na tua sombra viajam
em volutas
em lembranças
de tantos carinhos
trocados
nossos dois corpos colados
no ar meus gritos
teus ais
suspiros ternos
tão nossos
recordados
sofridos
de ausência
em chama
meu inteiro ser
te chama
volta!
meus lábios pedem aos teus
minha urgência
diz à tua
volta!
Quando fechar os meus olhos
quando cerrar os meus braços
quero a alegre certeza
de ti em mim
inteiro
e não somente
o sonho
meu louco sonho
de amar-te no vazio
apaixonada
memória.



O ORVALHO E A ROSA




ROSA BRANCA
E APENAS ENTREABERTA
NASCIDA NO VERÃO
AO SOL E AO VENTO EXPOSTA,

DESFOLHA-ME EM SETEMBRO
DEVAGAR
COM TERNURA
E BEIJA-ME AS PÉTALAS DE OPALA
UMA A UMA
E DEIXA-ME NUA
E AMA-ME TODA
COMO SE ORVALHO FORAS,

O ÚLTIMO ORVALHO
QUE BEIJOU A ROSA.
EU SOU A QUE FLORIU




EU SOU A QUE FLORIU
NO MAR DE URTIGAS
EU SOU A QUE NADA TENHO,
A NÃO SER ALMA
EU SOU A QUE TUDO CALO,
MENOS A VOZ DA CONSCIÊNCIA

... QUERIAM QUE EU TIVESSE
NO CORAÇÃO UM DESERTO
E AREIA NA CABEÇA!
PALAVRA POR INVENTAR



Não há horizonte que baste
para o belo que procuro
essa luz atrás do escuro




a que me leva adiante



nenhum vento me detenha
que a força que me leva
esta asa branca que voa
adentro da minha alma
e que almeja só pureza,



viverá enquanto eu viva.


Sei que sou nada, sou terra,
pequena erva daninha,
meu olhar ao sol se eleva,
alta ânsia é a minha



urgente constante procura
pela paz que se adivinha
além de aonde se chega
se quer ir além ainda



Chamem-lhe Alma, Deus, Loucura!




Chamem-me doida varrida
Nada do É me interessa,
quero algo de além vida.



Não há tempo que me chegue



para o querer que procuro.
Para um luzir tão puro
no meu íntimo universo...



Quero subir, crescer, voar
além da própria beleza,
além de alguma certeza

... palavra por inventar.


NA INQUIETAÇÃO




Como cadeia sem fim me conheço.
Dentro de mim me interrogo.



O escuro eu de mim
Pergunta ao meu claro eu:


De onde vim e o que sou?



O que me fez e me criou?


Aonde estou e porque sou?



Serei eu quem alguém sonhou?
Serei eu só sonho meu?

Só sou


Os largos caminhos estreitos
Percorro de olhos acesosEm busca de mim

Por amor de mim


Inquieta
Pela clara certeza...




QUE ONDA DE TRISTEZA PASSA!
QUE SABOR DE AMARGURA,
QUE ANGÚSTIA MEU PEITO CALA!


ABRE-SE EM SILÊNCIO A BOCA,
QUE SÓ O SILÊNCIO ME ABRAÇA,
QUE SÓ MEU LAMENTO SOA!

DE PÉ!




O ECO
O RESSOAR DISTANTE
ME CHEGA DE LONGE


O NÃO-ESTAR
ESTANDO
O NÃO-SER
SENDO.


EM VÃO GRITO
EM VÃO MORRO
EM VÃO FICO
NUM MUNDO TÃO ERMO
QUE EU-SÓ HABITO.


DIZEM SIM
NEGANDO
DIZEM O DITO
POR NÃO DITO


NÃO JOGO!
NÃO ACREDITO
NO AMAR-FEITO.


TENHO AS MÃOS
ATADAS
CONTRA O PEITO.


DE OLHOS RASOS
VERMELHAS BRASAS
A LUZIR NO ROSTO.


O CARRASCO CHEGA
E EU À ESPERA,


DE PÉ!
NO MEU POSTO!

AH, QUEM ME DERA!


AH QUEM ME DERA QUERER
O QUE TODO O MUNDO QUER!

AH QUEM ME DERA ACEITAR
O QUE TODO O MUNDO ACEITA!


MAS HÁ BORBOLETAS BRANCAS
E VERMELHAS
VOANDO

HÁ AS VIVAS FLORES
QUE VOAM

EU QUERO APENAS
SER LIVRE
E SOBREVOAR
E CIRCULAR PELO AR...

MESMO QUE MUITO PEQUENA
QUERO SER UMA BORBOLETA!


ONDE TUDO É VERDADEIRO


SE ALGUM DIA ME VIRES CHORAR
PENSA QUE AS MINHAS LÁGRIMAS
SÃO GOTAS DE ORVALHO
QUE O ACASO TROUXE
E ESPALHOU PELO ROSTO.


SE ALGUM DIA ME VIRES RIR
... PARA QUE DIZER-TE?
JÁ SABES QUE MINTO
JÁ SABES QUE NA MINHA VIDA
SÓ HÁ TREVAS E SOLIDÃO...


MAS, SE PORVENTURA ME VIRES MORRER,
QUANDO O DERRADEIRO SOPRO
SE EVADIR DE MIM,
ELEVA OS TEUS OLHOS PARA ALÉM DAS NUVENS
PARA LÁ ONDE O SOL É MESMO SOL
E A LUA, O AMOR E A ALEGRIA
SÃO MESMO TUDO ISSO
PORQUE TUDO É VERDADEIRO


... E ENTÃO PODERÁS PENSAR
TER SIDO O MEU PRANTO DESTILADO
DA MAIS AMARGA, MAIS CRUEL DAS DORES!


SE OS TEUS BRAÇOS SE FECHAM


Se os teus braços se fecham
Se o teu olhar me negas
Bem podem passar
À margem de mim
Todas
As mais floridas
As mais verdes e garridas
Primaveras!
Na solidão de meus dias
Sob as pálpebras fechadas
As imagens fugidias
Dos teus gestos

Soltas
As minhas lágrimas
Soluços entrecortados
Memórias
De horas
Vividas

Nada mais quero da vida
Se o meu carinho desprezas
Do que em amargas certezas
Cortes cerces os meus dias!

TUA VOZ QUE NÃO MAIS FALA






Na angústia
espero desesperada
tua voz que me falava
de tanta coisa e de nada
tua voz em que voava
te sentia me sentia
enlevada e embalada
companheira
solitária
ainda assim
amparava
meu esforço de ser
cada dia
sonhava
teu rosto através da palavra
ia no teu sorriro
que nos meus lábios se via

Agora
sinto-me pena
sem que a mais pequena brisa
páre um segundo que seja
para erguer minha alma
para salvar minha vida!
COTOVIA

Vem, meu amor, vem falar-me de novo
das estradas por onde os meus olhos
de amor,
em fulgurantes voos nos levaram
vem
traz-me a brisa pressurosa
de nossas renovadas primaveras
perfumadas
de
ondas
de
mares de pétalas
rosas e jasmims
de mim
de ti
desfolhadas
vem
dizer-me que deixaram de ser
insones
tuas longas madrugadas
porque
nelas revives em sonhos
as
nossas benditas horas
as
nossas tardes roubadas
fragrâncias antes sonhadas
preciosas
ânforas de beijos
de
caricias desnudadas
vem
meu amor
falar-me das alegrias
traz nos teus dedos esperanças
de puras manhãs
doces dias
de lembranças
afogadas
nos meus olhos estradas de ouro
pela cor dos teus
encontradas!
SINGULAR SILHUETA


que soprem diáfanos e brancos
os ventos de mudança
que varram a tristeza sem nome
que por mim passa
que se percam no longe
nos confins
onde a esperaça
houvera dar por si renascida

que se erga imensa e clara
a figura
única
de minha alma com a tua
singular
silhueta
de dádiva
cúmplice como outrora!


Tentando reencontrar-me
percorro
um a um
todos
os caminhos antes percorridos
tantos escolhos
tantos espinhos

suponho
deveriam meus pés
acostumados
a nenhuns desvelos
incólumes percorrê-los

Mas não!
é vão pensar-se
que existam antídotos
fabricados
de sofrimentos passados

erro num ermo
eterno
mas vou
(talvez no engano)
desesperado
de vir a ver a luz
o branco nenúfar
a clara
fulgurante
mágica
verdade
de que se faz
minha ideia
ávida
de bonança.


SOLTA DE MIM O PASSARINHO


paixão
tangente de ti
no escuro
me perco
se te não tenho
detens
o meu sorriso
suspenso
no teu silêncio
vivo na dúvida
permaneço na inverteza
calada
a voz presa
de emaranhadas
proibições
muralhas erguidas
cada vez mais altas.
É certo que o meu querer
tem asas
mas falta-me o vento
para me lançar
e sem voar
não tenho
como fabricar de nuvens
inventar de novo
este meu sorriso
moribundo

solta de mim
o passarinho
que cantava
na ventura de teu peito
nem que apenas valha
seu canto
um suave laivo
um breve sorriso
dos tantos
que entre nós voavam,
meu amado!


Não esqueças a minha ternura
feita poeira
chita esgarçada
no fulgor de teus dias

se bem eu seja
uma figura apagada
etérea
que vive
atrás de uma incógnita janela,

não colecciones as minhas lágrimas
no bolso da tua camisa
nada farão crescer senão a angústia
no lugar da paixão
que
de nossos corações se eleva
se em comunhão
na ideia
no carinho
na palavra alada
distante
que nos dá a ilusão de acordarmos
com a mesma aurora
de olharmos o mesmo sol,
eu dentro de mim prisioneira
e tu vogando ao sabor do que te convier
te for
talvez possível.
Onde os poemas derramados
de doçura
que me cantaste
em que me cantavas
onde apaixonadamente me enlevavas
no som da tua procura?

Não me deixes afogada no silêncio
no humilde silêncio de ser
ocasião fortuita de prazer
a poeta triste
que sendo tua
não mais que tua fugaz atenção
necessita!



Deus, dá-me aquelas asas que já tive
que perdi eu nem sei onde
quero buscar o amor que se perde
nas entrelinhas
no espaço sem nome
onde tudo ocorre sem nada ocorrer

Deus, dá-me de novo a ilusão
de ter perto o meu amor
quando me levanto e deito
na minha cama solitária
na minha casa vazia de alguém

Deus trás-me a ilusão da sua voz
me fazendo sorrir nas manhãs,
o alento de seus bons dias
e faz-me dormir no imaginário colo
do meu amado
com a luz deste espaço a meu lado!


sonhar o mar


meus olhos
castanhas algas algas
sonham

longínquas as ondas

perpassam ligeiras sombras
de mistério
alforrecas
mergulho em busca delas
e volto
envolta de sombras

estremeço
tusso e tremo
na vertente em movimento
salto
penetro outro mundo

e rio
e leve me sinto

lambo o sal
bebo o salpico
luzem-me os olhos de espanto

cobre-me o ouro mais rico

... e dentro de mim
so
sonho.


lágrima



escondo
o
encanto,
desvio
calada
o
pranto,
desdigo
a
cor
do riso.


fonte
tremente,
vela
no rosto
à
deriva.
rio
fluindo,
desvendo
a
raiz
de mim,
roxo lírio.


levo
o
desfeito
mar
magoado
e
exponho
o
querer
sonhado


se
em minha fonte
surgira
a
esperança
o
brilho
claro
que fora


a
ventura
o
arco íris
a
opala
o
claro resplendor
da
aurora.


ALÉM DO CERCO DE SILÊNCIO




EU MAR DE MIM
SAL DE MIM
MARÉS DE MIM

LÁGRIMAS QUE VERTO E ABSORVO

EU ÁGUA E AREIA
EU ILHA NO NADA

EU SÓ DE MIM

DIANTE DE MIM CAIO
A MIM A MÃO ESTENDO
POR MIM MESMA CHAMO
COMIGO ME CALO
E CORRO
E ME LEVANTO
EM MEU COLO ME EMBALO

RIO QUE PASSO
NÃO SEI DONDE VENHO
ONDE DESAGUO
EU FRÁGIL LEITO
MIÚDO CASCALHO

EU PÉRGOLA QUE LEVITO
NÃO SEI ONDE PERTENÇO

ME AMO E REGEITO

ONDA NO MAR SOLITÁRIO

DOCE RIO CORRENDO
EM MIM ME AFOGANDO

MAS RENASÇO SORRINDO

ALÉM DE
ALÉM DOS
ALÉM DO

CERCO DE SILÊNCIO.


NÃO POSSO DESENHAR PÁSSAROS



NÃO POSSO DESENHAR PÁSSAROS
OS PÁSSAROS SE DESENHAM A SI MESMOS


INCESSANTEMENTE


EM MÚLTIPLAS FORMAS AÉREAS DINÂMICAS
MUDAM CONSTANTEMENTE
A FORMA E O REFLEXO DAS ASAS


COMO SE NO CÉU ESCREVESSEM



SOBREVOAM SOBREPONDO-SE
INCESSANTES
INFINDÁVEIS
SONÂMBULOS ILUMINADOS.


Vento, leva-me e às mágoas


Ai, se o vento manso
me levasse esvoando
nesta tarde calma
nesta tarde branca
como pena de pomba
caída abandonada
e eu me fosse indo
nem se percebebendo
leve leve e mansa
que estou carregada
de dor e de mágoa
de águas pairando
ao rasar dos olhos
meu ser exaurido
nem sabe de si
que anda tão perdido
que anda tão magoado
que anda tão cansado
de ficar
e tão desejoso
de ir!

Não Olhes Mais Meus Olhos




Não olhes mais meus olhos
Não, não olhes!
Tristes de ti por ti
Te farão triste
De tal amor, tão louco amor
Que semeaste


Em coração de fértil dar
Mas não colheste.


Lágrima solta vadia
Deixa correr
Que tanto seus caminhos sabe


A de sofrer


Deixa que sonhe e pense
Quem deveria
Nem nunca sequer ousado


Sequer nascer.